Israel tentou colocar crocodilos numa prisão de detidos palestinianos mas tribunal travou o plano
Fosso destinado aos crocodilos estava a ser construído desde o final de julho, mas um tribunal decidiu suspender o plano na sequência de uma petição que denunciou maus-tratos aos animais e perigo para os funcionários.
O plano estava já em andamento: o ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir, tinha ordenado a construção de um fosso na prisão de Ketziot, onde estão detidos prisioneiros palestinianos, para albergar crocodilos quando, no domingo, o Tribunal Distrital de Jerusalém bloqueou o projeto, avançou a emissora israelita KAN. O fosso já estava a ser construído desde o final de julho e, segundo fonte do Conselho Regional de Ramat Hanegev, que tem jurisdição sobre a prisão, no final era expectável que tivesse "cerca de 170 metros de comprimento".
A decisão de suspensão do projeto acabou, no entanto, por ser tomada depois da organização de direitos dos animais Let the Animals Live ter apresentado uma petição contra a ministra da Proteção Ambiental, Idit Silman, o ministro Ben Gvir e o Serviço Prisional de Israel (IPS), alegando maus-tratos desses animais e argumentando que estes representam um perigo para os funcionários da prisão.
Foi, então, na sequência dessa petição que o tribunal decidiu suspendeu o plano até nova ordem. O juiz Avraham Rubin deu ainda a Silman, Ben Gvir e ao Serviço Prisional de Israel até esta quarta-feira para responderem a esta petição.
"As alegações relativas aos danos esperados aos crocodilos merecem uma investigação e justificam a emissão de uma ordem que proíbe a transferência dos crocodilos", justificou o juiz no domingo.
Em julho de 2025, Idit Silman reclassificou o crocodilo do Nilo de espécie protegida para "animal tratado" (que recebe cuidados de saúde) e foi essa reclassificação que abriu caminho para a introdução deste animal nas prisões. Foi então que a Let the Animals Live decidiu lançar uma petição, onde alegou que a ministra ignorou as opiniões de consultores jurídicos e da Autoridade da Natureza e Parques, exigindo que este animal voltasse a ser classificado como uma espécie protegida.
Esta não é, no entanto, a primeira contestação ao projeto de Ben Gvir. Anteriormente, a própria Autoridade da Natureza e Parques já havia argumentado que a reclassificação dos crocodilos feita por Silman não tinha nenhuma base científica e alertou até que a transferência dos animais poderia colocar em risco a segurança dos funcionários da prisão.
Para já, o plano parece ter fracassado. Ainda assim, faz apenas parte de uma série de medidas propostas por Ben Gvir, que segundo o Middle East Eye, tinham como objetivo tornar as condições de detenção dos prisioneiros palestinianos ainda mais insuportáveis. Entre as diversas medidas propostas estão as proibições de visitas, privatização de alimentos, negligência médica, tortura e confinamento solitário, escreve o mesmo jornal.
No domingo, surgiram até imagens nas redes sociais, divulgadas pelo Middle East Eye, do ministro de extrema-direita a gozar com uma prisioneira palestiniana que se queixava das péssimas condições da sua detenção. Enquanto a mulher se queixava da comida que "não é boa" e da água que "não é limpa", o ministro classificou a situação como normal. "Isto não é um hotel", disse-lhe.
Segundo grupos de defesa dos direitos dos prisioneiros palestinianos, mais de 9.600 cidadãos estão sob custódia israelita. Entre estes, estão incluídas 84 mulheres e 350 crianças, que estarão a ser submetidas a maus-tratos, nomeadamente negligência médica, espancamentos e violações, escreve o jornal Middle East Eye.