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A vida numa economia congelada: como se vive num país falido

Maria Henrique Espada , Vítor Matos 05 de maio de 2026 às 22:58

Primeiro as más notícias: na terça‑feira, as taxas de juro da dívida a cinco anos chegaram aos 9,02% e o País ficou apenas um nível acima de “lixo”, depois de a agência Standard & Poor’s ter voltado a baixar o rating. Agora as péssimas notícias: nos próximos anos, a sua vida será ainda pior. Para saber o que deve esperar, a SÁBADO preparou um dossiê especial onde lhe conta o que vai mudar em Portugal, o que aconteceu na Grécia e na Irlanda com a entrada do FMI e o que pretendem fazer PS e PSD se ganharem as eleições.

REPORTAGEM. NA IRLANDA ACABARAM AS ILUSÕES

'Povo Unido contra a troika' sai hoje à rua Sábado

“We’re fucked”

Durante anos, o irlandês médio comprou casas caras, fez férias de luxo e jogou golfe em greens impecáveis. Agora, voltou a viver com os pais e às vezes nem para a comida tem dinheiro.

Sinead Walsh está na esquina da Henry com a Moore Street, numa das zonas mais movimentadas de Dublin. São 13h45 de domingo, dia 27. Daí a cerca de uma hora vai mudar de vida: combinou com os pais que às 15h regressa a casa. De vez. Saiu aos 17 anos e sustentou os estudos com trabalho em empresas de fast food e biscates vários. Esteve dois anos no Starbucks. Passaram três anos e chegou ao limite: “Era a renda ou a comida.” Escolheu a comida. Sinead não se lamenta e até acha que tem sorte: “Posso voltar para casa dos pais, eles pediram. Além disso, já em Abril vou começar a trabalhar no Nando’s [uma cadeia de fast food de um português]. Vai dar para a comida, transportes e propinas”, explica com um sorriso.

Sinead parou de estudar – a crise rebentou quando entrou na faculdade e os pais deixaram de a poder ajudar – mas voltou a matricular-se. São 2.000 euros/ano na Dublin College University, para continuar a frequentar jornalismo. Aponta para um amigo ali na mesma esquina. John Lyons tem 22 anos, estuda Business and Management no Dublin Institute of Technology e termina este ano. Vive com os pais. Parece absolutamente feliz quando conta, de T-shirt apesar do frio: “Em Outubro vou embora daqui. Quero gozar a vida, arranjar um emprego. É o que toda a gente faz.” Ele terá de o fazer na Austrália, a trabalhar em barcos de cruzeiros.

John e Sinead estão a vender raspadinhas a quem passa, para uma associação de solidariedade social, The Hanly Center. Ganham uma comissão sobre o que vendem. Naquela mesma esquina, há mais dois amigos a fazer a mesma coisa. Também são estudantes universitários. Todas as semanas, saem mil jovens da Irlanda, à procura de emprego fora. O país não sofria uma razia assim desde os anos 80.

Nuala Flood, uma arquitecta de 31 anos, não pensa partir, mas a crise já a fez chorar. Não se emocionou quando foi despedida, em 2007, mas fê-lo em público a 27 de Novembro de 2010. Enquanto bebe um chá de menta no Busy Bees, em Temple Bar, conta a sua história: “Ganhava 45 mil euros/ano. Agora ganho 16 mil. Não há restaurantes, roupas, férias fora. Mas sinto-me feliz no que faço.” Integra, com outros doutorados, um grupo de trabalho em Trinity College, que está a elaborar um projecto para tornar Dublin mais sustentável.

O dia 27 de Novembro foi a data da manifestação que juntou mais de 100 mil irlandeses na capital, a maior desde que a crise se instalou: “Nevou, estava um frio terrível, mas veio imensa gente e a marcha tornou-se muito emocional. Descemos O’Connel Street (a principal artéria de Dublin) até ao posto central dos Correios e aí de repente comecei a olhar à volta e a ver gente a chorar. Por todo o lado, todo o tipo de pessoas. Havia homens a chorar. Eu chorei.” No palco, uma actriz lia partes da Declaração de Independência irlandesa, lida pela primeira vez naquele local em 1916. Os irlandeses sentiam a independência económica em causa, como pacote de austeridade anunciado três dias antes, como preço a pagar pelo resgate da UE e do FMI, um empréstimo de 85 mil milhões de euros.

