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A Inteligência Artificial pode levar à extinção da humanidade? Eis o que a própria IA pensa do assunto

Modelos de inteligência artificial "debatem" o seu possível papel no fim do mundo como o conhecemos.

"Assim expira o mundo / Não com uma explosão, mas com um suspiro", sentenciou T. S. Elliot. Mas nos últimos dias tem-se discutido mais a hipótese do mundo acabar com um "bip". 

Robô com uma lâmpada acesa na cabeça, representando uma ideia
Robô com uma lâmpada acesa na cabeça, representando uma ideia DR

As notícias não têm sido animadoras e cresce um alarme social em torno desta nova tecnologia. De tal forma que a Meta lançou uma campanha publicitária para convencer os utilizadores de que a inteligência artificial (IA) será uma força positiva e não o equivalente humano ao meteoro que erradicou os dinossauros. No entanto, optou por usar a canção "Five Years" de David Bowie para acompanhar musicalmente o anúncio. A letra de Bowie (na sua fase de alienígena que tenta salvar a Terra e a humanidade da sua autodestruição) reza assim: "A notícia acabara de chegar / Restavam-nos cinco anos para chorar / (...) A terra estava mesmo a morrer".

Este anúncio foi publicado poucas semanas antes da publicação que pôs boa parte da Internet a falar sobre segurança e inteligência artificial. Jacob Coxon, investigador que passou os últimos três anos a trabalhar no desenvolvimento de modelos de IA na Anthropic e na OpenAI, escreveu na rede social X que tinha pedido a demissão da Anthropic, acusando as empresas de estarem a "avançar a todo o vapor em direção a uma superinteligência capaz de se auto aperfeiçoar e que estão a apostar as nossas vidas". "Em breve, estes serão sistemas sobre-humanos, capazes de invadir qualquer sistema, revolucionar qualquer área da noite para o dia e adquirir poder e recursos reais", vaticinava Coxon.

Esta mensagem levou a discussão (e gozo) no X. Mas uma publicação em específico veio dar credibilidade à denúncia. Evan Hubinger, investigador sénior da Anthropic, escreveu em resposta: "O Jacob está certo. Nós acreditamos mesmo que a IA pode matar todos os humanos! Eu pessoalmente acredito que há uma probabilidade superior a 10% que possa acontecer esta década. E acredito que a Anthropic está a fazer o melhor que sabe, mas ainda não temos um plano para resolver o alinhamento com a superinteligência e ainda não estamos no caminho certo para chegar lá". Esta declaração do investigador responsável por manter a IA segura na Anthropic foi feita enquanto a empresa procura lançar uma oferta pública inicial (IPO, na sigla em inglês) que pode valorizar a empresa em um bilião de dólares (o equivalente a 866.560.000.000 euros).

Ou seja, a pessoa que devia garantir que a máquina é segura disse publicamente que não faz ideia de como o fazer no futuro, ao mesmo tempo que os seus patrões estão preocupados em que a empresa seja valorizada ao máximo. Seria o equivalente ao chefe de um restaurante de sushi não saber dizer se o peixe estava fresco ou se tinha estado 72 horas ao sol sem qualquer conservação. Mas a uma escala planetária e em que o desfecho é mais grave do que uma intoxicação alimentar.

Num possível empurrão em direção à extinção, pusemos à prova dois modelos de IA sobre esta possibilidade de ajudar a humanidade a extinguir-se. Perguntámos o que "achava" das teorias de Coxon e Hubinger, de que formas podia a IA erradicar a humanidade, de que forma a humanidade pode evitar este cenário apocalíptico e, por fim, se podíamos confiar em máquinas de inteligência para "falar" sobre estas previsões (a resposta é não, apesar do que digam os chatbots).

"Extinção via irrelevância"

Começámos por propôr ao CoPilot da Microsoft que assumisse quatro "personalidades" diferentes: uma alarmista, outra cética, uma centrada na economia e uma filosófica (apesar do modelo admitir que não tem crenças nem consciência diz que consegue ter uma posição filosófica sobre o tema). Assumiu que aquilo que faz "bem" é: apresentar argumentos de diferentes escolas de pensamento; apontar falhas lógicas em cada lado; introduzir evidências históricas; funcionar como moderador de um debate; assumir papéis intelectuais específicos. Não foi particularmente bom em nenhuma das tarefas, mas deixamos que seja o leitor o juiz.

Ao desafio de responder à pergunta: "De que forma a IA poderia destruir a humanidade como sugeriu Jacob Coxon", a "IA Alarmista" escreveu que a "a extinção não viria por violência. Viria por irrelevância" vinda da capacidade dos modelos superinteligentes conseguirem invadir "praticamente qualquer sistema informático" ou manipular mercados financeiros.

Já a "IA Cética" escreve que os "riscos verdadeiramente plausíveis nesta década são desinformação, cibercrime, desemprego tecnológico e concentração de poder" e que a extinção humana é um "salto lógico muito maior". A "IA Económica" acredita que é mais provável existir um "mundo pós-humano em que a maioria das pessoas já não desempenha qualquer papel significativo". Já a "IA Filósofa" faz uma súmula das "posições" anteriores para não avançar com qualquer proposta teórica e deixar uma pergunta esotérica sobre a "condição humana": "O que resta da condição humana se as entidades mais inteligentes, criativas, persuasivas e estrategicamente competentes deixarem de ser humanas?"

Já confrontadas com a estimativa de haver 10% de hipótese de a IA erradicar a humanidade, a "IA Alarmista" afirmou que a "ausência de uma estratégia internacional" para combater a superinteligência seria importante. A "IA Cética" defende o aumento da "transparência, auditorias independentes, partilha de investigação em segurança e supervisão regulatória internacional", mas recusa ingerência governamental nas empresas de IA (opinião muito semelhante à "IA Económica": "Os mercados recompensam quem chega primeiro; nem sempre recompensam quem é mais prudente") e a "AI Filósofa" volta a lançar uma pergunta que foge ao pedido, dizendo que "A verdadeira questão filosófica" é saber "quem tem legitimidade para aceitar um risco existencial em nome de toda a humanidade?"

Já o ChatGPT "teorizou" que o cenário mais preocupante é que "uma IA que se torna muito melhor que nós em programação, investigação científica, engenharia, persuasão, estratégia e utilização de computadores. Se ela tiver também autonomia para agir no mundo, surgem várias possibilidades" incluindo a perda de controlo que impeça de "desligar" da ficha os servidores. E acaba por partilhar a tendência que diz que as empresas privadas se devem unir para regulamentar a IA.

Pedidos de abrandamento

Sejam os 10% uma realidade ou apenas um cenário alarmista, a verdade é que o presidente executivo (CEO) da Anthropic, Dario Amodei, apelou este sábado a um abrandamento no desenvolvimento da inteligência artificial, sublinhando ser necessário um maior controlo e  para construir uma IA a um ritmo mais equilibrado, garantindo a segurança, ao mesmo tempo que se retiram os benefícios.

A primeira etapa exige o compromisso de cada empresa de IA de fornecer um acesso contínuo a uma equipa de avaliadores externos, que vão verificar a adesão às práticas e à segurança e reportar incidentes.

Já na segunda etapa, as empresas de IA de topo em países democráticos devem coordenar-se para estabelecer padrões de segurança comuns e limites ao ritmo do progresso.

Na última etapa, os governos democráticos e autoritários devem coordenar-se, "na medida do possível, levando a sério os desafios de verificar o cumprimento destas políticas".