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O vencedor dos BAFTA mostra sempre quem vence os Óscares? A história de uma relação imperfeita

Desde 2001 que os prémios britânicos funcionam como pista para os vencedores da Academia. O passado mostra consagrações comuns mas a arte nem sempre se alinha.

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O vencedor dos BAFTA mostra sempre quem vence os Óscares? A história de uma relação imperfeita
Tiago Neto 23 de fevereiro de 2026 às 19:00
A primeira emissão televisiva dos prémios aconteceu em 1956 na BBC
A primeira emissão televisiva dos prémios aconteceu em 1956 na BBC D.R.

A temporada de prémios vive de sinais, e poucos são tão escrutinados como os que chegam de Londres. Criados em 1947 e entregues pela primeira vez em 1949, numa Europa ainda a reorganizar-se culturalmente após a guerra, os British Academy Film Awards (ou BAFTA) tornaram-se rapidamente mais do que uma celebração nacional, passaram a ser um ponto intermédio entre a crítica europeia e a máquina industrial norte-americana. Já os Óscares, entregues pela primeira vez em 1929, nasceram como afirmação da própria indústria de Hollywood e mantêm-se, quase um século depois, como o apogeu da auto-canonização.

É neste diálogo entre tradições - uma mais autoral e institucional, outra mais industrial e mitológica - que se construiu a ideia de que os BAFTA podem funcionar como barómetro dos Óscares. Não é uma regra matemática, mas há um padrão recorrente: quando um filme chega ao final do inverno com uma vitória expressiva em Londres, entra na corrida americana com uma aura de consenso difícil de contrariar.

Este ano, esse papel pertence a Batalha Atrás de Batalha. O filme de Paul Thomas Anderson dominou a cerimónia dos prémios atribuídos pela British Academy of Film and Television Arts, somando distinções principais e reforçando a perceção de que se trata da obra que melhor sintetiza ambição artística e reconhecimento crítico, combinação que historicamente encontra eco junto dos votantes da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. A vitória não garante a repetição do feito nos Óscares, mas muda o eixo da conversa; deixamos de perguntar quem lidera a corrida e passamos a perguntar quem conseguirá ser surpresa. Nem sempre assim foi, no entanto.

Desde que ambas as Academias foram fundadas que se observa um jogo de aproximações e desvios. Hoje, porém, essa relação é mais direta do que já foi, também por razões de calendário.

A mudança de calendário que aproximou os dois prémios

Durante décadas, os BAFTA realizavam-se em abril ou maio, isto é, depois dos Óscares, funcionando mais como um comentário tardio do que como um indicador. Essa lógica alterou-se em 2001, quando a cerimónia passou a acontecer em fevereiro precisamente para anteceder os prémios norte-americanos e integrar a mesma temporada de distinções.

A alteração foi decisiva. Com o recuo temporal face aos Óscares, os BAFTA deixaram de ser um epílogo europeu e passaram a interferir ativamente na construção de consenso crítico e industrial que influencia a votação americana.

Quando os BAFTA acertam no futuro vencedor

Há vários exemplos históricos em que a escolha britânica antecipou claramente o desfecho em Hollywood. Em 2000, Beleza Americana venceu o BAFTA de Melhor Filme já depois de ter triunfado nos Óscares, ilustrando a antiga lógica póstuma da cerimónia. Após a mudança de calendário, a relação tornou-se mais dinâmica: Gladiador conquistou o BAFTA de Melhor Filme em fevereiro de 2001, reforçando o estatuto de vencedor da temporada internacional.

Numa ótica mais abrangente, O Segredo de Brokeback Mountain ganhou quatro BAFTA - incluindo Melhor Filme e Realização - e três Óscares, demonstrando uma forte coincidência de reconhecimento crítico entre as duas academias. Mais recentemente, Oppenheimer dominou os BAFTA com sete prémios, entre eles Melhor Filme, entrando nos Óscares como um dos títulos mais fortes da corrida (venceu os mesmos sete do lado de lá do Atlântico).

Terra Sangrenta (1984) e O Discurso do Rei (2010), ambos com sete BAFTA arrecadados, saíram de Los Angeles com três e quatro Óscares, respetivamente. Quem Quer Ser Bilionário?, filme de 2008 realizado por Danny Boyle Loveleen Tandan, foi outro dos títulos consensuais de ambos os lados: os britânicos atribuíram-lhe sete máscaras (galardão dos BAFTA), os americanos oito estatuetas. La La Land (2016) seguiu-lhe as pisadas e convenceu ambas as críticas com cinco BAFTA e seis Óscares.

As semelhanças continuam com O Artista (2011), desafio artístico levado a cabo pelo realizador francês Michel Hazanavicius, que em Londres se destacou com sete prémios, antecipando os cinco que venceria em Los Angeles, incluindo melhor filme, numa das decisões mais contestadas - e menos óbvias - da história dos Óscares. Por último, o destaque vai para A Lista de Schindler (1993), o clássico de Steven Spielberg, com sete prémios ganhos de parte a parte.

A história também é feita de desvios

A correlação está longe de ser absoluta, e um dos casos paradigmático é, precisamente, O Segredo de Brokeback Mountain: apesar de liderar a temporada e de vencer nos BAFTA, perdeu inesperadamente o Óscar de Melhor Filme para Colisão, contrariando previsões generalizadas.

Outros anos revelam diferenças de sensibilidade entre votantes britânicos e americanos, divergências que podem resultar de fatores culturais, estratégias de campanha ou simples dinâmicas de votação preferencial. Mesmo assim, a coincidência de escolhas em múltiplas épocas consolidou a ideia de que um triunfo expressivo nos BAFTA raramente é irrelevante, salvo uma exceção óbvia: Dois Homens e Um Destino (1969).

Encabeçado por Paul Newman, Robert Redford e Katharine Ross, o filme realizado por George Roy Hill é o recordista absoluto da Academia britânica com nove prémios ganhos. Em Los Angeles, contudo, ficou-se pelos quatro Óscares, incluindo o de Melhor Argumento Original (William Goldman), Melhor Canção Original (, Melhor Banda Sonora Para Filme Não-Musical (Burt Bacharach) e Melhor Cinematografia (Conrad L. Hall), perdendo em algumas das principais categorias.

O efeito estatístico: legitimidade antes da consagração

A razão é menos mística do que estrutural. Ao acontecerem imediatamente antes dos Óscares, os BAFTA funcionam como uma validação internacional intermédia. Obras que vencem em Londres chegam ao escrutínio da Academia já envoltas numa narrativa de reconhecimento global, algo particularmente influente num sistema em que muitos votantes acompanham a temporada através de prémios sucessivos.

É certo que os BAFTA não são um oráculo, mas continuam a ser um instrumento de leitura privilegiado da corrida. É neste equilíbrio entre confirmação e surpresa que reside a sua importância analítica. Se a história mostra que Londres nem sempre escolhe o mesmo vencedor que Hollywood, também revela que ignorar o que ali acontece é, quase sempre, um erro de previsão.

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