Tirem-me da garagem!
João Pedro George
06 de junho

Tirem-me da garagem!

Notícias de grande interesse antropológico, como a polémica gerada pela estátua de um antigo bispo de Braga a segurar um báculo (bastão) com formas que lembram um pénis, mostram-nos um país ignorado, a que os comentadores e cronistas negam qualquer significado ou grandeza.

Ouvimos queixas de todos os lados. Queixas que monopolizam as manchetes e as atenções, que dominam as redes sociais, que concentram todos os focos.

Queixumes acerca da ladroeira dos bancos, da corrupção na política, do juiz Ivo Rosa, da prescrição das multas de Ricardo Salgado (um trampolineiro irreparavelmente grotesco, com uma cara que parece a parte da frente de um desastre), da nova PIDE do Facebook e do Twitter, da ameaça à liberdade do politicamente correcto, das audições nas comissões parlamentares de Joe Berardo (um ratão que já merecia uma lenda), Nuno Vasconcellos (o gajo da Ongoing, cujo cabelo é uma coisa biologicamente inexplicável), Luís Filipe Vieira (um produto típico do artesanato português) e Bernardo Moniz da Maia (com tanto dinheiro como ele, também eu me dispunha a fazer a figura do palhaço das bofetadas), do aumento de capital que o Estado fez na TAP, da praga dos rankings das escolas, da candidata do PSD à Câmara da Amadora (Suzana Garcia, a advogada que nunca fecha o frasco de champô e deixa o lavatório cheio de cabelos), do caso Selminho (Rui Moreira, um homem que se esquece sempre de baixar a tampa da retrete e nunca pendura a toalha molhada depois do duche), da governamentalização das Forças Armadas (reforma do marciano Cravinho), dos efeitos colaterais das vacinas da Covid-19, do deslumbramento das televisões com a chegada dos turistas ingleses ao Algarve (serpentinas, fogos de artifício, revoada de pombas brancas), dos ataques de João Galamba à liberdade de imprensa (a evolução enganou-se quando inventou este javali assanhado), dos negócios imobiliários do presidente da Câmara de Lisboa (o enjoativo Fernando Medina, um homem sepultado dentro de si próprio, como dizia Camilo sobre Vieira de Castro), do mamute hospitalar em Alcântara (autorizado por Manuel Salgado, o arquitecto que põe os sapatos em cima da secretária enquanto fuma charutos), dos deputados investigados por moradas falsas, da raspadinha do património, de José Miguel Júdice (conselho: quando não souberem como terminar uma lista terrivelmente longa, escrevam José Miguel Júdice).

Podemos mudar de assunto? (James Joyce dizia que já que não podemos mudar de país, ao menos mudemos de conversa.)
É que enquanto os órgãos de comunicação social estão ocupados com estas notícias, que ficam aquém da densidade do País, os acontecimentos sérios, realmente importantes, passam ao lado dos leitores, são varridos para baixo do tapete dos telejornais, circulam quase clandestinamente no WhatsApp.

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