O insustentável preço (ou valor) da privacidade digital
Vamos falar das coisas de que ninguém quer saber mas que importam, muito?
A Meta, empresa que detém o Facebook, o Instagram e o WhatsApp, é uma estrutura tentacular. As suas plataformas estão interligadas e cruzam dados do mesmo utilizador, o que lhes permite construir uma visão quase total de cada pessoa que ali circula. Se a isso juntarmos os dados obtidos através do que publicamos e partilhamos, bem como dos logins que fazemos nessas plataformas, e em inúmeros sites e aplicações nos quais entramos com essas mesmas credenciais, facilmente percebemos a dimensão da ligação cruzada e da fonte quase inesgotável de informação que geramos. Informação que deveria ser privada, mas que é, inevitavelmente, usada com um fim comercial.
Todos já tivemos esta experiência: falar de um produto e, pouco depois, ver anúncios precisamente sobre esse tema. “Que coincidência”, pensamos. Depois clicamos uma vez e os anúncios repetem-se incessantemente, numa insistência quase infantil que tenta convencer-nos de que precisamos mesmo daquele produto. Não precisamos.
Facebook, Instagram e WhatsApp são hoje partes de um mesmo ecossistema de dados. E é nesse contexto que surge uma questão que passa despercebida à maioria dos utilizadores: a encriptação das mensagens no Instagram.
Mas porque importa?
A encriptação de ponta a ponta é um sistema de criptografia que protege o conteúdo das mensagens durante a sua transmissão, garantindo que apenas o emissor e o receptor conseguem lê-las. Nem governos, nem autoridades policiais, nem a própria plataforma conseguem aceder ao conteúdo dessas conversas.
No Instagram, essa funcionalidade existia mas foi por definição, opcional e difícil de encontrar. Para activar a encriptação era necessário percorrer vários níveis de menus, num processo pouco intuitivo para o utilizador comum. Como tantas vezes acontece nas plataformas digitais, as opções que protegem a privacidade estão escondidas em sucessivas camadas de configuração. A dificuldade em encontrar estas definições não é um detalhe técnico mas uma escolha de design que facilita a vida de quem recolhe dados ou seja, a própria plataforma.
Em vários fóruns de utilizadores, multiplicam-se relatos semelhantes: pessoas que tentam, ou tentaram, activar opções de segurança ou privacidade e simplesmente não conseguem encontrá-las. A funcionalidade existe, mas está enterrada num labirinto de menus. E isso diz muito sobre a forma como a privacidade é tratada na economia digital contemporânea.
A privacidade deixou de ser um valor diferenciador. Tornou-se uma moeda de troca. Algo que entregamos para poder usar determinados serviços e plataformas. Hoje, os dados são matéria-prima. Plataformas digitais como a Meta recolhem enormes quantidades de informação sobre comportamentos, preferências e interações. Esses dados são transformados em perfis detalhados que alimentam algoritmos de previsão e sistemas de segmentação publicitária. As tais coincidências sobre o que desejamos ou precisamos comprar.
A socióloga Shoshana Zuboff descreve este modelo como capitalismo de vigilância: um sistema económico no qual a extração e análise contínua de dados comportamentais se tornam a base do lucro no ambiente digital. Quanto mais dados existem, mais precisa se torna a publicidade. E mais dinheiro entra.
É por isso que decisões aparentemente técnicas, como a forma como as mensagens são protegidas ou como as opções de privacidade são apresentadas, têm implicações muito mais profundas. Sob o argumento legítimo de combater crimes graves, como a exploração sexual de menores ou outras atividades ilegais, abre-se também espaço para sistemas cada vez mais intrusivos de vigilância digital, sob o puritanismo de nos proteger da infâmia que (também) é a utilização destas plataformas com fins socialmente duvidosos.
Ignorar ou reagir? Podemos descarregar todas as nossas mensagens e pagar as conversas para que ninguém as veja ou… deixar andar. Partindo do princípio confortável de que não temos nada a esconder, raramente perguntamos quem beneficia realmente com a exposição dos nossos dados. A resposta é simples: quem os consegue transformar em lucro. E, nesse modelo económico, a privacidade vai sendo diluída, passo a passo, menu a menu, clique a clique, até deixar de parecer importante. Será que não é (mesmo) importante?
O insustentável preço (ou valor) da privacidade digital
O estudo, feito com 23 mil pessoas em 29 países, incluindo Reino Unido, EUA, Brasil, Austrália e Índia, mostra diferenças geracionais claras nos papéis de género e um retrocesso na independência feminina.
O mundo virado, literalmente, do avesso e as redes sociais repletas de memes e piadas ao que está a acontecer. Faz-me lembrar um meme que diz que ‘a terapia ajuda mas fazer piadas com todas as desgraças que acontecem também é muito eficiente’.
Tal como os macacos, também rejeitamos sem razão. Afastamo-nos do que sentimos como diferente numa reacção primária, movida pelo medo de não pertencer, de não ser reconhecido, de ser excluído sem explicação.
Nós ainda sabemos e talvez consigamos reverter um contexto que se infiltrou de tal forma nas nossas vidas, mudando-as completamente. Se ainda não ouviram falar, Off February é a primeira iniciativa para desligar durante um mês.
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