A crise do costume
João Paulo Batalha
27 de outubro

A crise do costume

A crise política da novela orçamental esconde outra, bem mais grave, que está na sua origem: a enorme crise de confiança que se tornou o grande cancro da vida pública em Portugal.

À hora que escrevo não sei se o Orçamento do Estado passa ou chumba e se o país entra ou não em "crise política". Na verdade, tanto me faz. A discussão entre os partidos de esquerda, contaminada por mesquinhos cálculos eleitorais e assessorada por um Presidente da República que anda a tentar expiar a sua culpa por ter dado posse a um Governo sem antes assegurar uma maioria, têm pouco de útil para o país. 

Portugal anda a ser governado no improviso, por gente sem ambições que não as do poder, há muitos anos; e a última vez que houve um programa para este país foram os credores estrangeiros que o trouxeram, como condição para tirar as nossas castanhas do lume. Dito de outra maneira, quando não consigo perceber a diferença entre "crise" e "estabilidade" política, não será a eventual antecipação de eleições que me vai assustar, ou animar.

O melhor retrato do estado em que estamos metidos não foi dado por nenhuma intervenção parlamentar ou conferência de imprensa de líder partidário. Está na entrevista de Luís de Sousa e Pedro Magalhães à SÁBADO. O tema não é o orçamento, nem as eleições antecipadas, nem sondagens pré-eleitorais – assunto em que Pedro Magalhães, provavelmente, vai andar entretido nos próximos tempos. Foi o estudo que coordenaram sobre as perceções e atitudes dos portugueses face à corrupção, que acabam de publicar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e que nos diz muito, não só sobre corrupção, mas sobre o país e a nossa relação com a política.

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