Mas a grande catarse, garante Nuala, foi a de Fevereiro, quando o Fianna Fáil, que esteve no poder 65 dos últimos 80 anos, perdeu as eleições para o Fine Gael, que agora governa a Irlanda, em coligação com os trabalhistas. O Fianna Fáil foi “kicked in the ballots” (levou um pontapé nas urnas), um trocadilho com “kicked in the balls”, ri-se Nuala, enquanto espeta muito discretamente o dedo médio da mão direita. Qualquer irlandês mostra hoje pouca consideração pela classe política.

A partir de 2000 e até a crise começar a dar os primeiros sinais, no final de 2007, a Irlanda foi a terra da abundância e do crédito fácil. Na Primavera, havia contentores nas ruas onde muita gente depositava sofás e televisores da estação anterior, para renovar a casa. É difícil encontrar um taxista que não diga “já estive no Algarve a jogar golfe”. Um embaixador irlandês, que prefere não ser nomeado – “ainda sou funcionário público” – recorda a admiração de, no regresso a Dublin nessa altura, pagar tanto em restaurantes como em Londres ou Nova Iorque e de ser necessário fazer reserva com três dias de antecedência para se ter lugar. Era comum comprar um apartamento em Espanha, ou até na Flórida. Os bancos pagaram a festa: emprestavam a totalidade do preço da casa, e muitas vezes 110% ou mais, para mobilar e até para ir de férias, porque comprar casa era cansativo e havia que descansar. E até os orçamentos estatais tinham superavits sucessivos.

Quando a bolha de construção rebentou e o Lehman Brothers caiu nos Estados Unidos, os bancos irlandeses ruíram. O mesmo embaixador notou a diferença na forma como o abordam: “Agora, lá fora, toda a gente me pergunta pela recessão, o FMI...”

David é bancário, trabalha no sector que a maioria dos irlandeses, em qualquer quadrante político, aponta como responsável pela crise. Nem por isso tem uma vida fácil. Prefere que o apelido seja omitido, assim como o nome da instituição em que trabalha. Quando tudo corria bem, comprou uma casa que custava 282 mil euros, mas o banco, generoso, sugeriu-lhe um empréstimo de 300 mil: assim “também dava para a mobília”. Entretanto, a mulher ficou desempregada, o rendimento desceu e têm um filho pequeno. Agora, é com ajuda do pai que está a pagar o empréstimo.

Entretanto, foi promovido duas vezes, mas sempre com o mesmo ordenado. A semana passada, foi chamado à direcção do departamento onde trabalha: “Nos próximos seis meses, tenho de despedir 19 das 25 pessoas que trabalham comigo. Em seis meses. E os que ficarem, isso foi-me deixado bem claro, terão de fazer todo o outro trabalho que fazem as actuais 25.” David não sabe como é que qualquer das parcelas desta equação vai ser feita, mas sabe que ambas serão.

Fintan O’Toole foi o principal orador na manifestação que fez Nuala chorar. É o mais conhecido colunista irlandês (escreve no Irish Times), foi o primeiro a lançar avisos sobre a nuvem que se aproximava (o governo acusou-o na altura de ser irresponsável por lançar o pânico) e escreveu dois livros sobre a crise, o último no ano passado, intitulado Ship of Fools, How Stupidity and Corruption Sank the Celtic Tiger.

Na semana da manifestação, foi anunciado o pacote de resgate da UE, em parceria com o FMI, o que também ajudou ao sucesso da marcha, mas ninguém culpa o FMI: “A culpa foi em primeiro lugar dos bancos, com uma enorme cumplicidade do Banco Central Europeu”, acusa Fintan. E do governo, que provou ter um comportamento pouco claro na bolha imobiliária, indo em socorro dos bancos – “a mais estúpida decisão da história da Irlanda”.

À data não se sabia a dimensão da dívida. Seria muito mais do que o esperado: 200 mil milhões de euros. E resume: “Temos 180 mil milhões de dívida soberana, 250 mil milhões em dívida privada, mais os 200 dos bancos, com um PIB de 140. Não é preciso ser Einstein para perceber que vai ser impossível pagar isto à custa de cortes e impostos, nem em 150 anos. Já não é uma questão de se devemos pagar. É que não podemos.”

Depois de quatro orçamentos de austeridade, dois cortes sucessivos de 7% nos salários dos funcionários públicos e 20% no dos políticos, redução do salário mínimo (de 8,65 euros/hora para 7,65), cortes em todas as prestações sociais e subida generalizada de impostos (só o IRC não subiu) a Irlanda não está melhor. O desemprego chegou aos 14,5%. “O FMI apenas insistiu numa receita que já estava a correr mal. Estamos numa armadilha.”

