Festival de Cinema de Veneza arranca hoje: tudo o que precisa de saber sobre a 83ª edição
George Clooney, Dakota Johnson e Robert Pattinson estão entre os nomes que vão passar por Veneza nos próximos dias. Até 12 de setembro, o festival vai receber não só algumas das maiores estrelas de Hollywood, mas também os filmes mais aguardadas do ano, potenciais candidatos aos Óscares.
Sandra Bullock e George Clooney são vistos durante o 70º Festival Internacional de Cinema de VenezaDave Bedrosian/Geisler-Fotopress/picture-alliance/dpa/AP Images
Algumas das maiores estrelas de Hollywood estão a caminho de Itália para a 83ª edição do Festival de Cinema de Veneza, que começa esta quarta-feira. Este é um dos festivais de cinema mais prestigiados do mundo, assim como Cannes, e também o mais antigo. Todos os anos, este evento, que reúne alguns dos melhores filmes do cinema internacional, é repleto de estrelas: geralmente chegam em táxis aquáticos acompanhadas por um pôr do sol. Há também vestidos de tirar o fôlego, estreias caóticas, longas ovações de pé e, é claro, muitos drinques. Aqui está tudo o que precisa de saber.
O que é o Festival de Cinema de Veneza?
Fundado em 1932, o Festival de Cinema de Veneza exibiu, na sua primeira edição, filmes como Grand Hotel (1932) e Aconteceu Naquela Noite (1934). Em 1935 tornou-se num evento anual e, desde então, dedica-se a promover um cinema excecional e inovador.
Nas primeiras décadas, o festival homenageou as obras do cineastas pioneiros, como Akira Kurosawa, Satyajit Ray, Roberto Rossellini, Andrei Tarkovsky, Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti e Luis Buñuel. A crescente influência dos regimes fascistas sobre o festival, particularmente na edição de 1938, esteve na origem da criação do Festival de Cannes, cuja primeira edição acabaria por realizar-se apenas em 1946.
O Leão de Ouro, como hoje o conhecemos, e que é o prémio máximo do festival atribuído ao melhor filme em competição, só foi instituído em 1949. O thriller Às Portas do Inferno venceu este galardão em 1951, e o mesmo aconteceu com o romance A Bela de Dia (1967), o filme de guerra Adeus, Rapazes (Au revoir les enfants) (1987), O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Somewhere - Algures (2010), Pobres Criaturas (2023) e, no ano passado, Father Mother Sister Brother ("Pai Mãe Irmã Irmão").
Quando acontece o Festival de Cinema de Veneza?
O Festival de Cinema de Veneza costuma acontecer no final de agosto, embora este ano aconteça um pouco mais tarde. Começa esta quarta-feira, 2 de setembro, e vai até dia 12 - dia em que são anunciados os vencedores.
Onde acontece o Festival de Cinema de Veneza?
Veneza, claro, mas mais especificamente em Lido - uma estreita ilha com cerca de 11 quilómetros de comprimento, situada a uma curta viagem de barco da movimentada Praça de São Marcos.
Iilha de Lido à esquerdaMatthias Schrader/picture-alliance/dpa/AP Images
Qual será o filme de abertura?
Este ano, o filme de abertura será Ink, um drama biográfico de Danny Boyle. A obra conta a história de Rupert Murdoch (Guy Pearce), que compra o jornal The Sun em 1969 e transforma-o num dos jornais mais influentes, repleto de obscenidades sexistas e política conservadora.
Quem estará presente no Festival de Cinema de Veneza?
George Clooney é já uma figura constante em Veneza e este ano volta a marcar presença no festival. Entre os nomes esperados estão Dakota Johnson, Penélope Cruz, Robert Pattinson, Pamela Anderson, Javier Bardem, Alicia Vikander, Claire Foy, Susan Sarandon, John Malkovich, Jack O'Connell, Sam Rockwell, Orlando Bloom, Stephen Graham, Paul Dano, Parker Posey, Phoebe Bridgers, as irmãs Kate e Rooney Mara, e os irmãos Noel e Liam Gallagher - estes últimos que vão promover o seu novo documentário Oasis, Don't Look Back In Anger, que estreia em Portugal dia 10 de setembro.
Que filmes estarão em exibição no Festival de Cinema de Veneza?
Entre os lançamentos mais aguardados na disputa pelo Leão de Ouro estão: a comédia Wild Horse Nine ("Cavalo Selvagem Nove"), de Martin McDonagh. O filme conta a história de dois agentes da CIA, que pouco antes do golpe chileno de 1973 são enviados de Santiago para a Ilha de Páscoa pelo seu chefe de serviço. Acontece que o vínculo de um dos agentes com um par de estudantes rebeldes ameaça transformar uma viagem paradisíaca num verdadeiro caos.
