Portugal empata – o café da Colômbia foi mais forte
A seleção cafetera correu mais, rematou mais e foi mais perigosa. Portugal acaba no 2º lugar do grupo e agora vai defrontar a Croácia nos 16 avos do Mundial. No Euro 2016, a fase a eliminar também começou com os croatas e acabou em festa. Será um bom prenúncio?
Portugal não é um país produtor de café, mas é verdade que as nossas tradicionais bicas são famosas e mesmo muito apreciadas pelos estrangeiros que visitam Portugal. Ora, para ver um jogo que começou à meia-noite e meia (19h30 em Miami), o café podia ser preciso para manter os adeptos acordados, em especial se estivéssemos perante uma daquelas partidas mastigadas a meio-campo e sem grandes oportunidades de golo. Não foi isso que aconteceu, pois houve emoção do primeiro ao último minuto, mas talvez o café tivesse dado jeito aos jogadores portugueses, que correram menos, lutaram menos e remataram menos que os colombianos (foram 24 os tiros dos colombianos, contra 13 dos lusos, e apenas dois à baliza). Ou seja, o café da Colômbia, famoso pela sua qualidade, sendo cultivado nas encostas vulcânicas da Cordilheira dos Andes, foi mais forte. Ou, pelo menos, teve mais efeito.
Com o empate sem golos, Portugal termina o seu grupo no 2º lugar, com 5 pontos (fruto da vitória sobre o Uzbequistão e os empates contra Congo e Colômbia), e agora defronta nos 16 avos do Mundial a Croácia, na madrugada de sexta-feira, dia 3, à meia-noite.
Roberto Martínez não surpreendeu ao escalar o 11 para o jogo frente à Colômbia, pois manteve praticamente toda a equipa que goleou (5-0) o Uzbequistão na partida anterior – fez apenas uma alteração, surgindo Rúben Neves no lugar de João Neves, no meio-campo.
A seleção portuguesa sofreu um susto logo aos 58 segundos: há uma bola longa lançada para Luis Díaz, que dominou na esquerda e rematou contra um defesa, com a bola a subir e a sobrar para o avançado Córdoba, que cabeceou ligeiramente por cima da barra.
Estava dado o mote para o que seria o estilo da seleção cafetera, que além dos passes longos tinha ainda jogadores com capacidade explosiva para carregar jogo para a frente, nomedamente Santiago Arias, desequilibrando a defesa portuguesa e em especial o meio-campo.
Quanto a Portugal, apresentou o seu jogo habitual, com muita posse e paciência, mas a acontecer na maioria das vezes longe da área adversária, e sem causar grandes lances de perigo – um futebol rendilhado mas estéril. Até à pausa de hidratação, aos 24 minutos, a Colômbia foi sempre mais perigosa, surgindo com sete remates contra dois – um deles, aos 16 minutos, por Córdoba, a causar calafrios, sendo parado por uma grande defesa com a luva direita de Diogo Costa. Depois, aos 21 minutos, foi a vez de Jhon Arias, que rematou cruzado, com Rúben Neves a tirar à boca da baliza (embora parecesse que a bola não ia entrar, mas sair junto ao poste).
A seguir à pausa de hidratação, o jogo tornou-se mais desinteressante, embora com a Colômbia sempre mais confortável e com mais facilidade a chegar junto da área portuguesa. A seleção das Quinas acordou aos 39 minutos e esteve perto de marcar: João Cancelo foi à linha e cruzou da direita, com Bruno Fernandes, na área, a dominar e a chutar para uma grande defesa do guardião colombiano, Camilo Vargas. Três minutos depois, foi a vez de João Félix falhar a baliza por muito pouco: recebeu uma bola alta, num lançamento lateral de Nuno Mendes, dominou no peito e rematou ligeiramente por cima da barra.
À hora a que começou o seu jogo, em Miami, a seleção portuguesa já conhecia os resultados dos jogos do Grupo L (Inglaterra-Panamá e Croácia-Gana), e sabia, por isso, que o melhor era ficar em 1º lugar no seu grupo, pois defrontaria o Gana (treinado por Carlos Queiroz), enquanto o 2º jogaria com a Croácia nos 16 avos de final e o 3º defrontaria os ingleses.
O selecionador, Roberto Martínez, tinha dito que não era importante ficar em 1º lugar no grupo, lembrando a sua experiência à frente da seleção da Bélgica, pois no Mundial 2018 venceram o grupo e depois defrontaram o Brasil (“tens de ganhar a todos, a jornada não importa”, afirmou). E, se formos analisar friamente, talvez fosse melhor acabar em 1º e enfrentar o Gana, embora esta Croácia não seja um bicho-papão – altamente improvável era Portugal acabar em 3º (tinha de perder por dois ou três golos frente à Colômbia e, ao mesmo tempo, o Congo teria de golear o Uzbequistão por três ou quatro golos, sendo que a equipa africana iria vencer por 3-1, significando que Portugal só ficaria em 3º se tivesse saído derrotado por 4-0).
