Os EUA podem suspender Espanha da NATO? "Não é possível, mas a ameaça era expectável"
José Filipe Pinto, especialista em assuntos internacionais, garante que não há mecanismos para expulsar ou suspender países da NATO.
Esta sexta-feira a agência Reuters teve acesso a um email interno do Pentágono em que são discutidas formas de penalizar países que não apoiaram os ataques norte-americanos contra o Irão. Um dos cenários em cima da mesa prevê a suspensão de Espanha da aliança ou o afastamento de cargos relevantes dentro da organização. O especialista em assuntos internacionais, José Filipe Pinto, explica à SÁBADO que isto não é possível: "Não é possível nem expulsar nem suspender países da NATO. O artigo 13 regula apenas a saída voluntária de um Estado-membro da NATO".
De acordo com o especialista, o facto do governo de Pedro Sánchez ter recusado aumentar os gastos com a despesa em 2025, após uma ameaça dos EUA, terá contribuído, em parte, para esta tomada de posição por EUA: "Donald Trump já tinha ficado incomodado pela posição de Espanha quando o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou não estar disponível para aumentar a despesa militar". Além disso, no que diz respeito à posição de Espanha sobre o conflito entre os EUA e o Irão, José Filipe Pinto salienta: "Espanha foi um dos países que mais resistência apresentou, portanto, era expectável [uma reação por parte dos EUA]."
Em março, o governo espanhol fechou o espaço aéreo a todos os voos envolvidos nos ataques ao Irão e recusou a utilização de duas bases militares pelos EUA.
"Não só não permite o uso das bases de Rota (Càdiz) e Morón de la Frontera (Sevilha) por parte de aviões e combate ou reabastecimento em voo que cooperam no ataque, como também não autoriza o uso do seu espaço aéreo às aeronaves norte-americanas destacas em terceiros países, como Reino Unido ou França", afirmaram fontes militares espanholas, citadas pelo jornal El País.
Sobre o emal interno do Pentágono, a porta-voz, Kingsley Wilson, disse, citada pela Reuters: "Como afirmou o Presidente [Donald] Trump, apesar de tudo o que os Estados Unidos fizeram pelos nossos aliados da NATO, estes não nos apoiaram."
José Filipe Pinto relembra que Espanha não é obrigada a conceder autorização para a utilização das bases nesta operação norte-americana contra o Irão, que "extravasa os limites geográficos e as competências da aliança". Sobre possíveis sanções, o especialista explica ainda que os EUA só podem penalizar Espanha no que diz respeito ao relacionamento bilateral, sem depender de nenhuma organizaçao a que o país europeu pertença. "É uma confusão intencional. O presidente dos EUA sabia que não tinha mecanismos legais no âmbito da NATO, mas quis que os países manifestassem solidariedade por pertencerem à aliança", conclui.
Pedro Sánchez já reagiu às notícias que dizem respeito à intenção dos EUA de expulsar Espanha da NATO: "Nós não trabalhamos com base em emails, trabalhamos com base em documentos oficiais e posicionamentos que assuma, neste caso, o Governo dos Estados Unidos".
No início do mês, o presidente dos EUA também ameaçou retirar os EUA da Aliança Atlântica. “Nunca me deixei influenciar pela NATO. Sempre soube que eram um tigre de papel e Putin [presidente russo], aliás, também sabe disso”, afirmou, em declarações ao jornal The Telegraph. Desde o início do conflito com o Irão, o governo norte-americano tem vindo a criticar a falta de apoio por parte dos parceiros da NATO.