A armadilha das urnas: por que votar agora interessa a Moscovo
Fedorov, que perdeu a sua influência política toda (que demorou anos a ser construída), percebeu que tem um relógio breve: ele precisa de capitalizar enquanto a ferida está aberta, porque quando fechar, o seu nome passa a ser uma breve, mesmo que positiva, memória na sociedade ucraniana.
Anos a analisar política internacional, sobretudo aquela feita em contexto de guerra, fizeram-me chegar à conclusão de que a ingenuidade é a primeira grande baixa.
Quando, há algumas semanas, Mykhailo Fedorov foi subitamente afastado da gestão da pasta ministerial da Defesa, em Kyiv calculou-se que o tempo iria amortecer o choque que levou pessoas a manifestarem-se. Afinal, a fórmula já teria sido testada anteriormente: uma figura da proa política sai, é-lhe incumbida uma missão de índole burocrático e não político, o pico da contestação é absorvido e o dissidente fica confinado a uma limitação dourada ou à asfixia burocrática. Assim foi com Valeriy Zaluzhny (ex-Comandante das Forças Armadas Ucranianas), que foi enviado para a névoa das Ilhas Britânicas para servir como Embaixador da Ucrânia no Reino Unido.
Fedorov, temendo esse desfecho, recusou, na devida altura, o convite para aceitar o cargo de conselheiro ou outro que pudesse, na sua perspectiva, significar alguma perda de protagonismo político que ele carregava nos últimos anos enquanto serviu no Governo do Presidente Zelensky.
Ficou conhecido por ser «gestor algorítmico», tinha uma metodologia inovadora no espaço político, pois aliava-se muito mais à gestão de dados quantitativos, privilegiando-os a todos os fatores de indefinição, que caracterizam tanto a própria natureza humana.
Fedorov ascendeu, porque era um gestor implacável, mas cirurgicamente eficiente. Desde o Ministério para a Digitalização do Estado, onde o lançamento da aplicação «???» (leia-se “Diia”, que significa “Ação”), para criar um Estado num dispositivo móvel, acabando com o lançamento da plataforma Brave1, fazendo uma revolução no sistema de contratação estatal para as necessidades das Forças Armadas. Estas vitórias valeram-lhe uma ascensão rápida, acumulando pastas e poderes que o tornavam num «Estado dentro de um Estado». A confiança que Zelensky depositou em Fedorov permitiu criar uma figura que rivalizava com ele.
Perante esse capital massivo, as divergências conceptuais que Fedorov mantinha com o Comando Superior das Forças Armadas poderiam tornar-se num conflito insustentável, gerando erosão estrutural dentro das entidades mais importantes para um país que se defende contra a brutal agressão russa. Zelensky optou por não atribuir vitória política a nenhum dos dois lados,e acabou por demitir os dois: Fedorov saía da posição de Ministro da Defesa e Sirsky saía da sua posição de Comandante das Forças Armadas Ucranianas.
Nesta circunstância, Fedorov, que perdeu a sua influência política toda (que demorou anos a ser construída), percebeu que tem um relógio breve: ele precisa de capitalizar enquanto a ferida está aberta, porque quando fechar, o seu nome passa a ser uma breve, mesmo que positiva, memória na sociedade ucraniana.
Neste tabuleiro de gestão do tempo, surge a proclamação de que «a democracia não pode ser refém da Rússia». Este slogan é certamente sedutor, tem eco no Ocidente e junto da sociedade ucraniana. Equipara-se à célebre frase que «os drones, e não humanos, devem estar nas trincheiras». Estas frases simples (e sobretudos deterministas na sua essência) têm um impacto comunicacional fascinante, ao mesmo tempo que ignoram a complexidade da equação política.
Contudo, é necessário distinguir o apelo emocional da realidade material. Porque há, de facto, dois elefantes na sala: a realização de eleições na Ucrânia, para garantir a legitimidade democrática e popular da liderança política, por um lado. Por outro lado, a incapacidade física de as realizar.
Começando pelo facto de que a ausência de eleições na Ucrânia não decorre de uma deriva discricionária do Governo do país. A Constituição ucraniana e o regime da Lei Marcial são taxativos: não há eleições sob estado de guerra. E essa exigência não é apenas tinta no papel, já que decorre da doutrina que as eleições não são um luxo, mas um Direito Fundamental, logo deve ser acessível a toda a população votante de igual modo. Suspender o edifício legal para fabricar um ato eleitoral cosmético constituiria, isso sim, uma violação do Estado de Direito. Ora, para garantir esse direito em pleno e não o transformar numa coreografia orquestrada por pressões internacionais, é preciso assegurar que quase um milhão de soldados na linha da frente possa votar, da mesma forma que milhões de refugiados possam fazê-lo, mesmo que ainda não tenham todos os registos necessários finalizados, é necessário estabelecer o que fazer às pessoas que vivem em territórios ocupados e nas cidades próximas à linha da frente. Sem a garantia de que todos esses elementos são endereçados, a conversa sobre eleições não passa de uma farsa camuflada de defensor da democracia.
Sublinho um aspeto que não pode cair no esquecimento: se apenas alguns podem votar, em detrimento dos outros, não há democracia! Um outro problema enquadra-se com a gestão securitária do processo. Os sistemas democráticos enfrentam sempre um teste à coesão eleitoral quando há processos eleitorais, porque a união de toda a sociedade à volta do seu Estado-Nação é substituída por uma divisão ideológica derivada do conflito de ideias. Lançar a sociedade ucraniana numa campanha eleitoral enquanto o país combate o segundo maior exército do mundo equivaleria a escancarar as portas à guerra híbrida russa, fragmentando a coesão social que tem sustentado a resistência.
Neste contexto, o único cenário de curto-prazo que nos permite observar a realização de eleições na Ucrânia é o da assunção comunitária e à escala global de assumir o ónus das garantias de segurança para que o mesmo seja bem feito. E como a situação que envolve a Ucrânia é de gravidade extrema (estamos a falar da mais longa guerra de grande intensidade, excluindo a II Guerra Mundial, em continente europeu), o ónus deve ser da maior dimensão histórica já vista. Até agora, ninguém se mostrou interessado em assumir essa responsabilidade, o que acaba por enfraquecer, concomitantemente, as exigências vindas de vozes ocidentais face à realização das mesmas.
Fedorov, ao converter a sua demissão no palanque de uma futura alternativa política, joga a sua sobrevivência. Mas a Ucrânia, essa, joga a sua própria existência: a legitimidade democrática não se mede pela pressa de erguer urnas sobre ruínas, mas pela capacidade de preservar a República para que um dia se possa voltar a votar em liberdade.
A armadilha das urnas: por que votar agora interessa a Moscovo
Fedorov, que perdeu a sua influência política toda (que demorou anos a ser construída), percebeu que tem um relógio breve: ele precisa de capitalizar enquanto a ferida está aberta, porque quando fechar, o seu nome passa a ser uma breve, mesmo que positiva, memória na sociedade ucraniana.
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