Candidato pró-UE vence eleições na Arménia. "Putin vai retaliar"
Nikol Pashinyan venceu os candidatos pró-russos e José Filipe Pinto acredita que a Rússia vai tentar descredibilizar esta eleição.
O partido do primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, venceu as eleições parlamentares arménias este domingo, com 49,8% dos votos. As legislativas, em que um total de 19 partidos e blocos disputaram os 101 lugares no parlamento, foram encaradas como um teste à mudança de políticas da Arménia face à Europa e ao poder que a Rússia de Putin tem sobre este país.
De acordo com a Comissão Eleitoral Central, após a contagem de todas as urnas, o partido Contrato Cívico, de Nikol Pashinyan, obteve 49,8% dos votos, à frente da Aliança Arménia, do milionário russo-arménio Samuel Karapetyan, que teve 23,3%. As outras duas forças da oposição, a formação do ex-Presidente Robert Kocharyan e o partido Arménia Próspera, obtiveram 9,9% e 4% dos votos, respetivamente.
José Filipe Pinto, académico especialista em assuntos internacionais, sublinha que a Rússia "interfere na maioria das eleições em que sinta que tem algo a ganhar - e que tem hipótese de ganhar algo". "Quer seja porque tem um candidato que beneficia os interesses russos, quer seja porque não quer a eleição de outro candidato, isso acontece um pouco por todo o mundo: aconteceu nos Estados Unidos, acontece em França" e aconteceu agora na Arménia. "As únicas eleições em que a Rússia não interfere são aquelas em que não encontram de todo recetividade ou quando considera que não é necessário interferir, tal é a vantagem do candidato que apoia."
No caso da Arménia havia vários candidatos pró-russos e "daí a Rússia decidiu interferir e, quando percebeu que não iria conseguir que os seus candidatos vencessem as eleições, começou a insistir em propaganda que dizia que a União Europeia é que estava a interferir nas eleições para que o candidato mais europeísta vencesse".
Nikol Pashinyan disse que se tratou de "uma vitória histórica", prometendo "continuar a corrida para a aproximação da Arménia ao Ocidente” e pretendendo, ao mesmo tempo, "reforçar as relações" com a Rússia.
Mas a verdade é que José Filipe Pinto não acredita que Putin entenda esta vitória como uma coisa positiva para a Rússia. "Acho que Putin vai retaliar. Não ao estilo do que fez na Ucrânia, mas através da veia diplomática. Vai impulsionar os candidatos da oposição pró-russos, vai promover movimentações civis e continuar a imputar ingerência à União Europeia."
A votação de domingo ocorreu após vários anos de crise política na Arménia, desde que Pashinyan chegou ao poder com a promessa de desmantelar o sistema oligárquico pós-soviético. Karapetyan, líder da oposição, classificou as eleições como "vergonhosas", denunciando "violações e repressão".
O país do Cáucaso, predominantemente cristão, ainda está a recuperar da derrota da crise com o Azerbaijão em 2020 e da perda de Nagorno-Karabakh em 2023, que desencadeou o êxodo de dezenas de milhares de arménios.
Entretanto, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, felicitou o primeiro-ministro arménio pela vitória nas eleições parlamentares, sublinhando que a União Europeia "está com a Arménia". "Valorizamos profundamente a nossa parceria com uma Arménia democrática que se aproxima cada vez mais da Europa", escreveu a presidente da Comissão Europeia nas redes sociais.
O chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, também felicitou Nikol Pashinyan pela "grande vitória" eleitoral e manifestou apoio à aproximação à Europa do país do Cáucaso, que, disse, se está a afastar da órbita de Moscovo.
O enfraquecimento de Putin
José Filipe Pinto defende a teoria - que Zelensky já avançou na carta aberta escrita a Putin - de que o presidente russo começa a perder apoios dentro do país. "A Rússia neste momento enfrenta problemas internos graves. Putin está isolado e protegido por uma guarda pretoriana e verdadeiramente começa a haver no circo íntimo dele - naquilo que se chama "a família" - um desejo de encontrar alguém para o substituir", acredita o académico.
E Putin, para se defender, vai arranjar uma estratégia que envolve mostrar que é forte para o exterior e vitimizar-se para o interior. "Vai continuar com os drones a fazer estes ataques em países do Báltico como aconteceu hoje, ao mesmo tempo que dá azo às teorias da influência da União Europeia junto destes países que ameaçam o modo de viver dos russos."