Morreu Alexander Kluge, o arquiteto inquieto do novo cinema alemão

Realizador, escritor e pensador, figura central do movimento que reinventou o cinema pós-guerra, morreu aos 94 anos, deixando uma obra que cruzou arte, política e filosofia.

Morreu Alexander Kluge, o arquiteto inquieto do novo cinema alemão
Tiago Neto 27 de março de 2026 às 19:03

Nome incontornável na base do Novo Cinema Alemão, Alexander Kluge morreu na quarta-feira, 25, em Munique, aos 94 anos. A notícia foi confirmada pela editora Suhrkamp, citada por vários meios internacionais, incluindo a , que o descreve como um “pioneiro” de um movimento que redefiniu a linguagem cinematográfica europeia. Mais do que cineasta, Kluge foi uma figura rara, um intelectual total, capaz de atravessar o cinema, a literatura e a teoria crítica com a mesma capacidade analítica.

Nascido em 1932, em Halberstadt, na Alemanha, a sua infância foi marcada pela violência da Segunda Guerra Mundial. Em 1945 sobreviveu ao bombardeamento da sua cidade, uma experiência que moldaria a sua visão do mundo. Formado em Direito, História e Música, aproximou-se cedo da Escola de Frankfurt, tornando-se próximo do filósofo e musicólogo germânico Theodor Adorno, que o incentivou a explorar o cinema como forma de pensamento crítico. Foi também assistente do realizador e argumentista Fritz Lang, uma ligação decisiva entre o cinema clássico alemão e a modernidade que Kluge ajudaria a construir.

O seu nome ficou indelevelmente associado ao Manifesto de Oberhausen, em 1962, documento que proclamava a necessidade de romper com o cinema comercial e conservador da Alemanha do pós-guerra. Como recorda o , Kluge esteve “no centro” desse movimento que abriu caminho a autores como Rainer Werner Fassbinder ou Werner Herzog . A sua primeira longa-metragem, Anita G. (1966), tornou-se um marco imediato, vencendo o Leão de Prata em Veneza, a primeira grande distinção internacional para um realizador alemão após a guerra.

Dois anos depois, consolidou essa posição com Os Artistas Sob a Cúpula do Circo: Perplexos, que lhe valeu o Leão de Ouro. Mas o reconhecimento nunca o afastou de uma prática radical; os seus filmes, muitas vezes descritos como “ensaios cinematográficos”, recusavam a narrativa convencional, optando por estruturas fragmentadas, colagens visuais e uma constante interrogação política e social, um cruzamento onde cinema, literatura e reflexão teórica se encontravam.

Ao longo das décadas, Kluge expandiu o seu trabalho para a televisão e para a escrita, fundando a produtora DCTP e criando programas culturais que mantiveram viva a experimentação num espaço mediático mais amplo. Paralelamente, construiu uma obra literária extensa, com destaque para Chronik der Gefühle (Crónica dos Sentimentos), frequentemente apontada como uma das suas contribuições mais duradouras. O próprio insistia nessa hierarquia: “Os meus livros são a minha obra principal”.

A sua obra resistiu sempre à simplificação, e talvez seja esse o seu legado mais duradouro. Num tempo em que o cinema procurava novas formas de se pensar a si próprio, Alexander Kluge fez dele um instrumento de análise do mundo. A sua morte encerra um capítulo essencial da cultura europeia do pós-guerra, mas deixa em aberto uma pergunta que atravessa toda a sua filmografia: como contar a história quando a própria história parece fragmentada?

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