João Canijo reflete sobre vulnerabilidade feminina no filme "Sangue do Meu Sangue"DR
(João Canijo morreu esta quinta-feira, 29, aos 68 anos. Recuperamos um artigo publicado em 2011 a propósito do lançamento do filme Sangue do Meu Sangue, um dos mais icónicos da sua filmografia. A entrevista foi feita por Anabela Mota Ribeiro.)
Cenas da vida no bairro Padre Cruz: paredes verde-alface, espaço exíguo, um filho que dorme no sofá, uma natureza-morta emoldurada. Objectos baratos, vozearia que chega das casas contíguas, vizinhas que vão alegremente de soutien ao quintal. Uma pobreza que não é sórdida; talvez só inestética. Noções particulares do que é o pudor ou a privacidade.
Ali vive uma mulher, cozinheira, com os dois filhos e a irmã, cabeleireira de bairro (daquelas que andam sempre com uma mola no cabelo). A filha estuda enfermagem e trabalha como caixa de supermercado. O filho é um pequeno delinquente (daqueles que oferecem à mãe um fio e uma medalha com o dinheiro de uma golpaça). Uma família como as outras. Poderiam comer esparguete com molho de tomate, quando os encontramos pela primeira vez; mas não comem. Poderiam usar palavras como “abnegação”, porque é isso que fazem – entregam-se abnegadamente – o tempo todo; mas o palavreado é outro.