O combate pelo centro político
Eduardo Dâmaso
01 de dezembro de 2021

O combate pelo centro político

Rui Rio tem agora todas as condições de legitimidade política para construir a sua estratégia e narrativa eleitoral. Saiu reforçado da luta pela liderança, tem um objetivo pragmático com o posicionamento do partido ao centro.

A vitória de Rui Rio no PSD, confirmando-o como líder, pode ter muitas e inacabadas leituras políticas. Algumas delas, têm vindo a fazer caminho desde sábado, começando pela que estabelece um triunfo dos "militantes de base" contra os barões do aparelho, induzida pelo próprio Rio e apoiantes. O mais importante, porém, não está nessa dicotomia que se esgota na relação do PSD consigo próprio. O que importa, arrumada a questão pela liderança, está em saber se Rui Rio é capaz de ser consequente na batalha pelo centro político que vai ser travada nas eleições de janeiro. Se é escutado pelo País, devolvendo o seu partido a um lugar onde pode aspirar a reconstruir uma estratégia de bipolarização com o PS que não o deixe dependente da direita radical. Ou se, pelo contrário, falha esse objetivo e reduz o PSD a uma mera bengala, ainda que em nome da Pátria, do PS e das suas políticas.

Rui Rio tem agora todas as condições de legitimidade política para construir a sua estratégia e narrativa eleitoral. Saiu reforçado da luta pela liderança, tem um objetivo pragmático com o posicionamento do partido ao centro, mas não lhe bastará proclamar essa estratégia quando, na verdade, o ponto de chegada pode ser apenas um acordo de governação com o PS para os primeiros dois anos da legislatura. O PSD joga nestas eleições muito mais do que isso. Tal como, de resto, todo o sistema político. A governabilidade do País está para lá desses dois anos e passa muito pela ultrapassagem da atual fase de fragmentação que se vive no espaço do centro-direita. Só um PSD forte, que seja capaz de furar a barreira abaixo dos 30% de intenções de voto, que o consolide ao centro e lhe devolva uma boa parte da dinâmica eleitoral que já teve, pode moldar todo o espaço à sua direita, seja aquele que está instalado no seu próprio partido ou o que lhe é exterior e é hoje repartido pelo Chega, pela Iniciativa Liberal e, ainda, pelo CDS.

O centro político deve ser mais do que a expressão ideologicamente vazia do velho "centrão" eleitoral, constituído por quase um milhão de votos que oscilava entre PS e PSD, dando maiorias confortáveis, ou mesmo absolutas, a um e a outro. Foi precisamente o facto de os dois partidos terem deixado esvaziar esse campo privilegiado da moderação, do diálogo, da tolerância e do respeito pelo pluralismo e pela diversidade de opiniões, que conduziu ao crescimento dos populismos à direita e à esquerda. Seduzidos pela força eleitoral do centrão, PS e PSD não lhe deram materialidade política reformista. Limitaram-se a gerir clientelas.

Para continuar a ler
Já tem conta? Faça login
Para activar o código da revista, clique aqui
Opinião Ver mais