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"A Voz de Hind Rajab": no cinema, a tragédia palestiniana ao telefone

O filme tunisino, um dos cinco nomeados ao Óscar de Melhor Filme Internacional, centra-se na invasão de Gaza com uma abordagem diferente. Chega esta quinta, dia 5, a Portugal.

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'A Voz de Hind Rajab': no cinema, a tragédia palestiniana ao telefone
Pedro Henrique Miranda 10 de fevereiro de 2026 às 07:00
No filme, telefonistas seguem a voz de Hind Rajab para tentar resgatá-la no campo de batalha de Gaza
No filme, telefonistas seguem a voz de Hind Rajab para tentar resgatá-la no campo de batalha de Gaza

O que mostrar no grande ecrã quando tudo já foi visto? A intuição e as tentativas de a contornar não são novas: em 1957, Sidney Lumet fez história em , ao fazer um filme da discussão de um grupo de jurados de tribunal em torno da sentença de um jovem acusado de homicídio – sem recurso a qualquer dramatização do crime propriamente dito.

Os exemplos são demasiado numerosos para elencar, mas, mais recentemente, vimos réplicas dessa ideia a conquistar o cinema em diferentes formatos: Locke (2012), de Steven Knight, são 85 minutos de Tom Hardy a conduzir e a falar ao telefone; em A Zona de Interesse (2023), de Jonathan Glazer, o protagonista está ausente, com a vida familiar pacata dos oficiais nazis a ocultar os horrores dos campos de concentração.

A Voz de Hind Rajab, nomeado ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, tem muito em comum com estes filmes. Toda a ação decorre dentro do quartel-general do Crescente Vermelho Palestiniano, que coordena a ação de ambulâncias em operações de resgate de civis no campo de batalha de Gaza, e onde um operacional, inconformado com a lentidão e burocracia no auxílio a Hanood - uma criança de 5 anos cercada pelas tropas israelitas e rodeada dos cadáveres dos seus familiares - vai aos limites para resgatá-la.

Saja Kilani como Rana Hassan Faqih, telefonista do Crescente Vermelho
Saja Kilani como Rana Hassan Faqih, telefonista do Crescente Vermelho

Não tardamos a perceber, no entanto, que esta dramatização da história real do resgate de Hanood, diminutivo de Hind Rajab, mescla realidade e ficção de uma forma que não se vê com frequência no cinema: é a voz real da rapariga, captada nas gravações das horas de chamada que manteve com o Crescente Vermelho enquanto esperava para ser resgatada, que ouvimos no filme, contracenando com atores que, por vezes, se calam diante da pungência e expressividade do real, dando lugar à voz dos verdadeiros telefonistas que falaram com Hind.

É através do telefone, bem como das expressões faciais (com destaque para Saja Kilani), que a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania retrata este conflito em que, deixa claro, crianças são potenciais alvos de tiro e ambulâncias estão sujeitas a bombardeamentos, ao longo de agonizantes 90 minutos que demoram a passar. Não se coíbe em chorar pelas vítimas e apontar o dedo aos culpados, mas A Voz de Hind Rajab não é só um filme propagandista: os dilemas morais da ajuda humanitária estão também em primeiro plano, num filme que sabe que as vítimas da guerra são muito mais numerosas do que os túmulos que esta cria.

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