Sábado – Pense por si

Vitaliy Venislavskyy
Vitaliy Venislavskyy Investigador em História, Segurança e Defesa
30 de setembro de 2026 às 15:33

A guerra que não faz barulho: como Moscovo testa o Ocidente na sombra

Recentes relatórios de inteligência alertaram para a possibilidade de navios da "frota fantasma" a operar ao serviço da Rússia serem utilizados para lançar drones contra países costeiros da UE. Um ataque deste género causaria pânico, mas vale a pena perguntar: o que ganharia realmente a Rússia?

Numa fase em que a Europa debate a iminência de uma provocação russa, o verdadeiro xadrez joga-se nos limites da dissuasão. Mais do que marchar com colunas de tanques sobre capitais ocidentais, o objetivo de Moscovo é testar a elasticidade do Artigo 5º da NATO e a coesão dos aliados. Convém dizê-lo com clareza: perante um ataque armado inequívoco, o Artigo 5º será acionado. A Aliança Atlântica continua a ser o centro de gravidade da segurança europeia e a sua própria sobrevivência depende dessa resposta.

Sabendo disso, o Kremlin opta por operar na "zona cinzenta", regendo-se por uma regra de ouro: a negação plausível. Pensemos num jovem europeu recrutado através de canais digitais para incendiar uma infraestrutura crítica. Para a opinião pública, Moscovo pode fingir total inocência, desinteressando-se do destino do jovem criminoso que, para o Estado russo, não passa de um mero instrumento descartável. É nestas franjas que a Rússia extrai o maior rendimento com o menor risco.

Contudo, nem todos os cenários resistem a uma análise fria. Recentes relatórios de inteligência alertaram para a possibilidade de navios da "frota fantasma" a operar ao serviço da Rússia serem utilizados para lançar drones contra países costeiros da UE. Um ataque deste género causaria pânico, mas vale a pena perguntar: o que ganharia realmente a Rússia? Se um navio mercante for interceptado a desferir um ataque cinético, a negação plausível evapora-se instantaneamente. A tripulação seria imediatamente abordada por forças navais e colocada perante tribunais ocidentais sob acusações de terrorismo. Para o Kremlin, queimar ativos vitais e tripulações de que depende fortemente para escoar o seu petróleo, sem obter qualquer ganho territorial ou militar real, transforma este cenário numa derrota estratégica sem margem para vitória.

É precisamente por isso que Moscovo evita o risco dos ataques cinéticos diretos a partir de navios civis, preferindo a opacidade da sabotagem indireta. Por exemplo, arrastar âncoras no fundo do mar para seccionar cabos de fibra ótica submarinos, mascarado de negligência ou "mau tempo" ou a interferência eletromagnética (GPS spoofing) a partir de águas internacionais ou de enclaves como Kaliningrado, que afeta a aviação e a navegação sem um vetor físico visível.

Estas ações demonstram que as ameaças russas operam num limbo perigoso: estão abaixo do limiar de uma resposta militar proporcional, mas muito acima da espionagem clássica.

Este novo normal exige que o establishment de segurança da Europa abandone a visão binária de que a paz e a guerra são interruptores estanques, onde a ausência de uma garante automaticamente a outra. A paz é, hoje, um espectro contínuo: um frágil equilíbrio de forças que exige manutenção e vigilância constantes. Neste paradigma, a Defesa deixa de ser um mero peso nos orçamentos estatais para se assumir como o pilar estruturante da nossa ordem política, onde a própria sociedade civil deixa de ser um beneficiário passivo para se converter num ativo essencial de segurança.

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