Como o arquipélago norueguês Svalbard poderá ser o próximo alvo da corrida ao Ártico
Enquanto a Noruega tenta reforçar a sua soberania, cresce o interesse por parte da China e da Rússia que já mantêm alguma influência nas ilhas.
À medida que a corrida para controlar o Ártico acelera, o arquipélago norueguês Svalbard, situado perto do Polo Norte, tem-se tornado cada vez mais cobiçado. Apesar de pertencer à Noruega, qualquer pessoa pode estabelecer-se nestas ilhas sem visto e, segundo o seu site oficial, existem pelo menos dois povoamentos de cidadãos russos e ucranianos.
Durante décadas, o arquipélago foi conhecido por albergar uma população de ursos-polares que duplica o número de habitantes, cerca de 2.500 pessoas. Mas agora a Noruega está a tomar medidas para reafirmar a sua soberania num contexto crescente de insegurança no Ártico.
As ilhas pertencem à Noruega, mas graças a um acordo assinado em 1920, cidadãos dos países signatários do contrato podem realizar atividades económicas e científicas no território. Assim sendo, tanto a Rússia como a China têm mantido uma presença ativa no local através do estabelecimento de pequenas comunidades, uma mina de carvão soviética e a abertura de uma estação científica chinesa. O tratado também determina que Svalbard é uma zona desmilitarizada.
As recentes ameaças por parte dos Estados Unidos à Gronelândia colocaram os países com presença no Ártico em alerta, nomeadamente a Noruega, e com duas potências já presentes em Svalbard, a Rússia e a China, teme-se que comecem a soar os alarmes na Administração Trump.
Segundo o jornal espanhol El Diario, que cita um investigador do Instituto Fridtjof Nansen, Arild Moe, “por agora não se questiona a soberania [das ilhas] mas a Rússia pressiona para ter maior liberdade de movimentos sem que a Noruega o permita”.
A maneira de Moscovo colocar pressão é “forçar a interpretação dos antigos tratados de soberania e aumentar a sua presença, o que já provocou vários incidentes”, explica o especialista à publicação. Por exemplo, a Rússia considera que a Noruega viola a cláusula de “zona desmilitarizada” quando a guarda costeira do país nórdico controla o tráfego marítimo na região, onde existe a presença de navios russos. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo também já tem vindo a acusar Oslo de restringir a atividade económica e científica nas ilhas com a aplicação de restrições ambientais.
Já a Noruega tem tentado atenuar a influência estrangeira, retirando o direito de voto a moradores estrangeiros nas eleições locais e bloqueando a venda de terras a compradores de outros países. Reforçou ainda o controlo sobre os investigadores que chegam ao arquipélago.
Sem minerais raros, o interesse da Rússia assenta noutra questão. Segundo o investigador, “trata-se de manter aberto o acesso atlântico através do mar de Barents à sua frota de submarinos nucleares situada na península de Kola”. “Para a Rússia é muito importante manter as Svalbard desmilitarizadas, mas não há dúvida de que, se rebentasse um conflito na região, a Rússia iria claramente querer tomar o controlo das ilhas”, acrescenta.
O último relatório de ameaças publicado no início do ano pelo Serviço de Segurança da Noruega menciona que as ilhas Svalbard “tornaram-se alvo da inteligência russa”, que pode tentar levar a cabo ações de espionagem, sabotagem e guerra híbrida.