A propósito da esteia dos novos "micro-dramas" da RTP, ao longo de uns dias, nas viagens de autocarro entre casa e o trabalho, sentei-me a ver os episódios que o Instagram da RTP Play já tinha para mim. Talvez não “para mim”, uma Xennial (alguém a meio caminho entre a Geração X e os millennials) convicta, mas para uma geração que nasceu de telemóvel na mão. Mas talvez também para mim, que – tendo crescido com a televisão aos pés - já não vou tendo tenho tempo para as infindáveis horas de conteúdos em episódios que os streamings têm para me distrair. Mas o tempo, ensinou-nos Einstein, é sempre relativo.
Sou do tempo em que havia tempo para 347 episódios de uma telenovela que todos comentávamos no dia seguinte. E também sou do tempo, este hoje que vivo, em que torço para que a próxima produção em episódios que me prenda seja uma minissérie. Porque tenho um compromisso com o muito que escolho ver e pouco tempo na mão para longos compromissos de várias temporadas. “Terei” de o distribuir com mais conteúdos no telemóvel? Estamos a poupar tempo ou a acrescentar horas?
É longa a história das imagens em movimento, desde os primeiros animatógrafos, passando pelas grandes salas, até cinema em casa, em ecrãs mais ou menos pequenos e, ao longo dos anos, com diferentes formatos. Mas hoje, o movimento parece querer fazer-se em vários sentidos. Na própria imagem mas também em grande parte do dia: no movimento do dispositivo portátil que os transporta, ao acompanhar cada um dos seus utilizadores, aparentemente colado às mãos de cada um; e no movimento sobre si próprio, ora na horizontal, ora na vertical.
Mas que conteúdos vemos com o telemóvel deitado? Os filmes, séries e programas que integram as (demasiado?) vastas coleções dos serviços de streaming. E se por diversas vezes estreiam séries que arriscam episódios tão longos quanto um filme, a cada vez mais curta capacidade de atenção da humanidade parece pedir menos. Muito menos. Mas o que é o tempo? Quando gostamos de alguma coisa parece que passa a correr e vice-versa. Queremos mesmo “gastar” menos tempo a ver em detrimento do que realmente queremos estar a assistir? A resposta está em cada um de nós.
Ficções ao alto
Uma rapariga perde a mãe, o pai casa-se com outra mulher que leva a sua filha lá para casa. Ambas tratam mal a filha do pai e o pai vive completamente à nora do que se passa naquela casa. Se calhar já lemos e vimos esta história, talvez numa história de encantar ou numa telenovela, mas agora é na vertical. E em poucos minutos. Herança Fatal é uma das cinco microsséries apresentadas pela RTP, para ver nas redes sociais, sem virar o telemóvel, em episódios que nunca ultrapassam os dois minutos.
Poderia ter feito sentido ser um projeto pensado para o RTP Lab, laboratório de experimentação destinado a novos criadores que contam com o apoio de uma equipa de mentores, um pequeno orçamento e uma plataforma, a RTP Play. Às vezes, conseguem expandir terreno para a emissão linear, como aconteceu recentemente com a série Astro-Mano, de Pedro Ferreira, que encontrou espaço na grelha da RTP1. Mas esta primeira incursão pelo formato micro na ficção ficou nas mãos da experiência. Em concreto, da SPi, a produtora parceira da RTP nesta iniciativa e uma das mais profícuas em Portugal, responsável por títulos como as séries Glória, Motel Valkirias ou Auga Seca. São séries, mas os criadores destes micro-dramas também sabem fazer ficção de extremamente longa duração.
O título Herança Fatal dá logo aquele som de telenovela. Ou de filmes com a Sharon Stone e a Glenn Close, para uma certa geração. Bom, mas a ideia parece ser mesmo essa e quem escreve o argumento sabe o que está a fazer: Inês Gomes e Pedro Lopes, argumentistas de boas séries, mas também argumentistas principais de grandes sucessos da telenovela nacional, de Mar Salgado a Espelho d’Água. Todos os episódios são realizados por Manuel Amaro da Costa, cuja carreira tem passado essencialmente por telenovelas e programas de entretenimento.
