Considerando que a ficção deve ser pensada para "diferentes dispositivos", a estação pública criou os primeiros "microdramas" portugueses, que já podem ser vistos.
Cinco séries portuguesas de ficção, com episódios de pouco mais de um minuto, para serem vistas em telemóveis, estreiam-se a partir de esta segunda-feira, 2 de março, nas plataformas da RTP, acompanhando um fenómeno internacional do audiovisual.
As cinco séries são uma produção da produtora SPi e ficam disponíveis ao longo desta semana na plataforma de streaming RTP Play e nas redes sociais da RTP. Intitulam-se Herança Fatal, A Casa dos Outros, Além do Silêncio, Sextortion e Sabores de Amor, e abordam temas que vão da violência doméstica à crise habitacional.
Designadas 'microdramas' ou 'microsséries', estas produções são um formato inovador recente a nível internacional, com histórias pensadas para serem vistas em telemóveis -- com o ecrã na vertical -- e acessíveis para o espectador em qualquer local.
"O fenómeno tem muito a ver com isso, em que o consumo hoje em dia está muito diversificado. A televisão generalista continua com excelentes audiências, mas sabemos que há uma tendência para uma diversificação de media", explicou à agência Lusa o argumentista e produtor Pedro Lopes, autor do projeto e diretor de conteúdos da SPi.
Segundo Pedro Lopes, a criação destas séries de muito curta duração decorre de uma janela de oportunidade e de negócio perante uma dispersão da atenção do espectador por múltiplos ecrãs.
"Mais do que haver uma estratégia de recuperação da audiência por parte dos meios tradicionais, é haver uma produção para diferentes meios, para diferentes dispositivos e, neste caso, ir ao encontro dos locais, digamos assim, em que a audiência também está", explicou.
Na semana passada, o diretor de programas da RTP1, José Fragoso, dizia à agência Lusa que a televisão pública tem investido num "largo espectro de atividade na área da ficção em áreas muito diversas, que vão desde a ficção linear que passa na televisão até a ficção que passa só na plataforma".
A aposta nestas microsséries faz parte dessa estratégia da estação pública de chegar a mais públicos, sobretudo pelo streaming e pela presença em redes sociais como o Tik Tok e o Instagram.
"A RTP Play é uma ferramenta essencial hoje para chegar ao público, porque hoje em dia muita gente tem 'smart tv' em casa e tem os telefones, e tem os computadores e os iPads, e é possível, através da RTP Play, ver uma série de televisão numa Smart TV em casa", enumerou.
Esta parceria da SPi com a RTP é considerada pioneira na produção generalista de microdramas em Portugal e Pedro Lopes explicou que estas primeiras cinco séries são abrangentes em géneros e temas.
"Temos uma série sobre a violência doméstica, temos uma série sobre divulgação de fotografias íntimas na Internet, por exemplo. Temos uma série sobre a dificuldade que os jovens têm, hoje em dia, de alugar casa nos grandes centros urbanos e de sair de casa dos seus pais", enumerou.
Pedro Lopes acredita que esta diversificação de consumo de audiovisual irá perdurar e deu o exemplo da China, onde, em 2025, as receitas deste formato ultrapassaram "em muito" a bilheteira dos cinemas e a plataforma Tik Tok criou a PineDrama, uma aplicação exclusiva para microdramas.
"Não é por acaso que saíram dados esta semana em que os revenues [receitas] desta área de microdramas e de ficção vertical ultrapassaram as plataformas de streaming, por exemplo. Não é por acaso que a Disney anunciou também a incorporação dos microdramas e da ficção vertical na sua própria plataforma de streaming", disse.
Para Pedro Lopes, as cinco séries da SPi para a RTP, realizadas por Manuel Amaro da Costa, são mais do que um "laboratório para perceber o mercado português".
"Acreditamos que há espaço no mercado português para uma nova forma de consumo, de um novo género que se começa a massificar em diferentes territórios", afirmou.
Em novembro passado, a revista Variety escrevia que o mercado dos microdramas poderá atingir, a nível global, os 22 mil milhões de euros de receita em 2030, mas que há ainda questões sobre custos para os espectadores, nomeadamente sobre assinaturas pagas exclusivas para aceder a estes conteúdos.
O produtor Ronan Wong, da produtora chinesa de microdramas AR Asia, dizia em novembro à Variety que este mercado está atualmente na terceira fase de implantação, com mais países a "desenvolverem os seus próprios ecossistemas de microdramas", a espelharem a sua individualidade cultural e social.