Frederico Morais: "A Austrália é a segunda casa. O mau é que tem muitos tubarões"

Cátia Andrea Costa 18 de julho de 2017

O segundo português a participar na Liga Mundial de Surf já levou 28 pontos por causa de uma queda, tem uma vida de saltimbanco e admite que tem um sonho para os próximos meses: ganhar uma etapa

Desde Fevereiro, Frederico Morais passou poucos dias em Portugal devido às exigências da Liga Mundial, na qual se estreou este ano. Numa das visitas a Lisboa, falou com a SÁBADO sobre a infância, os sustos, as viagens e a vida entre a elite do surf. E respondeu a um desafio de McNamara. Actualmente, Kikas encontra-se a disputar a etapa sul-africana da Liga Mundial de surf e passou à quarta ronda - o que acontece pela segunda vez neste ano de estreia na competição.

Qual é o balanço desta época?
Estou a adorar viver o meu sonho. A primeira metade do ano está feita, consegui um bom resultado, o 5º lugar na Austrália. A próxima é Jeffreys Bay, na África do Sul [12 a 23 de Julho], de que gosto muito. Estou confiante e à espera de outro bom resultado.

Tem algum objectivo para o que resta desta temporada?
Quero superar-me e seguir no tour. Existe o sonho de ganhar uma etapa, mas a prioridade é manter-me aqui.

Quais as maiores diferenças entre o circuito de qualificação e o Mundial?
Há um profissionalismo muito maior. São surfistas muito técnicos, muito bons, que em momentos difíceis não vacilam. Temos de estar concentrados a 110% e dar tudo por tudo.

Cresceu como surfista?
Sem dúvida. Surfar entre os melhores do mundo puxa por nós, mesmo que seja de forma inconsciente.

Como é que começou a surfar?
Foi um bocado do nada. Tinha 6 anos, estávamos de férias em Vilamoura com uma família amiga e um dos filhos tinha uma prancha de bodyboard. Fui para o mar com o meu pai, levei braçadeiras, caí, o meu pai metia-me em pé novamente... Voltámos para Cascais e eu pedi uma prancha de surf. No fim-de-semana seguinte, fui surfar com a minha mãe, pus-me de pé e a partir daí…

Percebeu que era o seu desporto?
O meu pai metia os pés de pato, vestia um fato e fazia piscinas: levava-me até ao outside, empurrava-me para a onda, vinha-me buscar à areia, levava-me outra vez. Eram fins-de-semana nisto, a paixão foi aumentando. Aos 11 anos, fiz a minha primeira viagem para a Austrália, aos 12, para o Havai… Estes destinos passaram a ser locais de férias para a família, para eu poder surfar.

Foi com essa idade que pensou que queria viver do surf?
Sagrei-me campeão de sub-21 (júnior) aos 14 anos e, nessa altura, disse a mim mesmo e aos meus pais que aquele era o momento decisivo: "É isto que vamos fazer."

Nunca o seu pai e o seu tio [Tomaz Morais, ex-seleccionador de râguebi] o tentaram desviar para o râguebi?
Não. O meu pai e o meu tio são surfistas que nunca fizeram surf. O meu pai, na verdade, treinou-me a vida inteira até eu arranjar este treinador. Eles vão agora os dois comigo para a África do Sul e vai ser o primeiro campeonato que o meu tio vai ver fora de Portugal. Vai ser bonito.

Foi fácil conciliar com os estudos?
Concluí o 12º ano. A minha mãe viajava comigo para me dar explicações e ajudar a estudar - passei sempre a tudo. No 12º, fiz todas as disciplinas por exame, porque já estava numa fase muito profissional da minha carreira e era impossível conciliar.

A família foi fundamental?
Aquilo que alcancei era impossível sem a minha família… Às vezes, os meus pais estavam ausentes, mas o apoio da minha irmã foi sempre incondicional.

Era fácil para uma criança viajar para tão longe sozinha?
A primeira viagem que fiz sem os meus pais foi aos 10 anos, com o Carlos Pinto, que é fotógrafo e como um pai para mim. A minha mãe levou-me ao aeroporto e disse-lhe: "Toma bem conta do meu menino." Aos 14 anos, fiz a primeira viagem sozinho - fui para a Indonésia com a Billabong - e foi assustador. O meu inglês não era fantástico e liguei a chorar para a minha mãe. No ano seguinte, voltei a fazer a mesma viagem… Fui aprendendo inglês, a fazer amigos, a desenrascar-me sozinho.

