Hoje assinalam-se três anos desde o colapso do status quo no Médio Oriente. O ataque do Hamas revelou a arrogância da inteligência israelita, mas a resposta letal e isolada de Telavive expôs uma falência ainda maior: a da vontade política da comunidade internacional.
A 7 de outubro de 2023, o
Médio Oriente acordou com o colapso de uma ilusão. Durante anos, o establishment
militar e governamental de Israel convenceu-se de que a tecnologia poderia
substituir a estratégia e que a superioridade bélica garantia a contenção. O
muro fronteiriço de Gaza, uma maravilha de mil milhões de dólares repleta de
sensores e metralhadoras automáticas, caiu em poucas horas perante tratores e
drones comerciais de baixo custo. A inteligência israelita tinha em sua posse,
há mais de um ano, o plano de invasão detalhado pelo Hamas (o infame documento
"Jericho Wall"), mas este foi arquivado. Parece que faltavam dados
empíricos que sustentassem capacidades materiais em executar uma operação deste
tipo. E realmente, nunca uma organização terrorista teria sequer sonhado em
realizar uma invasão deste tipo a um Estado tão bem defendido, como o Estado de
Israel. O preço desta entropia cognitiva foi o dia mais mortífero para o povo
judeu desde o Holocausto.
Mas se a manhã do 7 de
Outubro é a história de uma tragédia humana brutal e inimaginável, os três anos
que se seguiram são a história de um trágico erro de cálculo e da falha
estrutural de dissuasão conjunta.
Quando uma nação sofre um
trauma desta magnitude, a dor coletiva exige justiça imediata. No entanto, a
História ensina-nos que o trauma é o pior conselheiro da estratégia política.
Ao analisar a reação de Israel, é impossível não traçar um paralelo sombrio com
os Estados Unidos pós-11 de Setembro. Osama Bin Laden não derrubou as Torres
Gémeas para derrotar o exército americano; fê-lo para arrastar Washington para
o Médio Oriente, forçando uma guerra de atrito que corroesse a sua autoridade
moral global. Yahya Sinwar, o arquiteto do 7 de Outubro, desenhou exatamente a
mesma armadilha. O massacre não visava a conquista territorial, mas sim
provocar uma resposta tão brutal e desproporcional que implodisse os Acordos de
Abraão e incendiasse toda a região. Israel, cego pelo luto e focado na
vingança, caminhou diretamente para a emboscada. Volto a referir o que abriu
este parágrafo: isso é mais do que expectável de um Estado que sofre um ataque
desta magnitude.
E é aqui que reside a grande
lição destes últimos três anos (que deveria ter sido acautelada, tendo em conta
a experiência da reação americana ao ataque do 11 de setembro): ataques
existenciais e de escala massiva devem, imperativamente, convocar respostas
multilaterais.
Quando um Estado brutalizado
reage sozinho no terreno, a sua resposta tende inevitavelmente a ser mais
agressiva e ignorante de limitações de ordem moral. O instinto de sobrevivência
e a pressão interna pela vingança sobrepõem-se à racionalidade diplomática. Se,
por outro lado, tivéssemos observado uma ação coletiva, apoiada por aliados
internacionais e enquadrada por organizações multilaterais, teríamos como a
principal garantia a preservação dos valores humanitários. No fim de contas, a
moderação imposta por uma coligação é o único travão ético contra o abismo.
O principal responsável pela
carnificina que assistimos é o Hamas, uma organização terrorista que
instrumentaliza o caos e a morte dos seus próprios civis como moeda de troca.
Contudo, a comunidade internacional falhou drasticamente perante o desafio. Perante
a abertura da Caixa de Pandora em Gaza, o Ocidente e os parceiros árabes
optaram por lavar as mãos. Limitaram-se a emitir comunicados, desenhar linhas
vermelhas imaginárias e enviar pacotes de ajuda humanitária, enquanto deixavam
Israel operar num vácuo político e militar. Faltou a vontade política para
impor uma intervenção internacional robusta no "dia seguinte", que
retirasse a exclusividade militar a Telavive e forçasse uma transição
controlada no território palestiniano.
Hoje, os resultados estão à
vista. Três anos depois, a sociedade israelita permanece profundamente
traumatizada e cronicamente insegura. Gaza é um cenário de destruição
apocalíptica. O Hamas pode estar estruturalmente enfraquecido, mas a ideia que
o alimenta sobrevive nos escombros. Não há qualquer prova empírica de que a
dissuasão regional tenha sido restaurada; pelo contrário, toda a geografia do
Médio Oriente está mergulhada numa espiral de violência com contornos
imponderáveis.
Qualquer conversa sobre
normalização diplomática tornou-se, por agora, impossível. O diálogo de paz
entre israelitas e palestinianos transformou-se numa utopia distante, enterrada
sob demasiados escombros e ressentimento.
O 7 de Outubro rasgou o véu
da falsa estabilidade, provando que o terrorismo atinge o seu objetivo máximo
quando o mundo se recusa a unir-se para civilizar a resposta.
O paradoxo da vingança: o que o mundo não aprendeu nos três anos do 7 de Outubro
Hoje assinalam-se três anos desde o colapso do status quo no Médio Oriente. O ataque do Hamas revelou a arrogância da inteligência israelita, mas a resposta letal e isolada de Telavive expôs uma falência ainda maior: a da vontade política da comunidade internacional.
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Fedorov, que perdeu a sua influência política toda (que demorou anos a ser construída), percebeu que tem um relógio breve: ele precisa de capitalizar enquanto a ferida está aberta, porque quando fechar, o seu nome passa a ser uma breve, mesmo que positiva, memória na sociedade ucraniana.
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