Com ou sem Black Friday, comprar mais um vestido não resolve o teu problema…
Paula Cordeiro
04 de dezembro de 2019

Com ou sem Black Friday, comprar mais um vestido não resolve o teu problema…

… mas aumenta o nosso: do consumismo, da ansiedade, da desigualdade, do clima.

No rescaldo de uma friday que se estendeu pelo fim de semana e se transformou numa cyber segunda-feira, depois de conhecer dois mercado de trocas e perceber que, finalmente, que a nova tendência é esta, de reutilizar mais e comprar menos, arrisco dizer que, sobre vestidos, nunca é apenas mais ou um e nunca é apenas só desta vez. É sempre, porque vivemos numa sociedade que depende do consumo para justificar a sua pertinência e garantir a sua existência. Quando foi a última vez que se recusaram a consumir e que impacto teve nas vossas vidas?

Life is short, buy the damm shoes é uma frase que ressoa sempre que temos esse vislumbre, quase epifânico, sobre o acto de comprar. Na loja, camisolas, calças ou vestidos pendurados no braço, avançamos para a caixa. O preço baixo, a renovação constante, a arrumação da loja, o cheiro a novo, as luzes que nos favorecem - sempre - e a ideia de que somos nós que queremos comprar, não eles que nos querem vender, transformou-nos radicalmente. Sei-o porque também já fui assim, dependente da aprovação dos outros para a minha auto-aprovação. Assisti ao nascimento da Zara, o seu impacto na moda, o declínio de marcas locais e o corrupio das miúdas, em Lisboa, que se organizavam em grupos, para fazerem compras na Guerra Junqueiro. 

A Black Friday não é apenas uma Sexta-feira porque o desvario começa antes, arrastando-se depois, até ao Natal, numa espécie de rescaldo para vender o que sobrou e o que podemos inventar. Se é certo que o podemos evitar, também é certo que precisamos vestir alguma coisa. 

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