Preparem-se para o impacto
João Paulo Batalha
18 de dezembro de 2020

Preparem-se para o impacto

No resgate da TAP são mais visíveis as guerras de poder e protagonismo político do que as contas e a estratégia para a salvação da empresa. Vai ser bonito.

Felizmente nunca estive num avião que precisasse de fazer uma aterragem de emergência, mas é este o aviso que é dado aos passageiros, nesta ou noutra tradução da expressão em inglês "brace for impact": preparem-se para o impacto.

A história do resgate da TAP é (mais) uma metáfora da desgraça em que degenerou o sistema político e económico português. Num país onde as carreiras públicas e o sucesso empresarial se fazem pelo compadrio e pela captura dos recursos do Estado, é perfeitamente normal termos caciques do PS e do PSD à frente das grandes empresas estatais – ou até das grandes empresas privadas, que empregam políticos de negócios para manterem intacta a sua capacidade de abocanhar o orçamento. Na TAP temos lá Miguel Frasquilho, beneficiário do saco azul do BES que esta semana agradeceu aos portugueses continuarem a pagar-lhe o salário.

Quando este sistema de promiscuidade e desvio dos recursos públicos para ganhos privados dá com os burros na água, como é inevitável que dê, o Orçamento Geral do Estado transforma-se numa central de resgate. Com o dinheiro que ainda consegue cobrar a uma população cada vez mais depauperada ao fim de duas décadas de estagnação económica (e com o recurso a uma dívida pública em níveis sufocantes), o regime do compadrio resgata-se a si próprio, garantindo que os Frasquilhos desta vida caiam sempre de pé. Para os outros fica uma palavra amiga e um abraço solidário do Presidente da República, nas suas expedições noturnas de visita aos sem-abrigo.

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