Fintan O’Toole vive num bairro simpático, de classe média-alta, mas a crise também já ali chegou. O merceeiro desabafou com ele que enquanto antes as contas de quem levava fiado chegavam, quando muito, aos 200 euros, agora tem algumas de 2 mil.

A prosperidade desapareceu a uma velocidade que deixa os dublinenses desorientados, com os restaurantes e as lojas que fecham de um dia para o outro, os bares que passam a lojas de conveniência, depois a outra coisa qualquer dois meses mais tarde, porque o negócio anterior também já acabou. Nos subúrbios, há condomínios-fantasma onde ninguém vive. No sábado, dia 26, houve um leilão de gruas de construção civil, com os estrangeiros a aproveitarem os preços de saldo.

“Os irlandeses tiveram de voltar ao básico”, diz John-Mark McCafferty, da Sociedade de São Vicente de Paulo, a maior organização de solidariedade social na Irlanda. O básico é comida e aquecimento.

Houve tempos em que esta organização esteve mais focada em problemas como o alcoolismo ou o apoio a famílias disfuncionais. Agora, regressaram à distribuição de comida. “Temos gente a pedir-nos ajuda pela primeira vez, e quando o fazem é porque somos mesmo o último recurso, porque há um estigma social de pedir ajuda. Os irlandeses prezam muito, muito, a sua privacidade e há alguma vergonha.”

Há casos em que a energia não foi cortada porque quem a foi cortar viu o acesso barrado pelos portões do condomínio privado. Na rua, muita gente não quer falar dos seus problemas pessoais, dar o nome e muito menos ser fotografado. John-Mark, como quase todos os irlandeses, tem uma certeza: “As coisas não estão a melhorar. Para ninguém.”

Teve de ser posta em prática uma moratória dos bancos para não despejarem pessoas com a prestação da casa em atraso. Não há números oficiais. Só se sabe que são muitos milhares. Stewart Barron, 47 anos, taxista que trabalha mais 20 horas por semana e ganha menos um terço do que antes, resume numa expressão tudo o que acha sobre o FMI, a crise e o futuro: “We’re fucked!”

REPORTAGEM. DIAS CONTURBADOS NA GRÉCIA

“Papámos o dinheiro”

A rua é hoje a segunda casa dos gregos. Com a austeridade vieram o desemprego e a miséria. Nos últimos dois anos, o número de suicídios duplicou.

Os protestos de hoje em Atenas, em frente ao Parlamento, são contra o cartão do Diabo. Padres ortodoxos vestidos de negro até aos pés, com barbas espessas pelo peito, discursam a milhares de manifestantes contra o cartão “666”, criado pelo Ministério das Finanças para combater a evasão fiscal. Acreditam que um rectângulo de plástico transporta o número da Besta escondido no código de barras. “Grécia é ortodoxia!”, gritam aos microfones. A multidão conservadora da direita radical responde agitando bandeiras gregas azuis e brancas na Praça Syntagma, onde é mais habitual ser a esquerda a manifestar-se contra os cortes salariais em vigor desde a imposição da austeridade.

Em Maio de 2010, a Grécia foi resgatada pelo FMI e pela União Europeia para não entrar em bancarrota, por causa do enorme défice e da dívida galopante. Quase um ano depois, vive em depressão económica.

O padre Peter, 33 anos, cofia a longa barba e tenta explicar à SÁBADO a possessão demoníaca do cartão do fisco: “Porque havemos de aceitar o cartão como chip ‘666’? Se forem somados os números do código de barras, o total dá ‘666’. É o número da Besta! Eles querem fichar-nos, querem saber tudo sobre a nossa vida. Querem dar-nos um cartão como número, como os prisioneiros. Numa segunda fase vão querer chipar-nos, vão querer pôr um chip debaixo da nossa pele, como se faz aos cães…”

Estes milhares de fiéis ultra-ortodoxos mobilizados em dia de missa são um grupo marginal visto como um bando de alucinados pelos outros gregos. No entanto, o Diabo esconde-se mesmo nos pormenores.

A Grécia tem uma economia paralela na ordem dos 25% e as Finanças querem obrigar o comércio a passar recibos atribuindo incentivos aos contribuintes: quanto mais facturas os gregos apresentarem ao fisco, mais descontos podem obter no IRS. Mas perante a avalanche de milhares de papelinhos impossíveis de fiscalizar, o ministério lembrou-se de criar um cartão com um chip (parecido com o Cartão do Cidadão português), onde seriam registadas todas as transacções, das refeições à compra de roupa a um simples café. O problema? O Estado passaria a ter uma base de dados gigantesca sobre os hábitos de cada grego.

