Anthony Hopkins, um dos atores mais reconhecidos da sua geração, abriu um novo capítulo público na música clássica. Aos 88 anos, o intérprete galês assinou contrato com a Decca Classics, como compositor, e lançou esta sexta-feira Bracken Road, primeiro single de Life Is a Dream, álbum de obras orquestrais que será editado a 21 de agosto.
O disco reúne 12 composições originais escritas por Hopkins em diferentes períodos da vida, algumas com mais de 60 anos. Segundo a Decca, Life Is a Dream é o projeto musical mais pessoal do ator e inclui peças inspiradas na família, no País de Gales, na infância e em memórias de uma vida inteira. A gravação é interpretada pela Philharmonia Orchestra, dirigida por Gustavo Dudamel, com participações do violoncelista Gregorio Nieto e do pianista Sergio Tiempo.
Esta não é, no entanto, a primeira incursão musical de Hopkins. O ator começou a tocar piano aos quatro anos, em Port Talbot, no País de Gales; improvisava temas ainda em criança e, na adolescência, já compunha música para peças locais. Em 1996, assinou a música do seu filme August; em 2012, André Rieu apresentou publicamente And the Waltz Goes On, valsa escrita por Hopkins décadas antes, e nesse mesmo ano foi editado Composer, álbum com obras suas gravadas pela City of Birmingham Symphony Orchestra.
Anthony Hopkins passa a integrar agora o catálogo da Decca Classics e apresenta um álbum orquestral construído como uma espécie de autobiografia musical. “A música foi o meu primeiro desejo, o meu primeiro sonho”, afirmou o ator em comunicado citado pela Reuters e pelo Guardian. “Tenho composto música toda a minha vida. Algumas destas peças vivem comigo há décadas e continuo a voltar a elas.”
Bracken Road, o primeiro tema divulgado, faz parte da 1947 Suite para piano solo e orquestra. A peça foi originalmente concebida em 1963, quando Hopkins trabalhava como jovem ator na Liverpool Playhouse e improvisava num piano vertical antes dos ensaios. A composição recupera memórias da infância em Margam, no sul do País de Gales, entre ruas, campos, montes e paisagens próximas da casa de família. Segundo a informação divulgada pela Decca, a peça tem influência das baladas orquestrais de Harry James e Jackie Gleason, com uma orquestração que presta homenagem ao andamento lento da Primeira Sinfonia de Elgar.
O álbum inclui ainda My Fatherland, tributo às origens galesas de Hopkins e ao pai, que era padeiro. A peça, segundo o próprio, foi escrita para honrar as suas “origens humildes”. Outras composições do alinhamento remetem para Port Talbot, para memórias de infância com o avô, para o cinema que o marcou e para pessoas próximas, como Stella Aria, dedicada à mulher, e Tara, dedicada à sobrinha.
A ligação entre música e representação não é, para Hopkins, apenas biográfica. Em entrevista anterior à publicação Gramophone, citada pelo site Classic FM, o ator disse que a música o ajuda frequentemente a encontrar uma entrada para as personagens. Ao preparar-se para interpretar Richard Nixon, por exemplo, ouvia Aaron Copland; e associava a sua própria melancolia, ligada à juventude no País de Gales, a compositores como Vaughan Williams e Elgar.
Hopkins venceu dois Óscares de Melhor Ator — por O Silêncio dos Inocentes e The Father — e construiu uma carreira de mais de seis décadas no cinema, no teatro e na televisão. Com Life Is a Dream, reorganiza a linguagem enquanto artista.