Uma junta médica ou um inquérito
Carlos Rodrigues Lima Subdiretor
18 de outubro de 2018

Uma junta médica ou um inquérito

A leitura do livro de Jorge Silva Carvalho conduz-nos à conclusão de que os serviços secretos são utilizados pelo poder como uma matilha pronta a atacar inimigos. Há coragem política para investigar as eventuais ilegalidades? Não, não há, porque elas dão jeito ao poder.

Há duas interpretações possíveis sobre a extensa análise que a SÁBADO faz, esta semana, do livro de Jorge Silva Carvalho, antigo director do Serviço de Informações Estratégicas e Defesa (SIED): ou se convoca uma junta médica que ateste, sem margem para dúvida, uma qualquer doença mental do autor, confirmando uma extraordinária capacidade de efabulação, decretando a inimputabilidade do mesmo; ou alguém exige uma rigorosa investigação aos serviços de informações do Estado que, segundo Silva Carvalho, passaram os últimos anos a operar na ilegalidade consentida e protegida pelo segredo de Estado. 

Neste tema não deve haver meias medidas ou meias palavras. Até à entrada em vigor da nova lei que já permite o acesso dos serviços aos chamados metadados das chamadas telefónicas, como a facturação detalhada, mas que está pendente no Tribunal Constitucional, as secretas não podem aceder a tais dados. Certo é que, como refere Jorge Silva Carvalho no livro Ao Serviço de Portugal, nos últimos anos, as fontes humanas nas operadores forneceram, por diversas vezes, facturações detalhadas aos espiões, fossem estes suspeitos de terrorismo ou jornalistas. E políticos, empresários, juízes, procuradores, polícias? O antigo espião não refere, mas a dúvida, perante o regabofe descrito no livro, é legítima e deve ser esclarecida. Haja para isso vontade. 

Foi, segundo Silva Carvalho, "ao serviço de Portugal" que os serviços também invadiram a sede de um partido político, ao que tudo indica o antigo PSR, um dos partidos que esteve na génese do Bloco de Esquerda, e durante uma noite copiaram as fichas de militantes. Pelo menos, ao contrário da PIDE, não houve violência, mas houve uma fractura exposta na liberdade de associação partidária, um atentado ao estado de Direito. Alguém terá coragem para, ainda que os factos remontem, provavelmente, à década de 90 pedir uma investigação séria a rigorosa? 

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