Durante anos valeu tudo na Grécia e por isso a crise rebentou. Agora parece que também vale tudo para a combater.

Os casos de miséria estão a disparar. A causa principal da pobreza é o desemprego: a taxa oficial ultrapassa os 15%. Os cortes nos salários dos funcionários públicos e a extinção dos subsídios de Natal e de férias empobreceram a classe média.

O caso de Eva, 40 anos, é exemplar. Informática numa empresa estatal, ganhava 2.300 euros há um ano e agora só recebe 1.300, sem direito aos subsídios anuais que não sabe se um dia vai voltar a receber. Enquanto enrola mais um cigarro (a maioria dos gregos fuma tabaco de enrolar), confessa estar a viver “uma espiral descendente sem solução”. Teve de deixar a casa que alugava porque não a podia pagar, foi viver com uma amiga, entrou em depressão sem ter dinheiro para se tratar, mas ainda acredita que pode arranjar um segundo emprego. O caso dela é apenas um entre centenas de milhares no Estado.

O drama dos funcionários públicos estende-se aos pensionistas. Antes de chegar o FMI, um septuagenário como Nikos podia ganhar 400 euros, uma das pensões mais baixas. “Ah, uma das primeiras coisas que eles fizeram foi cortar as pensões, sabe. Perdi 80 euros por mês, a sorte é que vivo com os meus filhos”, conta à SÁBADO enquanto se apressa no movimento da Rua Athinas.

Há quase um ano, a seguir ao acordo com o FMI e a UE, o Governo socialista do PASOK, liderado por Georges Papandreou, também aumentou as taxas de IVA de 11% e de 21% para 23%, subiu a idade da reforma e lançou um programa drástico para reformar o poder local que atinge o apoio aos mais desfavorecidos.

Olga Mitsiou, 26 anos, recepcionista num hotel do centro, cujo marido vive de um emprego precário em part-time no sector do turismo, aponta o dedo aos funcionários públicos. “Quem trabalha para o Estado ganha mais sem merecer, e com menos formação.” A função pública na Grécia é um sorvedouro. A maioria trabalha das 7h às 14h. Nos últimos anos, chegou a haver gratificações para quem chegasse a horas. E ainda há um exército de funcionários chamados “trabalhadores-fantasmas”, que recebem salário sem aparecer.

A Nova Democracia, que esteve no poder entre 2004 e 2009, “empregou mais 100 mil funcionários”, diz à SÁBADO o economista Yannis Stournaras, presidente do IOBE, um think tank especializado em questões económicas.

Por isso, como é o caso de Olga, os gregos revoltam-se contra os funcionários e a classe política. Os políticos começam a ter medo de sair à rua: já atiraram iogurte ao vice-primeiro-ministro, Theodoros Pangalos; o primeiro-ministro foi apupado no dia nacional comemorado na sexta-feira passada; e já houve deputados que receberam cuspidelas na praça pública.

O próprio vice-primeiro-ministro Pangalos lançou a polémica recentemente no Parlamento, quando reconheceu o apodrecimento do sistema. “A nossa resposta ao grito desesperado do povo contra os políticos [que pergunta] ‘como é que vocês paparam o dinheiro?’, é esta: nós contratámo-nos; papámos o dinheiro todos juntos.”

Em Atenas, as manifestações e as greves são diárias. A sede da Câmara Municipal está ocupada pelos trabalhadores há uma semana, com um boneco enforcado na janela e bandeiras negras a enfeitar. O presidente não entra. Está vedado por 2.500 trabalhadores precários com um estatuto equivalente aos recibos verdes em Portugal, prestes a perder o emprego. “Somos como os espartanos, não abandonamos o campo de batalha”, diz Nixos Liberopoulos, 32 anos, segurança numa escola primária, com 730 euros de salário.

A SÁBADO entrou nas instalações. Há gente a fumar encostada às paredes. Centenas de trabalhadores, numa sala enorme, escutam em silêncio uma camarada de megafone a fazer um discurso. À porta, o piquete impede um fura-greves engravatado de entrar. Vai-se embora a protestar.