Quanto à Croácia, liderada pelo veterano Modric, antigo companheiro de Cristiano Ronaldo no Real Madrid, empatou com Portugal na última vez que se defrontaram (em novembro de 2024, na Liga das Nações), mas é verdade que a seleção dos Balcãs está em transformação e não parece ter tanta qualidade como nos últimos anos. E, revelam as estatísticas, Portugal até tem um historial de grande sucesso frente à Croácia, pois em 10 jogos soma sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota.
Voltando ao jogo com a Colômbia, para a segunda parte Roberto Martínez fez duas substituições: tirou João Cancelo e Rúben Neves e fez entrar Diogo Dalot e João Neves. O início foi de forma mais pausada, podendo pensar-se que seria por causa do calor e da humidade que se faziam sentir em Miami. Ou então porque os colombianos sabiam que o empate chegava para ficarem em primeiro. Certo é que a primeira grande oportunidade até seria para Portugal, aos 59 minutos: Dalot teve uma grande abertura e deixou João Félix perto da área, com este a isolar Ronaldo, que, sozinho, atirou ligeiramente ao lado – mas estava em fora de jogo.
Seguiu-se a reação dos colombianos, que entre os 61 e os 64 minutos tiveram várias oportunidades para abrir o ativo. Primeiro por Luis Suárez (o avançado do Sporting tinha entrado há poucos minutos), que apareceu sozinho na área, respondendo a um cruzamento da direita com um remate que saiu ligeiramente ao lado. Suárez voltou a aparecer dali a pouco em boa posição, já dentro da área, valendo o corte de Renato Veiga (o defesa-central foi um dos melhores em campo). E a seguir foi John Arias, novamente pela direita, a rematar para uma boa defesa de Diogo Costa - no canto, Puerta, de fora da área, atirou com força, com a bola a sair perto do poste.
Encostado às cordas, Portugal foi salvo pela pausa de hidratação. Roberto Martínez fez depois mais duas susbstituições, entrando (aos 71 minutos) Samu Costa e Rafael Leão, para os lugares de Félix e Vitinha. Aos 79 minutos, Cristiano Ronaldo desmarcou-se bem pela esquerda e tentou cruzar para Rafael Leão, que ficaria isolado, valendo um corte providencial dos colombianos.
Depois de um período de maior acalmia, os últimos minutos voltaram a trazer emoção. Aos 88 foi Muñoz a cruzar com perigo, e Rúben Dias a salvar, cortando de cabeça. No canto, mais uma grande defesa de Diogo Costa (que foi eleito o melhor em campo), com Suárez, na recarga, a rematar de forma acrobática ligeiramente por cima.
Já nos descontos (aos 91 minutos), os colombianos marcaram mesmo (e a vitória teria assentado melhor aos cafeteros), mas Sanchez (que cabeceou para o golo) estava fora de jogo por escassos centímetros (o VAR confirmou o off-side por uma unha). Aos 93, Rafael Leão ainda esteve perto de concretizar um golpe de teatro (que seria a imerecida vitória de Portugal), com uma grande arrancada pela esquerda do ataque, acabando por rematar ligeiramente ao lado.
Em relação à partida contra a Colômbia, o selecionador de Portugal tinha dito que este era “o primeiro jogo” em que jogávamos fora de casa, referindo-se à grande comunidade da América Latina que existe em Miami (estima-se que existam 300 mil colombianos em Miami, contra 20 mil portugueses). E, de facto, as bancadas do estádio Hard Rock tinham a maioria dos seus 65 mil lugares preenchidos com as camisolas amarelas dos cafeteros. O ambiente também não foi o melhor para Cristiano Ronaldo – será que é porque o seu “arqui-rival” Messi joga ali, no Inter Miami?
Quanto à questão das trovoadas, que antes do jogo preocupavam, pois havia o risco de obrigarem à interrupção do desafio (a seleção já teve mesmo de suspender dois treinos em Palm Beach devido ao mau tempo), acabaram por não interferir – o jogo teria de parar se um relâmpago ou um trovão fosse sinalizado a menos de 13 km do estádio. Mas não se pense que esta regra é algo despicienda ou um exagero das autoridades: afinal, de acordo com os dados do Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, nos últimos 10 anos morreram 197 pessoas (161 homens e 36 mulheres) atingidas por raios, sendo 21 em 2025.
Em Miami não houve trovoada, mas houve muita fiesta colombiana. E, se Portugal é um dos favoritos a ganhar este Mundial, como se tem dito, agora é a altura de começar a demonstrá-lo. Ou será que estamos perante um remake do Euro 2016, quando Portugal seguiu de empate em empate até à vitória final? Em França, há 10 anos, a Croácia também foi o primeiro adversário da seleção das Quinas na fase a eliminar (vitória por 1-0 no prolongamento, com um golo de Quaresma). Será este um bom prenúncio? Se for e der Portugal, de certeza que nenhum português se importará de receber a seleção ao som daquela canção que ficou famosa e que dizia: "Pouco importa, pouco importa, se jogamos bem ou mal, queremos é levar a taça para o nosso Portugal".