Surto de Ébola de crescimento mais rápido da história está cada vez mais difícil
Foram confirmados mais de 2.000 casos no leste do Congo, incluindo mais de 750 mortes.
O surto de Ébola no leste do Congo teve o crescimento mais rápido da história e estão a surgir novos desafios para tratar a doença, mesmo quando se iniciam os trabalhos para um estudo sobre dois tratamentos para um tipo de Ébola para o qual não existe qualquer tratamento.
As greves desta semana por parte de trabalhadores não remunerados em dois centros de saúde situados no epicentro do surto poderão servir de inspiração para outros protestos numa região remota que já sofre com infraestruturas deficitárias, ameaças de grupos rebeldes violentos e desinformação que afirma que o vírus mortal não é real.
Foram confirmados mais de 2.000 casos de Ébola neste surto, incluindo mais de 750 mortes. Atualmente, há suspeitas de casos em mais duas províncias, incluindo uma das maiores cidades do Congo, Kisangani, enquanto as equipas de intervenção se esforçam por compreender até que ponto o Ébola se propagou.
A origem do surto ainda é desconhecida e 80% dos novos casos têm origem em cadeias de transmissão desconhecidas, afirmou a Organização Mundial de Saúde na terça-feira.
Tipo de Ébola raro
O surto atual é causado pelo vírus Bundibugyo, um tipo de vírus da Ébola para o qual não existem vacinas aprovadas.
O Ébola é altamente contagioso e pode ser transmitido aos seres humanos a partir de animais selvagens. Transmite-se na população humana através do contacto com fluidos corporais, como vómito, sangue ou sémen, e com superfícies e materiais contaminados, como roupa de cama e vestuário. A doença é rara, mas grave e, muitas vezes, fatal. Os sintomas incluem febre, vómitos, diarreia, dores musculares e, por vezes, hemorragias internas e externas.
Os surtos ocorrem frequentemente em aldeias remotas da África Central, perto das florestas tropicais. Os funerais tradicionais, em que os familiares lavam e preparam os corpos, foram restringidos, o que provocou a indignação de alguns residentes.
Surto está a ocorrer numa região instável
Jornalistas da Associated Press testemunharam as consequências dos ataques a centros de saúde perpetrados por grupos armados, deixando uma população que há muito que vive traumatizada pelas ações violentas de que foram alvos.
Os forasteiros podem ser vistos com desconfiança, e as equipas de sensibilização da comunidade têm trabalhado para divulgar as medidas de prevenção do Ébola, apesar dos abusos e das acusações de que o surto é uma farsa.
Parte do surto está a ocorrer em Goma, uma grande cidade e centro humanitário que os rebeldes, apoiados pelo vizinho Ruanda, tomaram há mais de um ano, o que complica ainda mais a resposta.
Atualmente, reina a agitação entre os próprios profissionais locais que combatem o Ébola, após semanas de trabalho arriscado em situação de crise e com pouca ou nenhuma remuneração por parte do governo congolês.
Na segunda-feira, o pessoal de um centro de tratamento na província de Ituri, o epicentro do surto, encerrou as instalações e bloqueou o acesso.
Entre os funcionários em greve contavam-se epidemiologistas, investigadores de casos, motoristas e coveiros. Posteriormente, concordaram em retomar o trabalho, sob a condição de que o governo lhes pagasse no prazo de 72 horas.
Na quarta-feira, teve início uma nova greve no Hospital Geral de Bunia, quando os trabalhadores bloquearam a entrada. Uma greve que se alastre a instalações ainda mais sobrecarregadas e mal equipadas constituiria mais um duro golpe para os esforços de contenção do Ébola.
As autoridades congolesas afirmaram que estão em negociações para encontrar uma solução.
Os primeiros participantes foram incluídos num estudo clínico
As greves ocorrem num momento delicado.
No início deste mês, os investigadores deram início a um estudo sobre dois possíveis tratamentos para o Ébola e começaram a recrutar participantes. Um deles é o remdesivir, da Gilead Sciences, um antiviral de amplo espectro aprovado para o tratamento da Covid-19 que, em testes laboratoriais, deu alguns indícios de que poderá ajudar a combater o vírus de Bundibugyo.
O outro é o MBP134, um medicamento experimental da Mapp Biopharmaceutical, composto por anticorpos concebidos para combater os vírus do Ébola, incluindo o Bundibugyo.
A OMS afirmou que os doentes serão distribuídos aleatoriamente para receberem o melhor tratamento padrão atualmente disponível, bem como o remdesivir, o MBP134, ambos ou nenhum dos dois.
O organismo das Nações Unidas alertou que poderá demorar meses e que, possivelmente, serão necessários até 1 000 participantes no estudo para se saber se algum dos medicamentos é eficaz.
Atualmente, o estudo é realizado apenas num centro de tratamento do Ébola na província de Ituri - não naquele onde a greve teve início.
As autoridades planeiam alargar o estudo a outros locais assim que for seguro fazê-lo.