Apesar de todas as dificuldades e de ser visível a quantidade de lojas fechadas, a vida em Atenas parece normal. Os cafés e os restaurantes estão cheios, com um café a custar entre 2 e 3,5 euros. E os gregos adoram café gelado e cappuccino com gelo, sol e boa vida. Basta arranhar um pouco este verniz para perceber a realidade que está por baixo.

Ao domingo, Sfetsios Danavassis, 46 anos, toma um café com leite no Café Dioskuri, com vista para as ruínas da antiga Ágora, e fala com a mulher. Dois dos três filhos brincam na rua. Ele é engenheiro civil e tem uma empresa. Ela é advogada. Há um ano, eram da classe média-alta. Isso acabou. “A construção civil parou e eu não tenho contratos. A empresa já não tem empregados, sou apenas eu e o meu sócio. E já não confio em ninguém”, desabafa Sfetsios à SÁBADO. Tem as suas razões: “O Estado deve-me 1 milhão de euros e não sei quando vai pagar. Neste momento vivemos das nossas poupanças e não sei como vamos viver no próximo ano, porque os clientes dela também não pagam. Para o ano, os miúdos vão para a escola pública…”

No mercado de Atenas, “o negócio caiu 30%”, diz o presidente da associação dos vendedores, Spyros Korakis, 62 anos, dono de uma peixaria de onde os clientes saem com os peixes embrulhados em papel. “Nota-se o corte nos salários e nas pensões, mas as pessoas têm de continuar a comprar comida. Só que se antes compravam peixe três vezes por semana, agora só compram uma. E em vez de pedirem um quilo de peixe, pedem dois ou três peixes, à conta para a família.”

O último ano foi a tempestade perfeita para Giorgios Glinos, 37 anos. As dificuldades económicas acentuaram os problemas no seu casamento e hoje está desempregado, divorciado e sem subsídios. Formado em Astrofísica, especialista em telecomunicações e em marketing, era um jovem de sucesso com anos de experiência internacional em grandes empresas. Chegou a ser gestor de produto na área das telecomunicações durante os Jogos Olímpicos de 2004, num departamento em que chefiava 300 pessoas.

Em 2009, ele e a mulher ganharam 100 mil euros num ano. No ano passado, só ganhou 10 mil como consultor independente. Vive do dinheiro da venda da casa, que depositou num banco sérvio para estar a salvo se a banca grega rebentar (muita gente colocou o dinheiro no estrangeiro com medo de que a Grécia fosse expulsa do euro). O senhorio baixou-lhe a renda de 600 para 500 euros, uma tendência generalizada no país para fazer face às dificuldades. Tirou a filha do colégio privado e matriculou-a na escola pública.

Caiu em depressão e gastou 7 mil euros em terapia: “Os gregos estão a perder o sorriso”, diz. Não acredita na imprensa. Não acredita nos políticos. “Um Governo só é corrupto se o povo for corrupto”, afirma, citando alguém. O estado de espírito é generalizado. O número de suicídios tem aumentado.

Um estudo do Hospital Psiquiátrico Sismanoglion diz que os suicídios duplicaram de 2009 para 2010: há dois por dia. Na ilha de Creta, o caso é mais grave. Também duplicaram os pedidos de ajuda na linha telefónica 1018, que trabalha na prevenção do suicídio. O problema é atribuído à crise e incide sobretudo em desempregados e pequenos empresários que vão à falência e não têm como pagar as dívidas.

Apesar de tudo, a noite ateniense continua movimentada e alegre. No bar Ginger Ale, na zona de Exarchia (onde em 2008 a morte de um adolescente anarquista pela polícia desencadeou uma onda de motins), uma banda de jazz toca para um público alternativo. No seu brasileiro quase perfeito, Sotiris Karamesinis, encenador, 41 anos, conta como a vida mudou. Faz teatro há 20 anos. E tudo parecia bem quando passou 15 meses a encenar As Bacantes numa favela brasileira com os actores que participaram no filme Cidade de Deus — que ganhou um Óscar para Melhor Filme Estrangeiro. Regressou a Atenas em 2010, quando a crise rebentou. Está sem trabalho há meses e vive da ajuda dos amigos e da família. Deixou de fumar, de jantar fora e de comprar roupa para não gastar dinheiro. Só vai ao cinema e ao teatro quando lhe dão convites.

“Vivo sozinho desde os 18 anos e agora como na casa da minha mãe.” Não é caso único. Os pais, reformados, são um apoio fundamental. “Estamos a voltar à infância”, lamenta. “E isto está para ficar uns 15 a 20 anos…”

Há esperança? Filon, assistente social, responde com secura: “Não!”

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