O triunfo do capitão Nascimento
Carlos Rodrigues Lima Subdiretor
31 de outubro de 2018

O triunfo do capitão Nascimento

Talvez o mundo ainda precise de mais ditadores para entender a necessidade de cuidar da Democracia. Apesar da ameaça, o Brasil ainda tem instituições capazes de resistir aos tiques de autoritarismo. O principal problema está na banalização do discurso da intolerância

O primeiro tropa de elite de José Padilha termina com uma execução do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais), devidamente comandada pelo capitão Nascimento, no cimo de um morro e depois de uma longa "caçada". No filme seguinte, o capitão Nascimento troca a farda pelo "terno" e o balneário pela secretária, entra no jogo da política, nos bastidores dos interesses cruzados entre narcotraficantes e políticos (os primeiros financiam os gastos dos outros), na corrupção. Nascimento sofre, mas não desiste. E chega ao epílogo determinado a contar tudo o que sabe. Publicamente, como é bom de ver, à espera que as suas palavras produzam um efeito. E até produziram: uns tipos de segundo plano são presos. Enquanto isso, o "mecanismo" continua a funcionar.

carlos lima

O capitão Nascimento - mais uma brilhante interpretação de Wagner Moura - tornou-se rapidamente um herói nacional. No fundo, uma grande maioria dos brasileiros revia-se no incorruptível capitão do BOPE, qual D. Quixote a lutar contra os traficantes e políticos corruptos. Nos anos de Tropa de Elite só faltou o hastag "jesuiscapitaonascimento". Se é verdade que os brasileiros, desde há muitos anos, reclamam menos corrupção e mais segurança, também é um facto que 90% das acções do capitão Nascimento decorriam à margem de um qualquer processo penal, comportamentos, de certa forma, louvados.

Era como se não houvesse tempo para prender suspeitos, submetê-los a um processo penal justo e equitativo. O capitão Nascimento encarnou a figura do polícia e executor da sentença. Tudo, claro está, em nome da eficácia da luta contra o crime e desconfiado do sistema, como se as soluções imediatas fossem a melhor resposta para um problema. "Bandido bom é bandido morto", diz-se por lá.

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