Sábado – Pense por si

Filipe Preces
Filipe Preces Magistrado do Ministério Público
09 de dezembro de 2024 às 11:03

O combate à corrupção

Capa da Sábado Edição 6 a 12 de outubro
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 6 a 12 de outubro

Quanto mais acentuado for o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, maior o risco de recrudescimento dos fenómenos corruptivos e menor o grau de participação cívica na sindicância do exercício dos poderes públicos.

O combate à corrupção no exercício de cargos e funções públicas assume-se como fundamental e decisivo para a identificação dos cidadãos com o regime democrático.

Citando Manuel Alegre "…ou o Estado democrático resolve os problemas da República ou alguém os resolverá contra ele".

A opinião pública convive razoavelmente com a corrupção, com pequenos laivos de indignação, que não extravasam a conversa de café.

É, infelizmente, um fenómeno que colhe a aquiescência da resignação colectiva.

Podemos criar programas mais ou menos perfeitos de prevenção da corrupção, mas sem transparência, incremento da educação para a cidadania e redução das desigualdades sociais, dificilmente, conseguiremos abandonar o 34º lugar que ocupámos no índice de percepção da corrupção de 2023.

Na Suécia, legislação promulgada em 1766 e aperfeiçoada em 2009 (Public Access to Information and Secrecy Act), obriga, para além do mais, qualquer titular de cargo político, alto cargo público, diplomata ou funcionário público a disponibilizar ao cidadão que o requeira acesso aos documentos físicos e electrónicos que se encontrem no seu posto de trabalho. Com excepção, claro está, dos classificados.

O acesso aos documentos públicos infunde verdade, confiança e imparcialidade nos cidadãos, prevenindo os desvios e os abusos de poder.

Transparência como fundamento de uma verdadeira "accountability" do Estado.

De outro passo, elevados níveis de educação para a cidadania contribuem, decisivamente, para elevados padrões de exigência ética no exercício de funções públicas.

A educação, enquanto condição de uma cidadania plena, possibilita um duplo controlo e uma dupla punição no caso de ineficácia dos mecanismos preventivos – pela tradicional via judicial, mas também por via da opinião pública, da sociedade civil e dos media.

Por fim, quanto mais acentuado for o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, maior o risco de recrudescimento dos fenómenos corruptivos e menor o grau de participação cívica na sindicância do exercício dos poderes públicos.

O combate à corrupção em Portugal não pode, obviamente, prescindir do robustecimento das medidas repressivas, mormente a consagração dos acordos sobre a sentença e a criação de mecanismos processualmente úteis de direito premial, mas sem uma sociedade mais qualificada, mais informada, mais justa e inclusiva o risco da eclosão de fenómenos e práticas corruptivas permanecerá significativo.

Mais crónicas do autor
10 de outubro de 2026 às 08:00

Tudo o que os americanos detestam

De Gaulle era senhor de uma visão ampla, por muito equivocada que fosse, das grandes linhas de força da política internacional do seu tempo.

10 de outubro de 2026 às 08:00

O vigilante aumentado: a inteligência artificial como braço direito da segurança privada

A máquina vê mais, mais depressa e sem cansaço. Mas continua a não saber o que está a ver. É aí que começa, e não acaba, o trabalho do vigilante.

08 de outubro de 2026 às 10:10

A falsidade dos concursos de dirigentes da Administração Pública

O Estatuto do Pessoal Dirigente deixa aos júris ampla liberdade para fixar métodos e ponderações, e com essa liberdade constrói-se um concurso cujo desfecho parece conhecido antes de abrir. Chama-se concurso, mas funciona como uma nomeação com outro nome. É essa a falsidade.

08 de outubro de 2026 às 07:15

O povo é mansinho

Um país envelhecido, mais preocupado em manter o que tem do que em ter o que lhe falta, deixa-se ir na inércia.

08 de outubro de 2026 às 07:00

A Portela?... Jamais!

Lisboa precisa de um novo aeroporto. Isso é evidente. O que não é evidente é que precise de destruir o que já tem.

Mostrar mais crónicas