Em 2006, o mundo parecia acelerar a um ritmo que ainda não sabíamos nomear. O YouTube tinha acabado de nascer, o MySpace era um território selvagem onde bandas se faziam sem pedir licença, e o Reino Unido procurava, depois da ressaca da britpop, uma nova voz que não soasse a nostalgia reciclada. Foi também nesse ano que quatro rapazes de Sheffield tocaram pela primeira vez em Portugal, no Paradise Garage, em Lisboa, ainda longe dos palcos de multidões, mas já com a convicção insolente de quem sabe que algo está prestes a acontecer.
Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not saiu em janeiro de 2006 e, em poucos dias, tornou-se o álbum de estreia mais rapidamente vendido da história da música britânica. Os números, no entanto, contam pouco daquilo que realmente estava em jogo. O que os Arctic Monkeys fizeram foi mais raro: captaram o som exato de uma geração antes que ela tivesse tempo de se reconhecer ao espelho.
Há discos que chegam polidos, conscientes do seu lugar na história. Este, chegou como quem abre uma porta à força. Não pedia desculpa, não pedia contexto. Falava de noites demasiado longas, filas à porta dos clubes, copos de plástico, cigarros, pequenas violências verbais, desejos mal formulados e uma masculinidade jovem ainda por desmontar. Falava, sobretudo, com uma língua viva - rápida, observacional, cruelmente precisa.
Alex Turner, o vocalista, tinha 19 anos e escrevia como se estivesse a tomar notas mentais num canto da sala. As letras de faixas como I Bet You Look Good on the Dancefloor, Fake Tales of San Francisco ou When the Sun Goes Down não romantizavam o quotidiano: expunham-no. Havia nelas um ouvido absoluto para o diálogo banal, para a fanfarronice vazia, para o desconforto social que nasce quando todos fingem estar a divertir-se mais do que realmente estão.
Musicalmente, o disco era direto, nervoso, sem gordura. As guitarras de Jamie Cook cortavam em linhas secas, Matt Helders tocava bateria como quem corre atrás do próprio pensamento, e o baixo de Andy Nicholson - que viria, depois, a ser substituído por Nick O'Malley - sustentava tudo com uma pulsação urbana, quase dançável. Nada soava excessivamente ensaiado; tudo parecia urgente. Era rock de garagem, é certo, mas com uma inteligência rítmica e lírica que o afastava do revivalismo preguiçoso.
Do topo destas duas décadas, à distância certa, é-nos possível perceber como este primeiro disco continha já o germe da elasticidade futura dos Arctic Monkeys. Turner não ficou preso à persona do cronista noctívago de Sheffield. Pelo contrário; ao longo dos anos, viria a desmontar e reconstruir a própria identidade artística com uma liberdade pouco comum no rock de massas. Do psicadelismo californiano de Humbug (2009) à sofisticação lounge de Tranquility Base Hotel & Casino (2018), passando pelo classicismo musculado de AM (2013), a banda recusou sempre a repetição como zona de conforto.
Mas tudo começa aqui. Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not é um disco de chegada, mas também de partida. Um álbum que documenta um tempo anterior à saturação digital, quando a descoberta ainda tinha algo de físico; um CD passado de mão em mão, uma faixa ouvida numa coluna decrépita de computador, um concerto visto demasiado perto do palco e gravado num telefone cuja câmara não chegava aos cinco megapíxeis.
Fica aqui um feeling que pertence apenas à adolescência quando esta ainda não foi mitificada. Tudo parece definitivo, mas nada é verdadeiramente estável. As canções avançam como conversas ditas depressa demais, com frases atiradas para o ar antes que o silêncio as desminta.
Há crueza, mas não pose; há raiva, mas também tédio; há desejo, mas quase sempre envergonhado. Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not vive, aliás, dessa tensão e fez-nos crer num mundo que é pequeno demais e, ao mesmo tempo, excessivamente vasto. Num território confuso, simultaneamente perpétuo e descartável, onde cada noite parece conter uma vida inteira.
Essa energia quase documental teve, naturalmente, quem a lesse como limitação. Parte da crítica britânica acusou os Arctic Monkeys de excesso de literalidade, de retratarem um universo masculino estreito, de se esconderem atrás do humor observacional para evitar uma verdadeira profundidade emocional.
Outros viram no disco um produto inflacionado pelo hype, uma banda demasiado consciente da própria mitologia precoce, ou um exercício de realismo social sem grande ambição estética. Vistas hoje, as palavras dizem tanto sobre a ansiedade do contexto como sobre o álbum em si. O que em 2006 parecia falta de horizonte revelou-se, afinal, um ponto de partida. A banda não ficou ali. E o disco, longe de se fechar sobre si mesmo, abriu uma linguagem que muitos tentaram repetir, quase sempre sem o mesmo ouvido, sem a mesma urgência, sem a mesma verdade.
Vinte anos depois, o álbum mantém uma frescura rara. Não porque soe atual, mas porque permanece honesto. Não tenta ser maior do que é. Não pede canonização. Limita-se a existir como um documento fiel de juventude, classe, lugar e linguagem. E isso, na música popular, é uma forma elevada de permanência.
O que quer que as pessoas tenham dito, os Arctic Monkeys nunca aceitaram ser apenas isso. Mas, em 2006, disseram exatamente aquilo que era preciso dizer — e disseram-no mais alto do que todos os outros.