Algum desses sítios acabou por se tornar uma segunda casa?
A Austrália, sem dúvida. Todos os anos passo lá três meses. É muito semelhante a Portugal, e se tivesse de sair deste cantinho era para lá que eu ia. A única coisa má é que tem muitos tubarões…

É fácil a vida de saltimbanco?
Não, mas adoro. Saí de Portugal a 2 de Fevereiro, voltei no fim de Maio, estive cá sete dias. Fui para o Brasil, depois Austrália, Japão, Austrália, Fiji, Portugal, depois Chile… A partir de 1 de Julho estarei na África do Sul e volto dia 24. No máximo, fico cá 10 dias, mas adoro voltar. Quando temos tão pouco tempo, aproveitamos melhor. Três dias em casa parecem um mês. Para mim, é importantíssimo voltar a casa. Adoro o nosso país e o que nós temos.

É fácil deixar de ser o Frederico Morais durante esse tempo?
Quando estou entre família e amigos sou o Kikas, que eles conhecem há anos. Não há grandes devaneios. Quando as coisas não correm bem é fácil irmos abaixo. E virmos a casa, ter com quem desabafar, limpar a cabeça, sabe bem!

A vida do surf é um pouco romantizada. Há momentos de solidão?
Há. Felizmente, o meu treinador faz todas as etapas comigo. Trabalhamos juntos desde os meus 17 anos, hoje tenho 25, conhece-me muito bem. Sabe quando tem de falar, quando estou em baixo. É uma ajuda gigante.

Como é a vida de um surfista profissional ao mais alto nível?
É muito simples: surf e ginásio. Cerca de 1h, 1h30 de exercício físico. Dentro de água, depende. Posso simular dois heats e faço só uma hora ou, se as ondas estiverem incríveis, ficar horas dentro de água.

Ainda desfruta do mar?
No dia em que deixar de acontecer é sinal que o surf perdeu o significado para mim. Ainda me deslumbro com muitas das coisas que vejo no mundo. Mas chego ao Guincho e ainda me deslumbro mais. Sempre que posso vou lá surfar.

Quais são as melhores ondas do mundo?
É difícil escolher, há tantas ondas boas. Mas gosto muito de Jeffreys Bay.

Qual o momento da carreira que mais recorda?
O final de 2016 foi muito marcante e decisivo. Eu sabia que havia oportunidade de entrar na Liga Mundial, que era capaz, mas sabia que era muito difícil. Fazer duas finais no Havai era complicadíssimo…

Lembra-se do que sentiu quando percebeu que era real?
Foi um dia inesquecível. Acabei o campeonato meio apático, sem perceber o que se tinha passado, só a pensar que tinha realizado o meu sonho. Liguei aos meus pais a chorar, e também ao meu amigo João. Mas comecei logo a pensar "e agora?".

Esta subida à Liga Mundial tornou-o mais conhecido na rua?
Sim, algumas vezes, não tanto como um jogador de futebol, mas pedem-me uma fotografia ou um autógrafo. É um reconhecimento gigante de tudo o que já alcancei. Acho óptimo.

Quem é o seu surfista favorito?
É o Mick Fanning. Adoro a maneira dele de surfar. Admiro também o profissionalismo. É um ícone.

E o Kelly Slater?
O melhor de sempre, um super-homem: já passou por mil gerações e continua ali.

Já apanhou algum susto grande?
O maior foi no Havai, aos 14 anos. Uma onda puxou-me e bati nas rochas - levei 14 pontos na cabeça, mais dois agrafos, e mais 14 pontos nas costas. Mas quando estamos a desfrutar não pensamos em problemas. Peniche vai ser diferente este ano?
Vão ser 12 dias inacreditáveis. Não quero pensar em ganhar - quando chegar a altura traço objectivos.

Sente-se um embaixador de Portugal no mundo?
Sim! Quando me meto em pé numa prancha, apresentam-me como português, falam do País e de Cascais, das ondas incríveis que temos.

Garrett McNamara disse à SÁBADO que para o Frederico ser campeão do mundo bastava acreditar. O que lhe responde?
Muito obrigado pela confiança, vou fazer isso a ver se resulta. O Garrett é um grande surfista, pôs a Nazaré nas bocas do mundo e também lhe dou os parabéns por tudo o que fez.

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