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Criador de “Baby Reindeer” responde ao processo apresentado por Fiona Harvey contra a Netflix

Mulher que inspirou a perseguidora Martha Scott, na série, abriu um processo de 170 milhões de dólares contra a plataforma de streaming. Richard Gadd garante que foi alvo de "perseguição, assédio, abuso e ameaças".

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Criador de “Baby Reindeer” responde ao processo apresentado por Fiona Harvey contra a Netflix
Luana Augusto 31 de julho de 2024 às 07:00
REUTERS/Mario Anzuoni

Richard Gadd, o criador da série de sucessoBaby Reindeer, relatou, através de um documento de 21 páginas, anos de perseguição "exaustiva e extremamente perturbadora" nas mãos de Fiona Harvey - que serviu de inspiração para a perseguidora Martha Scott na ficção.

O depoimento, apresentado na segunda-feira no tribunal da Califórnia, e onde garante que foi alvo de "perseguição, assédio, abuso e ameaças", entre 2014 e 2017, surge como resposta ao processo legal apresentado por Fiona Harvey contra a Netflix. A mulher abriu um processo de 170 milhões de dólares (cerca de 150 milhões de euros) contra a gigante do streaming em junho, e acusou-a de difamação, inflição intencional de angústia emocional, negligência, negligência grave e violações do seu direto de publicidade. No documento, acusou ainda a Netflix de não fazer "literalmente nada para confirmar a ‘história verdadeira’ que Gadd contou". 

"Ela [Netflix] nunca investigou se Harvey foi condenada, uma deturpação muito grave dos fatos. Não ajudou em nada a compreender a relação entre Gadd e Harvey, se houver alguma. Como resultado das mentiras, da prevaricação e da má conduta totalmente imprudente dos réus, a vida de Harvey foi arruinada", refere o processo interposto pela mulher.

A Netflix tenta agora anular o processo que é alvo, ao alegar que a representação é substancialmente verdadeira. 

"A série é uma obra dramática", escreveu o guionista e ator, Richard Gadd. "Não é um documentário nem uma tentativa de realismo. Embora a série seja baseada na minha vida e em eventos da vida real e seja, em sua essência, emocionalmente verdadeira, não é um relato passo a passo dos eventos e emoções que experimentei à medida que aconteciam. É ficcional e não tem a intenção de retratar factos reais."  

No processo, Fiona Harvey acrescentou que nunca foi condenada por nenhum crime, ao contrário do que a série indica - uma perseguidora condenada duas vezes e sentenciada a um total de cinco anos de prisão. Garantiu também que foi difamada ao ser retratada como a mulher que agrediu Richard Gadd sexualmente, partiu um copo na cabeça do mesmo e esperou por ele do lado de fora da sua casa durante 16 horas por dia. 

"Embora essas produções teatrais fossem emocionalmente verdadeiras e baseadas em eventos reais da minha vida, elas dramatizaram pessoas, lugares, coisas e eventos para contar uma história", explicou o escocês em resposta ao processo. "Eu não escrevi a série como uma representação de factos reais sobre qualquer pessoa real, incluindo Fiona Harvey. Martha Scott não é Fiona Harvey." 

Richard disse tê-la conhecido enquanto trabalhava no pub Hawley Arms, em Londres, em 2014, e garantiu que inicialmente pensou que Fiona Harvey seria "inofenciva", mas que "muitas vezes tentava tocar-me de forma inadequada", ignorando os seus pedidos para que parasse.

Após dois anos de alegado assédio, em fevereiro de 2016, acabou por denunciá-la à polícia. "O efeito acumulativo de todas as ações de Harvey foi enorme", escreveu. "Era exaustivo e extremamente perturbador lidar com as suas constantes interações pessoais no Hawley Arms. O facto de me seguir por Londres, incluindo perto de onde eu vivia, e as suas comunicações implacáveis e profundamente desagradáveis..." 

Fiona Harvey terá até recebido, em maio de 2016, um aviso de assédio em primeira instância, segundo o mesmo, e como consequência os e-mails e as mensagens de voz terão sido interrompidos, mas mais tarde, já em agosto de 2017, ter-lhe-á chegado às mãos uma carta, que vinha acompanhada por cuecas.

A mulher que inspirou Martha Scott em momento algum foi identificada na série, que abre com a frase: "Esta é uma história verdadeira". Contudo, após o seu nome ter sido encontrado e revelado pelos fãs, Fiona acabou por se manifestar publicamente, como a inspiração por detrás desta personagem que persegue Richard, na série. 

Numa entrevista ao jornalista britânico Piers Morgan, Fiona negou ser uma perseguidora ou ter enviado 41 mil e-mails, centenas de mensagens de voz, 106 cartas, alegando que enviou apenas alguns e-mails, uma carta por correio e cerca de 18 mensagens no X. "Acho que não lhe enviei nada. Pode ter havido alguns e-mails, brincadeiras, mas é isso", referiu. 

Baby Reindeer encontra-se entre as 10 séries mais vistas da Netflix de todos os tempos.

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