Primetime, de Lance Oppenheim, é baseado numa história real e acompanha o jornalista Chris Hansen, um homem que em 2006 está determinado a salvar a estação de televisão da falência. Acaba por criar um programa chamado To Catch a Predator, feito para expor criminosos. Em pouco tempo, a produção torna-se num sucesso de audiência. No entanto, tudo muda quando o hacker Leo descobre um terrível segredo.
Bucking Fastard, de Werner Herzog, é um filme alemão que conta a história das irmãs gémeas Jean e Joan, que têm uma conexão tão profunda que partilham a mesma forma de falar, os mesmos sonhos e até a obsessão pelo mesmo homem. As duas passam até dias à procura de uma terra mítica onde acreditam que poderão viver o amor que idealizam. A obra é inspirada na história real das gémeas britânicas Freda e Greta Chaplin, conhecidas por falarem em perfeita sintonia e por terem uma fixação pelo vizinho.
Company, de Casey Affleck, passa-se durante uma noite de inverno de 1975, quando uma misteriosa mulher chamada Evelyn surge inesperadamente numa reunião de final de ano e começa a contar a história de Tom, um eremita que 20 anos antes tinha resgatado uma atriz que ficara presa durante um nevão no Colorado. Nessa mesma noite é também contada outra história sobre um casal de agricultores que acolhe um jovem caminhante enquanto uma sequência de assassinatos brutais espalha o medo pela fronteira.
The Echo Chamber, de Andrea Pallaoro, retrata uma história de amor em que, à medida que a intimidade se aprofunda, os gestos de afeto começam a confundir-se com obsessão. Presos numa relação marcada por emoções contraditórias, trata-se de um retrato das complexidades das relações contemporâneas. O filme explora ainda o preço de permanecer numa relação em que nada é exatamente aquilo que parece.
Fora da competição, há também vários filmes em destaque. É o caso de The Basics of Philosophy, de Paul Schrader, que acompanha a vida de um professor de filosofia que se vê confrontado com o reaparecimento de alguém do passado. Na lista está também Place to Be, de Kornél Mundruczó; a curta-metragem de apenas 25 minutos They're Here sobre o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), codirigida por Laura Poitras; um documentário de quatro horas de Alex Gibney sobre o magnata Elon Musk; um documentário de quase oito horas sobre o cineasta Bernardo Bertolucci; Flesh Impact, focado no legado de Marilyn Monroe; eo documentário Oasis: Don't Look Back In Anger, que acompanha a digressão de reunião da banda britânica.
Este ano há dois filmes palestinianos na seleção oficial do festival. São eles: Al Mowaten Osama, de Ahmed Hassouna, e Hiwar ma' albahr, de Muayad Alayan.
O Festival de Veneza é tradicionalmente visto como uma das principais plataformas de lançamento para a temporada dos Óscares, com vários dos filmes ali estreados a integrarem posteriormente a corrida aos prémios da Academia.
Quais as controvérsias em torno do Festival de Cinema de Veneza?
O filme DAU, de Ilya Khrzhanovsky, inspirado na vida dos físicos soviéticos que trabalhavam na bomba atómica, tem estado no centro de um debate acalorado. O Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano, o Ministério da Cultura e a Embaixada da Ucrânia em Itália já questionaram a sua inclusão no festival, classificando-o como um "projeto ligado ao Estado russo e às suas redes de influência". O diretor do festival, Alberto Barbera, afirmou, contudo, que "não é um filme russo". "Não é propaganda pró-Putin. É um filme que denuncia regimes totalitários e a sua intromissão na vida dos cidadãos para restringir a sua liberdade."
No início deste ano, a Bienal de Arte Contemporânea de Veneza foi igualmente afetada pelas tensões geopolíticas, depois de cinco membros do júri se terem demitido em protesto contra a participação da Rússia e de Israel. O grupo Venice4Palestine, que no ano passado organizou um protesto durante o festival, este ano pediu que se suspendam "todos os acordos com entidades e instituições ligadas ao governo israelita". O grupo também solicitou que a bandeira da Palestina fosse hasteada em todo o festival".
Além disso, dos 20 filmes que concorrem ao Leão de Ouro, apenas um foi dirigido por uma mulher: a Mulher Desconhecida, de May el-Toukhy. A última vez que a competição teve apenas uma mulher foi em 2018 e, na altura, o festival comprometeu-se em ter pelo menos metade dos filmes em competição dirigidos por mulheres até 2020. Acontece que isso não se concretizou. Este ano registou-se até um declínio acentuado face a edições anteriores.