É uma estranha forma de vida, a que João Canijo capta no díptico "Mal Viver / Viver Mal", já nos cinemas. Premiado em Berlim, o realizador explica porque acha estes os seus “filmes mais conseguidos”.
Depois de se ver o díptico de João Canijo Mal Viver / Viver Mal, que chega às salas de cinema esta quinta-feira, 11 de maio, apetecia fazer uma pergunta ao realizador. E fez-se: “É um pessimista ?” Canijo ri e, em conversa com a SÁBADO, desmente: “Não, serei fundamentalmente fatalista”.
Talvez ambos os adjetivos se apliquem. Porque os dois filmes exalam, também, um pessimismo sobre a natureza humana e a violência latente dos relacionamentos mais próximos - da família ao namoro -, até redundar num destino trágico e inevitável.
Estas duas obras de Canijo são talvez as melhores de uma já longa filmografia que conta com títulos excelentes como Ganhar A Vida (2001), Noite Escura (2004) ou Sangue do Meu Sangue (2011) , todos com reconhecimento crítico e de público. Bem como Mal Viver, que venceu o Urso de Prata para prémio do júri no Festival de Berlim deste ano. “É uma ruptura com os anteriores”, afirma o realizador. “São filmes mais maduros, mais conseguidos, onde tive todas as condições.”
Tanto Mal Viver como Viver Mal são filmes que se podem ver autonomamente mas que ganham se o espectador seguir a estrutura que o realizador idealizou: dois filmes que são o negativo um do outro, um jogo de espelhos distorcidos onde as personagens fantasmas do primeiro ganham vida e protagonismo no segundo.
O espaço é o mesmo: um hotel no norte de Portugal. O tempo também. É nestas circunstâncias que conhecemos as relações disfuncionais e terríveis dos proprietários (em Mal Viver) e dos hóspedes (em Viver Mal). “ A ideia veio de pensar as conversas que se ouve nos quartos, no mesmo espaço e no mesmo tempo”, confirma Canijo.
Os ambientes dos dois filmes são, no entanto, diferentes: Mal Viver, com as suas cenas longas e confrontos entre mulheres de três gerações, traz uma violência surda, insidiosa, que se instala. As personagens são amargas (Rita Blanco), esvaziadas e numa busca triste por substitutos de afeto (Anabela Moreira) ou revoltadas (Madalena Almeida). As cenas dos diálogos são filmadas com uma minúcia e sensibilidade Bergmaniana que aqui e ali faz lembrar Persona, filme de 1996 do cineasta sueco. Mas muitas vezes o realizador opta por planos distantes, quase com pudor de entrar no inferno daqueles humanos.
“O ponto de partida do primeiro filme foi criar a partir de Bergman e Strindberg. Pegámos em três peças e começámos a discuti-las”, explica Canijo. Em Viver Mal a relação com o dramaturgo sueco é explícita: o filme está dividido em três secções que correspondem a peças: O Pelicano, Brincar Com o Fogo e Amor de Mãe. “O processo criativo foi simples: pegar nas peças e em conjunto com os atores discutir temas e personagens, adaptando de forma livre. Dessas conversas roubo o que acho interessante e chegamos a uma espécie de argumento improvisado”, diz o realizador.
Em Viver Mal existe a solidão a dois (Nuno Lopes e Filipa Areosa), uma mãe que projeta o futuro na filha, não hesitando em utilizar a chantagem sentimental para destruir a relação amorosa de quem mais ama (Beatriz Batarda e Leonor Vasconcelos) e outra mãe que promove o casamento da filha para manter uma relação amorosa com o genro (Leonor Silveira, Lia Carvalho e Rafael Morais). Os planos noturnos gerais da fachada do hotel lembram um pouco os quadros de Hopper sobre a solidão partilhada, ou a letra sombria de Heartbreak Hotel, cantada por Elvis. “ A solidão... Não tinha pensado nisso, sabe? Mas sim, é verdade. E a ansiedade que essa solidão provoca”, sugere Canijo.
Sem meias palavras: o díptico de João Canijo é do melhor que se fez no cinema português dos últimos tempos. Atrizes e atores em perfeita sintonia, abordagem excelente de temas humanos, mais do que humanos, e uma fotografia magistral de Leonor Teles. Grande cinema, é o que é.