Wim Wenders, realizador de Paris, Texas, As Asas do Desejo ou Dias Perfeitos, é o presidente do júri internacional do festival de Berlim - a Berlinale - e lançou o certame com um estrondo, questionando: deve ou não o festival de cinema ser um festival político.
Numa conferência de imprensa para assinalar o início da Berlinale na manhã de quinta-feira, o cineasta elogiou o poder do cinema para "mudar o mundo", mas causou controvérsia ao sugerir que os membros da indústria cinematográfica se devem manter fora da política, alertando que "nenhum filme mudou realmente a opinião de qualquer político". “Temos de ficar fora da política porque, se fizermos filmes que sejam declaradamente políticos, entraremos no campo da política. Mas nós somos o contrapeso da política, somos o oposto da política. Temos de fazer o trabalho do povo, não o trabalho dos políticos", defendeu ainda o cineasta de 80 anos, quando questionado por um jornalista sobre o porquê da Berlinale sempre ter estado do lado da Ucrânia e do povo iraniano, mas, alegadamente, não de Gaza. O jornalista afirma que o estado alemão é um aliado de Israel e que, ao financiar o festival, este aceita ser financiado por um estado que "apoia o genocídio".
“É uma pergunta um pouco injusta”, defendeu Ewa Puszcynszka, produtora polaca responsável por Ida ou A Zona de Interesse, defendendo que é difícil um filme mudar a opinião de um espetador e que os cineastas não devem ser responsabilizados pelas decisões dos espetadores, quer declarem o apoio a Israel ou Palestina ou Ucrânia ou Rússia.
Já a escritora indiana Arundhati Roy (O Deus das Pequenas Coisas e Meu Abrigo, Minha Tempestade) afirmou que as declarações de Wenders eram "inaceitáveis" e que decidiu não acompanhar a apresentação na secção Clássicos do seu filme "In Which Annie Gives It Those Ones” (1989), onde também participou como atriz.
“Ouvir alguém dizer que a arte não deve ser política é de fazer cair o queixo. É uma forma de silenciar um debate sobre um crime contra a humanidade enquanto ele se desenrola à nossa frente em tempo real – quando artistas, escritores e cineastas deveriam estar a fazer tudo o que está ao seu alcance para o impedir”, declarou a escritora.
A Berlinale é o primeiro grande festival internacional do calendário anual de cinema e tem reputação pela sua programação progressista. A edição deste ano decorre no meio das tensões internacionais, da repressão sangrenta dos protestos no Irão e das ameaças globais aos direitos humanos.
Wim Wenders, 80 anos, é um dos mais conhecidos nomes do Novo Cinema Alemão, com seis décadas de carreira que ajudaram a moldar "uma nova linguagem cinematográfica e redefiniram a imagem do cinema alemão", elogiou a 'Berlinale' em comunicado. O cineasta tem uma relação próxima com o festival de Berlim, onde apresentou vários filmes, teve uma retrospetiva, recebeu o Urso de Ouro de Honra em 2015 e apoiou o lançamento da iniciativa "Berlinale Talents", para novos autores.
"A angústia do guarda-redes no momento do penalty" (1972), "Alice nas cidades" (1974), "O amigo americano" (1977), "Paris, Texas" (1984), "As asas do desejo" (1987), os documentários "Buena Vista Social Club" (1999), "Pina" (2011) e "O sal da terra" (2014) são alguns dos filmes assinados por Wim Wenders, que se juntam ao recente "Dias Perfeitos" (2024).
Produtor, fotógrafo, argumentista, Wim Wenders rodou em Portugal os filmes "O estado das coisas" (1982), "Lisbon Story - Viagem a Lisboa" (1994), com a participação dos Madredeus e Manoel de Oliveira, e algumas cenas de "Até ao fim do mundo" (1991).
Em Portugal, onde também já teve o seu cinema em retrospetiva, Wim Wenders expôs igualmente trabalhos de fotografia, em 1987, nos Encontros de Fotografia de Coimbra, e em 2015, em Lisboa, a convite do Festival de Cinema LEFFEST.
A 76.ª edição do Festival de Cinema de Berlim está marcada de 12 a 22 de fevereiro, sendo a programação apresentada a 20 de janeiro.