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Ricardo Araújo Pereira: “Eu nunca sinto outra coisa a não ser liberdade”

Já explorou vários formatos ao vivo, mas é a primeira vez que Ricardo Araújo Pereira escreve e entrega um solo de stand-up, numa sala só para si. A SÁBADO assistiu à estreia de “Verificando se você é humano” e trocou umas palavras com o humorista.

Renata Lima Lobo 26 de abril de 2026 às 08:09
O humorista em atuação com o espatáculo de Stand Up "Verificando se você é humano" Ricardo Meireles/Sábado

“Eu nunca sinto outra coisa a não ser liberdade.” É assim que Ricardo Araújo Pereira (RAP) descreve o que leva para palco. E foi isso que se viu na estreia de “Verificando se você é humano”, no Porto, onde a SÁBADO acompanhou todos os momentos da noite, no antes, durante e depois do espetáculo.

Não é a primeira vez que RAP sobe a um palco sozinho, apenas acompanhado por um texto e um microfone. Em 2003, fê-lo várias vezes no programa da SIC “Levanta-te e Ri” e anos mais tarde deu um ar da sua graça no festival brasileiro Risadaria. Mas nunca assim. Numa sala que se enche de milhares de pessoas só para o ver. “Verificando se você é humano” é o nome do espetáculo que deu os primeiros passos esta sexta-feira e sábado no Porto, na sala do Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota. A digressão tem datas marcadas para a MEO Arena, em Lisboa, a 5 e 6 de junho; e no Casino da Madeira, nos dias 26 e 27 de junho.

O público entra em cena

A abertura das portas estava marcada para às 20h30, uma hora antes do arranque previsto do arranque do espetáculo. Os primeiros “madrugadores” foram entrando, calmamente, dirigindo-se aos comes e bebes, entre cachorros, pipocas ou cerveja. Num pedestal, próximo de uma das bilheteiras, estava uma caixa de acrílico ladeada de panfletos, onde se lia: “Coloque aqui a sua pergunta”. Tinhamos encontrado a primeira pista para o que, dentro de pouco tempo, poderia acontecer em palco. Porque, de resto, pouco ou nada se sabia sobre o que ia acontecer.

“De certeza que vai pegar em vários assuntos do dia-a-dia, mas vamos ver como é que corre”, antevia Susana, uma dos muitos milhares de pessoas que iam entrando aos poucos na arena. Ao seu lado, Marta acrescentava que RAP as iria “fazer rir com a má atualidade, num tom leve e engraçado”. O terceiro elemento deste grupo de amigas, Carla, defendia que “isso também é um bocadinho do objetivo do humor”, o de “podermo-nos distanciar das circunstâncias” através do riso. “Mas acredito que também possa levar o espetáculo para um lado um bocadinho mais, não diria filosófico, não é essa a lógica, mas de nos fazer refletir o que é que nos torna mais humanos ou menos humanos no contexto em que estamos neste momento”, finalizou. E acertou.

Ricardo Araújo Pereira em atuação com o espetáculo de Stand Up "Verificando se você é humano" no Pavilhão Rosa Mota, no Porto Ricardo Meireles/Sábado

Por esta altura, as caixas com as perguntas iam permanecendo uma incógnita e a sala do Pavilhão Rosa Mota enchendo. Às 21h30, hora prevista para o arranque do stand-up, um elemento da produção decidiu ser a primeira voz no palco, para esclarecer que os panfletos serviam para perguntar “sem filtros”, o que sempre quiseram saber sobre “a estrela do humorismo”. “Não tenham vergonha, venham recolher as folhas à frente do palco e depois ponham nas caixinhas”.

Ao nosso lado, um grupo procurava uma caneta, encontrada nas mãos da jornalista que vos escreve. “Já percebi que o espetáculo se calhar vai ser um bocado interativo. As expectativas são sempre altas com o Ricardo Araújo Pereira. Inicialmente até pensámos que era um stand-up, mas se calhar não”, dizia João, na expectativa, assumindo-se um pouco confuso. Por seu turno, Rita tinha a expectativa que o texto de RAP tivesse o mesmo espírito de “atualidade” do seu programa "Isto É Gozar Com Quem Trabalha", transmitido aos domingos pela SIC.

