Nunca um candidato tinha ganho a segunda volta depois de perder na primeira. Flávio Bolsonaro, entretanto, pediu a anulação das eleições e fala em "sacanagem".
Luiz Inácio Lula da Silva foi este domingo reeleito na segunda volta das eleições presidenciais do Brasil, com 51,75% dos votos, para um quarto mandato como chefe de Estado, e fez história ao tornar-se no primeiro candidato a vencer depois de ter perdido na primeira volta. Conseguiu 63.388.523 votos, contra os 59.099.143 de Flávio Bolsonaro.
O líder do Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda, e antigo sindicalista, é reeleito perto dos 81 anos, tendo conseguido inverter a desvantagem da primeira volta de mais de dois milhões de votos.
Na primeira volta, a 4 de outubro, o candidato da direita, Flávio Bolsonaro, obteve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula da Silva, uma vantagem de 2.224.965 votos, sendo que, desde a introdução do sistema de duas voltas nas presidenciais brasileiras, em 1989, nenhum candidato que terminou a primeira votação em segundo lugar tinha conseguido vencer a eleição.
Logo após a derrota na primeira volta, uma mobilização sem precedentes, impulsionada por estudantes, alastrou a vários setores da sociedade e encheu as ruas de cidades por todo o Brasil em apoio à reeleição de Lula da Silva.
Rodeado por milhares de apoiantes na Avenida Paulista, em São Paulo, Lula da Silva celebrou este domingo a reeleição, prometendo que será o melhor da história do Brasil. Uma multidão de vermelho, eufórica entre o choro de felicidade e os cânticos em louvor a Lula, concentrou-se na conhecida avenida da cidade e explodiu quando Lula chegou de trio elétrico e cumprimentou os apoiantes com um megafone.
"Esta vitória é para mostrar que as mulheres são uma parte importante", afirmou o Presidente, beijando a mulher, Rosângela Lula da Silva, ou 'Janja' para os brasileiros, para delírio dos apoiantes.
Lula, que se tornou o primeiro brasileiro eleito quatro vezes para o mais alto cargo da nação, agradeceu ao povo e destacou a participação dos jovens, que "se levantaram em defesa da democracia". "Este meu quarto mandato será o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país", prometeu o líder histórico brasileiro.
Pouco antes do encerramento das urnas o Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro prolongou por mais duas horas o horário da votação em todo o Brasil, após se ter verificado a falta de autocarros de transporte público em várias cidades.
A decisão do juiz Cristiano Zanin surgiu no seguimento de um pedido da campanha de Lula da Silva, que acionou tanto o Tribunal Superior Eleitoral, quanto o STF, denunciando que em algumas cidades, entre elas São Paulo e Salvador, a frota de veículos foi reduzida, o que teve impacto no direito de os eleitores irem votar. Em Salvador chegou mesmo a ser dada ordem de prisão ao secretário local dos Transportes... que se encontrava em Paris!
“Em síntese, relata o reclamante que, nos municípios em questão, não há frota suficiente no transporte público que permita o deslocamento de eleitores para locais de votação”, escreveu Zanin, na decisão. “Considerando a gravidade dos factos narrados, que chegaram ao conhecimento do Supremo Tribunal Federal (...), e diante da urgência evidente na medida, determino prorrogação por duas horas, até as 19:00, horário de Brasília, do encerramento do recebimento dos votos em todas as secções de todo o Brasil, cabendo ao TSE dar cumprimento”, determinou.
Flávio Bolsonaro também acionou o TSE pedindo o prolongamento da votação, mas apenas nas cidades afetadas pelas fortes chuvas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O argumento foi que as chuvas, as inundações e a falta de energia dificultaram o acesso dos eleitores às urnas. O pedido, no entanto, não chegou a ser analisado pelo TSE.
Flávio Bolsonaro quer anular as eleições
E precisamente devido a este prolongamento do horário, Flávio Bolsonaro anunciou entretanto, que vai pedir a anulação das eleições, recusando-se a reconhecer a derrota.
“É inexplicável o que aconteceu”, referiu, numa crítica ao juiz Cristiano Zanin, que defendeu Lula da Silva no processo Lava Jato e aceitou o pedido da campanha do presidente. "Houve uma quebra total de isonomia entre os brasileiros de diferentes estados. Nunca vou saber em estados que as urnas não foram reabertas, quantos votos poderia ter tido", acrescentou Flávio Bolsonaro.
"As eleições deveriam ter sido anuladas. É impossível reconhecer o resultado", declarou o candidato do PL, apelidando o processo eleitoral de “sacanagem”.
As reações da esquerda na América Latina não se fizeram esperar. Em Cuba, o presidente Miguel Díaz-Canel felicitou o "irmão Lula" da Silva por uma "vitória histórica" que "garante a continuidade do caminho de paz, soberania e justiça social empreendido pelo povo brasileiro".
O presidente boliviano, Rodrigo Paz, notou que Bolívia e Brasil "são países vizinhos e irmãos, unidos por uma história partilhada e desafios comuns". "Continuaremos a trabalhar juntos para fortalecer a nossa relação e gerar mais oportunidades para as nossas nações", indicou também na rede social X.
A ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner felicitou o "camarada Presidente Lula", que nestas eleições "soube despertar as paixões e a razão dos seus compatriotas para vencer esta batalha".
E nos Estados Unidos, o senador Bernie Sanders referiu que o vencedor das eleições brasileiras "defendeu os trabalhadores brasileiros e a democracia". "E continuará a fazê-lo nos próximos quatro anos", escreveu na X.
Do Equador, o chefe de Estado, Daniel Noboa, felicitou Lula e destacou a importância do trabalho conjunto na região. Noboa salientou que a região "tem inimigos comuns, desafios partilhados e muito a ganhar quando" há um trabalho conjunto.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, também felicitou o líder brasileiro. "Viva a democracia, o povo do Brasil venceu. Parabéns, Presidente Lula!", afirmou nas redes sociais.
No Canadá, o primeiro-ministro, Mark Carney, felicitou Lula e defendeu o reforço das relações bilaterais para impulsionar o comércio, proteger o ambiente e aumentar a prosperidade dos dois países. "As relações entre o Canadá e o Brasil avançaram graças à nossa parceria. Aproveitemos esta oportunidade para as reforçar ainda mais", escreveu na rede social X.
Em Portugal, José Luís Carneiro fala numa "importante vitória para a democracia", deixando ainda "uma palavra de especial proximidade aos que vivem em Portugal e que tanto contribuem para o nosso país".
A União Europeia, por sua vez, destaca a vitória da democracia. "Juntos, vamos continuar a trabalhar em estreita colaboração em prol de um comércio livre e aberto, de uma ordem mundial baseada em regras e de ambições robustas", referiu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Para poder adicionar esta notícia aos seus favoritos deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.
Para poder votar newste inquérito deverá efectuar login.
Caso não esteja registado no site da Sábado, efectue o seu registo gratuito.