As outras séries micro são as comédias A Casa dos Outros (escrita por Pedro Lopes, Susana Romana, Marina Preguiça Ribeiro), orientada para um público mais jovem, e Sabores de Amor (Susana Romana e Marina Preguiça Ribeiro), típica comédia popular portuguesa, num conjunto que também inclui os dramas Além do Silêncio (Pedro Lopes e Marina Preguiça Ribeiro), sobre violência doméstica; e Sextortion (Inês Gomes), cujo tema anda em torno do assédio digital, esta duas últimas produções para maiores de 16.
Em A Casa dos Outros, somos confrontados com o problema do acesso à habitação, seguindo um grupo de jovens adultos que partilham um apartamento que têm de abandonar. Podia ser um drama, mas é uma comédia que em certos momentos faz lembrar o filme de Fim de Semana com o Morto (1989), de Ted Kotcheff, com o bónus de incluir Luísa Cruz no elenco.
A outra comédia do grupo, Sabores de Amor, junta Patrícia Tavares e Pedro Laginha numa batalha de roulotes, bifanas e amores proibidos, numa típica história portuguesa de humor simples, mas eficaz. Por outro lado, o ambiente telenovelesco (que tem um mercado bastante seguro em Portugal) está também presente na série Além do Silêncio, adotando o tema da violência doméstica, infelizmente sempre na ordem do dia, sobre um suposto casamento de sonho que se revela um pesadelo.
Por fim, Sextortion, uma micro-ficção sobre uma jovem que quer ser bailarina mas é forçada pelos pais a tirar um "curso a sério", ao mesmo tempo que é vítima de chantagem por um anónimo que ameaça revelar fotografias íntimas. Ao longo da trama, a actriz principal, Mar Bandeira, vai quebrando a quarta parede, dirigindo-se diretamente ao espectadores e convidando-os a ser suas testemunhas.
Os episódios vão caindo a cada semana nas redes sociais da RTP Play: de segunda a sexta-feira estreiam três episódios por série (às 12h, 15h e 18h), num total de 20 por título, mas todos os 100 episódios das cinco séries (que totalizam 170 minutos) estão disponíveis no streaming da RTP Play. Onde existem dois problemas: o formato vertical não funciona na plataforma preparada para o horizontal e a publicidade que precede cada episódio é tem praticamente um terço da duração do mesmo. Não compensa.
Na cena mundial
Seja como for, a ficção na vertical não é uma ideia nova. É, aliás, um fenómeno global, com particular expressão na Ásia, onde nasceram plataformas dedicadas ao tema, como a Dramabox ou a ReelShort. Há vários festivais destinados às produções neste formato um pouco por todo o mundo e em Portugal já existem festivais de cinema abertos a formatos alternativos. Até o próprio Festival de Cannes, que apoiou a competição #TikTokShortFilm, composta por curtas-metragens verticais. Os portugueses Lucas Dutra e Madalena Aragão foram os vencedores da edição 2023 na categoria Melhor Argumento, com a curta (Nós) Na Cabeça, sobre uma jovem que sofre de esquizofrenia.
Interpretada por Aragão e realizada por Dutra, essa pequena produção acabou por ser uma rampa para o também ator fosse convidado para realizar #NaWeb, uma websérie de 12 episódios que em 2024 integrou o universo de Morangos com Açúcar e também filmada na vertical, para ver no mundo digital (ainda está disponível no TVI Player).
Mas voltando às plataformas asiáticas, a grande parte dos conteúdos disponíveis são de muito fraca qualidade e cada título tem dezenas, às vezes centenas de episódios, num claro primado da quantidade. No caso das microsséries da RTP houve bastante mais cuidado, mas não vale a pena estar à espera de algo surpreendente. É o que é, uma série de histórias feitas com profissionalismo, mesmo que demasiado assentes em planos/contra-planos simples, com uma narrativa direta, curta e grossa. E parece que é isso que se quer.
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