Com produção executiva dos irmãos Duffer, criadores de "Stranger Things", a nova série da Netflix leva o mistério sobrenatural para uma comunidade de reformados no deserto do Novo México.
À primeira vista, The Boroughs parece habitar um lugar familiar: uma comunidade aparentemente tranquila, isolada no deserto do Novo México, onde a normalidade começa a ceder perante sinais de que há algo muito estranho a acontecer. Mas a série criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews troca os adolescentes em bicicletas e os subúrbios dos anos 80 por um grupo de reformados que, contra todas as expectativas, se vê obrigado a enfrentar uma ameaça sobrenatural. A premissa é simples e eficaz, há algo a roubar-lhes aquilo que mais escasseia nesta fase da vida: o tempo.
A ligação aos irmãos Matt e Ross Duffer, criadores de Stranger Things, é inevitável: os dois entram no projeto como produtores executivos, através da sua Upside Down Pictures. Ainda assim, The Boroughs parece querer encontrar uma identidade própria. Há nela ecos de Spielberg, sobretudo na forma como combina aventura, mistério, humor e emoção, colocando personagens comuns perante uma força maior do que elas. Mas há também uma inquietação mais contemporânea, quase de paraíso artificial, na imagem dessa comunidade perfeita demais para ser verdadeira. Um cenário luminoso, organizado e confortável que, aos poucos, deixa perceber que talvez esconda algo mais sombrio.
Grande parte da força da série está no elenco. Alfred Molina, Geena Davis, Alfre Woodard, Bill Pullman, Clarke Peters e Denis O’Hare interpretam este grupo improvável de heróis, sublinhando uma das ideias mais interessantes de The Boroughs: a de que a aventura, o medo e a vontade de resistir não pertencem apenas à juventude. Sem revelar demasiado, a série parte do fantástico para falar também de envelhecimento, perda, solidão e comunidade. No fundo, é ficção científica com monstros, sim, mas também uma história sobre o que ainda se pode fazer quando o mundo insiste em dizer que já passou o nosso tempo.