Ao quarto disco, as dores de Rubel esconderam-se numa poesia desconcertante, crua e honesta. "Beleza..." é o álbum que o trará, em novembro, a Portugal.
Na escrita, como na vida, a terra renova-se. Nessa convulsão, abrimos espaço à dor, tornamo-la objeto de cura ou carregamo-la em silêncio, deixamo-la consumir-nos como uma morte anunciada, tememos tocar-lhe; não porque não seja possível, mas porque não temos a coragem que só o tempo, ou o amor, trarão.
A poesia de Rubel tem a particularidade de ser metamórfica, de crescer ao longo de toda a vida, mas não sem uma pena, não sozinha. Se em 2013 nos deu Pearl, o primeiro disco – fruto de uma temporada que passou em Austin, Texas – que haveria de verter no rótulo “cantor romântico”, volvida mais de uma década, a inocência dos 20 abriu lugar a uma batalha interna.
Beleza. Mas agora a gente faz o quê com isso?, o novo álbum, não é apenas um título, é o começo de uma catarse que mostra como mesmo nos escombros a música pode ser redenção. “Perguntam-me muito sobre a minha cirurgia [a um sopro no coração, feita em 2023] e como lidei com isso, mas o luto talvez esteja muito mais presente porque perdi o meu pai há sete anos e demorei muito tempo para processar esse luto e essa dor. Acho que fazer este disco foi o primeiro momento em que pude pegar nessa dor e transformar em arte, tentar lidar com isso. Talvez isso possa ser a leitura do disco todo, talvez seja uma forma de conseguir lidar com o luto do meu pai. E aí acho que entram vários lutos”, explica.
Em nove faixas, Rubel mostra-nos coordenadas para essa sua verdade, e não deixa de ser curioso que, algures no seu momento mais honesto e esclarecido, nos faça procurá-la numa poesia críptica. “O tipo de literatura que me moveu nestes últimos anos tem muito que ver com a escrita do Valter Hugo Mãe, que é um pouco mais críptica, mais revestida de camadas. Uma coisa é uma coisa, mas pode ser outra coisa também, então sim, escondi um pouco esse luto, tanto que ninguém nunca perguntou”, diz.
Já as melodias, escondem pouco e destacam-se pela elasticidade dos arranjos, “uma alquimia muito delicada”, em que a guitarra regressa como a figura central, amparada, em oito faixas, pelo compositor e multi-instrumentista brasileiro Henrique Albino, autor dos arranjos, a quem Rubel confiou colocar “algo que não aparece [referindo-se às cordas], mas que fizesse a diferença emocionalmente. O Henrique foi uma peça-chave para chegar à estética que eu queria”, uma estética que dialoga com o disco Amoroso, de João Gilberto.
“Esse foi o nosso disco referência, um disco de voz, violão e cordas. Queria muito encontrar esses arranjos que são sofisticados e que são bonitos e mágicos ao mesmo tempo.” Elementos que trazem uma dimensão de quase realismo fantástico ao disco, sem que as dores adultas, nem sempre palpáveis nas letras mas sempre percetíveis, se evaporem.
“Por outro lado, não estético, o Henrique Albino é fundamental para o peso e a densidade emocional do álbum, para o disco ser ao mesmo tempo emocionante e sofrido e esperançoso”, refere Rubel. A exceção é Reckoner, a última faixa, versão pessoal do clássico dos britânicos Radiohead, e a única cantada em inglês, que tem assinatura do pianista, compositor e maestro brasileiro Arthur Verocai.
Beleza. Mas agora a gente faz o quê com isso? acaba por ser a questão que ressoa ao comprimento de toda a escuta, e assim como a morte passa de boca em boca, também as didascálias emocionais se vão estabelecendo. Se em Pergunta ao Tempo lhe encontramos a mais direta referência à morte do pai (“quando é que eu vou ter a graça de rever meu pai?”), com “tive medo do futuro mas não tenho mais”, frase retirada de Feiticeiro Gozador, a abertura do disco, percebemos que os purgatórios não precisam de ser definitivos e que a beleza do título, mais do que expressão corriqueira do léxico carioca, também serve uma visão de esperança no presente e futuro, e na possibilidade de a encontrarmos mesmo sem chão.
É uma fórmula arriscada, caminhar numa corda que nos desfia os medos sem ideia exata da profundidade, ou que, pelo contrário, nos deixa ilesos, felizes, e até nisso há beleza. “Não me interessa que as pessoas se identifiquem [com o disco] no sentido que isso seja necessário para o compreenderem. É lindo quando existe uma identificação direta, mas justamente por [o disco] ser tão aberto, acho que opera em várias camadas. Se uma pessoa não se interessar por nada da letra, mas achar a música gostosa, isso interessa-me. Se for pano de fundo para as pessoas nem ouvirem e só conversarem, para se sentirem bem, isso interessa-me”, refere Rubel. Acrescenta: “A música opera em muitas camadas, conscientes e inconscientes, de atenção, e neste momento todas elas me interessam; a textura do disco interessa-me, assim como as mensagens que estão dentro dele. Então, para mim cada pessoa vai absorver de um jeito, e todos eles são igualmente valiosos.”
A crítica e a indústria parecem concordar quanto ao lugar que o carioca, de 34 anos, ocupa no panorama musical brasileiro. Rubel é filho da Música Popular Brasileira (MPB), talvez a sua maior referência neste momento, a par de Tim Bernardes. O público reconhece-lhe o mérito, em grande parte devido a duas canções, Quando Bate Aquela Saudade (de Pearl, 2013) e Partilhar (de Casas, 2018).
Rubel sabe-o, agradece-o, mas será possível catalogar sinteticamente um artista heterogéneo? “Considero-me um argumentista frustrado que virou músico. No cinema é muito comum os realizadores experimentarem tipos de filmes e histórias diferentes, e eu identifico-me também com essa maneira de pensar. Daí que acabe a pensar cada disco como se fosse um filme. Ou um género de filme diferente, é divertido. Quando ficar velho, vai ser a minha característica definidora: um artista que fez muita coisa diferente”, profetiza.
O carioca diz acreditar que “mais do que ser um artista muito talentoso ou um compositor – não me vejo tanto por aí, como pessoa que tem um requinte técnico –, vou ter a ousadia criativa para fazer um monte de coisa maluca e diferente”. Elabora de seguida: “Quando comecei a ter uma carreira no Brasil, incomodava-me muito o facto de ser visto como um cantor romântico, porque as minhas músicas de mais sucesso são músicas românticas. E durante muito tempo, a visão que tinham de mim, especialmente por ser mais novo, era a do rapaz da Zona Sul que é fofo e romântico. E eu falava ‘cara, isso não contempla a minha cabeça perturbada, porque sou mais louco do que isso, tenho mais inquietações do que isso’”.
É provável que nem todas as inquietações caibam num só disco, ou numa só vida, mas há uma que cabe. “Gostava que a MPB fosse como já foi um dia, nos anos 1970. Tudo bem que era uma geração genial, mas eram músicas mais estranhas e mais íntimas que tocavam nas rádios. Tenho muita vontade de criar movimentos para tentar expandir esse alcance. E movimentos que eu digo não individuais, mas coletivos, de pegar esses artistas [da MPB] e organizarmo-nos coletivamente para nos fortalecermos. Sei que muita gente tem essa vontade também. A Marina Sena tem muito essa vontade, o Bala Desejo tem essa vontade. Há muitos artistas brilhantes, uma geração que eu acho que pode ser muito poderosa. Já é, mas juntos, podemos sair cada vez mais desse espaço de nicho e encontrar um alcance verdadeiramente nacional".