Borlas & porreirismo:  é a cultura, estúpido!
João Pedro George
31 de outubro de 2018

Borlas & porreirismo: é a cultura, estúpido!

Com o embuste da ampliação do CV, vários festivais, eventos culturais e desportivos, instituições públicas, universidades, empresas, jornais, revistas, estações de televisão e de rádio, etc., usam e abusam de voluntários e estagiários a quem não pagam um único cêntimo pelas tarefas que asseguram

Há alguns anos, convidaram-me para escrever um texto que integraria uma obra que seria publicada pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda. Antes de dizer sim ou não, perguntei qual seria a contrapartida financeira por esse meu trabalho, ao que me responderam, balbuciando: "Bem, trata-se de publicar na Imprensa Nacional…" Depois de, durante vários segundos, me fazer de parvo (nunca conheci ninguém que conseguisse fazer-se de parvo com tanta facilidade como eu), e perante a insistência bacoca do meu interlocutor sobre as vantagens, para o meu curriculum, de publicar numa editora como a Imprensa Nacional, retorqui que valorizava mais a ideia de ter o meu frigorífico cheio todas as semanas que a própria existência de uma editora prestigiada como a Imprensa Nacional. A equipa universitária que estava a coordenar o livro, note-se, trabalhava no âmbito de um projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

Podia multiplicar os exemplos, retirados da minha experiência pessoal, em que me pediram para trabalhar gratuitamente, quase sempre com o mesmo argumento: "É bom para o seu curriculum." Mas não quero desfalcar a paciência do leitor. Porque a questão é esta: deve-se pagar sempre a quem trabalha? Todo o trabalho deve ser remunerado, seja ele permanente ou temporário? As empresas, entidades e organizações que recorrem sistematicamente à figura do "trabalho voluntário" – termo capcioso, pois todo o trabalho, exceptuando o trabalho escravo, é voluntário – acham que não. Os argumentos para justificar a iniquidade de ganhar dinheiro sugando e parasitando o trabalho dos outros são vários, mas entroncam quase todos na mesmíssima cantilena: o enriquecimento do curriculum.

Com o embuste da ampliação do CV, vários festivais, eventos culturais e desportivos, instituições públicas, universidades, empresas, jornais, revistas, estações de televisão e de rádio, etc., usam e abusam de voluntários e estagiários a quem não pagam um único cêntimo pelas tarefas que asseguram. Tarefas que, em muitos casos, são essenciais ou indispensáveis ao bom funcionamento da instituição ou do evento. O número de empresas que aceitam estágios não remunerados para tapar carências de trabalhadores permanentes e poupar nos salários, e/ou por razões fiscais, está por determinar, mas estima-se que seja considerável (se visitarem o site Ganhem Vergonha! – Plataforma de Denúncia de Empregadores Sem Vergonha, podem fazer uma ideia).

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