André ajuda-nos a interpretar o título do espetáculo, uma espécie de teaser relacionado com novas tecnologias: “A inteligência artificial agora está na berra, pode ser interessante ver a perspetiva dele sobre esses assuntos. Acho que ele é muito culto e tem sempre ideias muito interessantes sobre isso”. Ao lado, Sandra confessa que o grupo gosta muito de acompanhar o trabalho de RAP e já tinham ido assistir ao espetáculo que fez com Gregório Duvivier [“Um Português e um Brasileiro Entram num Bar”, 2025]. “ Adorámos na altura e estamos entusiasmados para este também”.

Stand-up, finalmente

Às 21h45, um humorista entrava em palco. Era Guilherme Fonseca para fazer o aquecimento, seguido de Manuel Cardoso, membros da equipa de guionistas de “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”. “Ele está só ali a acabar o texto. Mas quem esperou 20 anos para o RAP voltar a fazer stand-up também espera mais 15 minutos”, dizia Guilherme, antes do pequeno stand-up que preparou para a ocasião. Manuel Cardoso (que foi ovacionado ao entrar) esclarecia que ambos costumam dizer que escrevem “com” o RAP no programa e não “para” ele, porque fazem “o que o chefe manda”.

Ricardo Araújo Pereira em atuação com o espetáculo de Stand Up "Verificando se você é humano" no Pavilhão Rosa Mota, no Porto Ricardo Meireles/Sábado

E o chefe entrou em palco às 22h15, pronto para enfrentar uma sala com milhares de pessoas. De fato escuro, a contrastar com um cenário em tons de vermelho, e apenas munido de um microfone e várias garrafas de água, arranca com o tema do amor e da literatura. Sem arriscar muitos spoilers, a ideia central de “Verificando se você é humano” passa pela noção de que o mundo “está cada vez pior” — pelo menos em algumas coisas, sem subscrever a máxima de que “antigamente é que era bom”.

O texto privilegia a sátira social, relegando a política para segundo plano, e, em pouco mais de uma hora, passa por temas como crianças agarradas ao telemóvel, proteína em pó, cigarros eletrónicos, velas perfumadas, Porn Hub ou até a criação do mundo. E, claro, pela ferramenta de segurança conhecida como CAPTCHA (Completely Automated Public Turing test to tell Computers and Humans Apart), usada para diferenciar humanos de bots, que dá título ao espetáculo. Quando cai o pano, RAP regressa com Guilherme Fonseca e Manuel Cardoso, que se sentam a tirar alguns panfletos da tômbola para uma ronda de perguntas do público. O que também tornará cada espetáculo único.

Ricardo Araújo Pereira Ricardo Meireles/Sábado

À conversa com RAP

No final, a SÁBADO dirigiu-se aos bastidores onde o humorista ainda teve energia para falar, à vez, com os jornalistas. “Correu bem?”, perguntámos. “Acordei às 5 da manhã por causa de ansiedades, e, portanto, eu neste momento não lhe sei dizer. Mas eu diria que sim”, respondeu o humorista. Com várias datas pela frente, admitiu que o espetáculo pode não estar fechado: “É natural que haja coisas que vão entrando e saindo [do texto], até porque podem ir-me ocorrendo, ou que podem fazer sentido a propósito de um acontecimento qualquer interessante em relação ao qual eu queira falar”, confessa, definindo o texto como “uma coisa em construção”.

Autor único deste espetáculo, explicou que não escreveu tudo de uma assentada: “Eu escrevo todos os dias, para a Folha de S. Paulo, o Expresso, às vezes a Comercial, e portanto há vários temas sobre os quais eu vou pensando e vou escrevendo”.

Ricardo Araújo Pereira Ricardo Meireles/Sábado

Mas porquê agora, ou só agora, um regresso ao stand-up? “Uma coisa que me encanta é que durante imenso tempo as pessoas perguntaram ‘porquê é que não fazes stand-up?’ E agora que eu faço, as pessoas perguntam ‘porquê é que fazes stand-up?’. Eu percebo a pergunta, mas não sei responder. É capaz de ser crise de meia-idade”, argumentou.

Sobre se sente mais liberdade ou mais exposição neste tipo de formato, foi claro: “Eu nunca sinto outra coisa a não ser liberdade. Essa é a maravilha de ter nascido no dia 28 de abril de 74, que é, não vivi nem um minuto no regime anterior e nunca sinto qualquer outra coisa que não seja a liberdade para dizer o que me apetecer”.

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