Uma história de amor
Raquel Serejo Martins Escritora
01 de maio de 2017

Uma história de amor

Não sei dizer sequer como começou. A primeira vez que o vi, a segunda vez que o vi. Nada disso. Passaram-se anos, natais, aniversários, coincidíamos em férias. Dávamo-nos bem mas nunca senti nada a que pudesse, tivesse, a veleidade de chamar amor, nem mesmo amizade

Não sei dizer sequer como começou.
A primeira vez que o vi, a segunda vez que o vi.
Nada disso.
Passaram-se anos, natais, aniversários, coincidíamos em férias.

Dávamo-nos bem mas nunca senti nada a que pudesse, tivesse, a veleidade de chamar amor, nem mesmo amizade, porque as conversas sem confidências, sem riso, banais, porque era o marido da minha irmã mais nova, o pai dos meus sobrinhos, o genro preferido do meu pai e da minha mãe também, o que deveras incomodava o meu marido que, por ser tão competitivo, por pretender ter o mérito de ser o primeiro em tudo, até na ordem, no pódio, da preferência dos sogros, e que, supostamente para compensar, como se mais valesse ser engraçado do que cair em graça, nos fazia passar demasiado tempo na casa dos meus pais para o meu gosto.

Porque os gostos são um mistério, dizia a minha avó, e os desgostos aleatórios, digo eu, porque gostos não se discutem, diz toda a gente, porém este meu gosto, se se soubesse, daria azo a dolorosas discussões.
E foi em casa dos meus pais que aconteceu pela primeira vez, no meu quarto de menina, tão igual ainda ao quarto dos meus dezasseis anos, bonecas de trapos, na parede posters do Jacques Brel e do Serge Gainsbourg.

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