Quando um arguido ou uma testemunha se apresenta para depor, o tribunal está atento a tudo: ao tremor das mãos, ao desvio do olhar, à rigidez da postura. O problema é que, no nosso sistema judicial, não existe uma forma cientificamente validada de interpretar estes sinais.
Quantas vezes já viu um filme ou uma série em que um
detetive, apenas olhando para o modo como um suspeito se senta ou evita o
olhar, descobre a verdade? Ficamos fascinados com a ideia de que o corpo revela
segredos que as palavras tentam esconder. Mas, se passarmos da ficção para a
realidade dos tribunais portugueses, deparamo-nos com um problema estrutural: o
sistema judicial tenta, inevitavelmente, “ler” o corpo - mas fá-lo sem o apoio
de uma metodologia científica que fundamente essa leitura.
Quando um arguido ou uma testemunha se apresenta para
depor, o tribunal está atento a tudo: ao tremor das mãos, ao desvio do olhar, à
rigidez da postura. O problema é que, no nosso sistema judicial, não existe uma
forma cientificamente validada de interpretar estes sinais. Na ausência de
protocolos rigorosos, permanece um conjunto de intuições, ideias feitas e
regras da experiência pessoal que, embora humanas, não possuem o rigor que a
ciência hoje nos permite aplicar.
A ciência diz-nos que a comunicação humana funciona como
uma orquestra: não comunicamos apenas através das palavras; o nosso corpo, os
nossos gestos, o nosso olhar, todos formam um sistema multimodal integrado e
dinâmico que, tal como cada um dos instrumentos que tocam numa orquestra,
produzem uma mensagem harmoniosa e completa. O facto de o nosso sistema judicial
não possuir ferramentas que ajudem a descodificar esta mensagem - distinguindo
o que é um comportamento habitual de um indivíduo daquilo que é, efetivamente,
um momento de incoerência comunicativa - é a lacuna que falta suprir para que a
Justiça Portuguesa se torne mais moderna e alinhada com o que já começa a ser defendido
e praticado lá fora.
A academia em Portugal está a desenvolver uma tecnologia
de ponta, que permite analisar de forma sistemática e científica estes
movimentos. O objetivo não é o de criar um detetor de mentiras automático, até
porque tal seria um erro ético e científico. O nosso propósito é o de munir os
especialistas forenses de um filtro científico, um sistema de apoio à decisão
que ajude a distinguir o que é um comportamento habitual de um indivíduo
daquilo que é, efetivamente, um momento de incoerência comunicativa num depoimento.
No entanto, a própria lei constitui ainda um obstáculo a
esta modernização. Atualmente, o Código de Processo Penal português é, em
muitos aspetos, omisso em relação à dimensão multimodal da comunicação. O foco
continua quase exclusivamente a estar no registo escrito e no conteúdo que é verbalizado.
Não existe uma norma que permita ou que sequer facilite a gravação em vídeo de
alta qualidade de interrogatórios policiais ou judiciais para fins de análise
forense, nem protocolos científicos para que essas gravações sejam
interpretadas por especialistas.
O princípio da “livre apreciação da prova” (Artigo 127.º
do Código de Processo Penal) é fundamental, mas, na ausência de conhecimentos
científicos especializados sobre o comportamento não-verbal, este princípio
corre o risco de se tornar num veículo para preconceitos e erros
interpretativos.
Precisamos de atualizar a nossa Justiça. A integração da
análise multimodal nos tribunais e na polícia não é apenas uma questão
tecnológica: é uma questão de direitos humanos e de rigor processual. Ao
formalizar a perícia linguística forense e ao permitir a gravação audiovisual
em contextos-chave, garantimos que o corpo dos envolvidos num processo - sejam
vítimas, testemunhas ou arguidos - não seja alvo de interpretações subjetivas
que podem levar ao erro judiciário.
A justiça do século XXI não pode continuar a basear-se
nas regras da experiência. É tempo de dar à ciência o seu lugar na sala de
audiências e na polícia, garantindo que, quando analisamos o comportamento
humano, o fazemos com a mesma precisão e rigor com que analisamos uma prova de
ADN ou uma perícia balística. A verdade e a justiça merecem este esforço.
Ana
Paula Lopes
Investigadora e Docente do Ensino Superior
Investigadora Principal do Projeto Científico Tech4Justice
ISCAC – Coimbra Business School
CEOS.PP
O corpo comunica (e a lei é cega): a urgência de uma nova perícia nos tribunais
Quando um arguido ou uma testemunha se apresenta para depor, o tribunal está atento a tudo: ao tremor das mãos, ao desvio do olhar, à rigidez da postura. O problema é que, no nosso sistema judicial, não existe uma forma cientificamente validada de interpretar estes sinais.
Teerão é um vencedor parcial. Consegue amarrar um suposto sucesso de Trump à sobrevivência do regime criminoso iraniano (oh, suprema ironia) e passou a saber que tem um instrumento de negociação e eventual coação muito mais efetivo do que o longínquo e custoso objetivo de chegar às armas nucleares ou comprá-las: o controlo de Ormuz, claro.
O País só mexeu neste círculo vicioso à força, sob alçada da troika e de Pedro Passos Coelho, mas o sistema refugiou-se depois nos alçapões das novas regras e continua vivo. Alimenta-se a clientela, mas também a perceção de que "são todos iguais" e o populista “eles querem é tacho”. É pena darem-lhes assim razão. Ninguém propôs sequer seriamente, PS ou PSD, tapar os buracos que permitem a continuação deste carrossel que envergonha ambos. Mas, pelo menos, já nos poupavam à exibição pública de moralidade fake.
O PSD faz de conta que não sabe que ir para a cama com alienígenas, pequenos monstros verdes, poços de veneno, gente com Ébola, damas envenenadoras como na Renascença, ou com o Chega, é sair de lá irremediavelmente envenenado e com a pele a mudar de cor, e pequenos vermes no cérebro
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