A armadilha de André Ventura
A Direção
13 de janeiro

A armadilha de André Ventura

Excluir os eleitores de Ventura é confirmar a narrativa de que as elites não ouvem o “povo” e têm medo de conversar com eles, porque falam dos verdadeiros problemas.

Dois anos depois de André Ventura ter sido eleito para a Assembleia da República, o País parece continuar sem saber lidar com a retórica inflamada do deputado único do Chega e a cair na armadilha por ele sucessivamente lançada. Uma e outra vez. De tal forma que além de condicionar o debate mediático, Ventura passou também a dominar o próprio debate político.

Basta olhar para o que aconteceu na primeira semana de debates televisivos, daquelas que serão as eleições mais importantes dos últimos anos. Apesar de ter tido apenas 1,29% dos votos nas legislativas de 2019 e de as sondagens indicarem uma votação no Chega em redor dos 5%, André Ventura conseguiu que fosse a sua agenda e os seus temas de eleição - prisão perpétua, castração química de pedófilos ou a suposta fraude no Rendimento Social de Inserção - a dominar a discussão, mesmo quando ele não estava presente nos estúdios televisivos.

A tática nem sequer é nova. Já foi repetida sucessivamente um pouco por todo o mundo por parte daqueles que necessitam de ganhar notoriedade e, dessa forma, insuflar a sua relevância para níveis que, na verdade, não têm. Ela passa por fazer propostas e proferir frases suficientemente chocantes para ficarem na memória da audiência e obrigarem os adversários moderados a reagir, mantendo-se dessa forma no topo da discussão. Quando a polémica parece estar a desvanecer-se, surge um novo tema, uma nova declaração, uma nova polémica que vai, de novo, intoxicar a discussão. Às tantas, já ninguém sabe porquê, são esses os temas no topo da agenda, mesmo que sejam os menos importantes.

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