Anúncio de venda deixa futuro da casa da artista Lourdes Castro em aberto
A casa-atelier e o jardim que a artista criou com o marido, Manuel Zimbro, no Caniço, foram anunciados por 4,1 milhões de euros. O anúncio foi retirado, mas o futuro do lugar permanece incerto.
No documentário Pelas Sombras, de Catarina Mourão, Lourdes Castro olha para o jardim e descreve-o como uma obra viva: “Agora é a minha tela. [...] Continuo a pintar um quadro só. Que nunca estará pronto.” Mais de quatro anos depois da morte da artista, a tela corre o risco de mudar de mãos e de natureza.
A quinta da Estrada do Garajau, no Caniço, concelho de Santa Cruz, apareceu no site Idealista, através da imobiliária Sotheby’s International Realty, por 4,1 milhões de euros. O anúncio, atualizado a 28 de agosto, descrevia 12.330 metros quadrados de terreno, uma moradia T5, três casas de banho e garagem, com vista para o mar e para as ilhas Desertas. Cerca de 80% da propriedade é coberto vegetal.
A descrição comercial reconhecia a excecionalidade do lugar. A casa, semienterrada e construída em diálogo com a encosta, combina paredes brancas, grandes superfícies de vidro e muros de basalto. O jardim, cultivado durante décadas, inclui duas árvores a que Lourdes chamava “os meus gladiadores”. Casa e natureza são apresentadas como partes inseparáveis do processo criativo do casal.
O anúncio continha, porém, duas ideias difíceis de conciliar. Defendia que a casa deveria ser preservada como museu e o jardim mantido como homenagem à artista, à semelhança dos jardins de Monet em Giverny; poucas linhas depois, valorizava o potencial do terreno para um empreendimento turístico ou para a construção de moradias. A memória artística surgia, assim, lado a lado com a possibilidade de transformação imobiliária.
Entretanto, a oferta desapareceu do portal. A Sotheby’s Realty Funchal confirmou à RTP que a propriedade não tinha sido vendida e atribuiu a retirada a “um problema com o anúncio” sem prestar mais esclarecimentos. Sabe-se apenas que o imóvel deixou de estar publicamente anunciado.
O proprietário é Nuno Brazão, sobrinho e único herdeiro de Lourdes Castro. Afirma suportar os custos de conservação e acusa o Estado de não ter apresentado uma solução concreta para a casa. Segundo o herdeiro, os livros e quadros visíveis nas fotografias não integram a venda; garante ainda terem sido encontradas formas de preservar o património artístico e documental em articulação com o Governo Regional e o MUDAS – Museu de Arte Contemporânea da Madeira.
A polémica não começou agora. Em junho de 2025, o parlamento madeirense rejeitou uma proposta do PS que recomendava a classificação da casa e do jardim como imóvel de interesse público e a criação da Casa-Museu Lourdes Castro – Laboratório da Paisagem. PSD, CDS, Chega e IL votaram contra; PS e JPP, a favor. Os partidos que chumbaram a iniciativa invocaram os direitos do proprietário, a falta de acordo com a família e os constrangimentos de uma classificação.
Nuno Brazão diz ter ouvido da então ministra da Cultura, Graça Fonseca, que o Estado não tinha interesse na propriedade. A antiga governante contesta a acusação de indiferença e recorda que Lourdes lhe mostrou uma espécie de testamento, no qual sonhava com uma casa dedicada à investigação e com residências para artistas. O atual Ministério da Cultura limitou-se a informar que soube da venda pela comunicação social e não fez comentários adicionais.
Lourdes Castro nasceu no Funchal, em 1930, e morreu em 2022. Depois de estudar Pintura em Lisboa, viveu em Munique e Paris, onde ajudou a fundar o grupo e a revista experimental KWY. A partir dos anos 1960, fez da sombra uma matéria artística, fixando silhuetas em serigrafia, plexiglass, tecido e bordado. Em 1973 iniciou, com Manuel Zimbro, o Teatro de Sombras, levando a colaboração entre ambos a palcos europeus e sul-americanos.
Nascido em Lisboa, em 1944, Zimbro foi artista e arquiteto, companheiro de vida e de criação de Lourdes até morrer, em 2003. Quando se instalaram na Madeira, em 1983, foi ele quem projetou a casa que os dois continuaram a alterar ao ritmo da vida e do trabalho. Não funcionava apenas como residência ou atelier, mas sim como uma experiência comum, feita de arquitetura, luz e vegetação.