Sábado – Pense por si

João Carlos Barradas
João Carlos Barradas
31 de outubro de 2026 às 08:00

Mbappé ofendeu o povo chinês

Arcar com o prejuízo, dissimular a ignomínia do «bater cabeça» – assim denominavam os relatos das missões católicas desde o século XVII o ritual kau-táu (kowtow) de levar a testa ao solo em prosternação ante o imperador – é um dado adquirido da diplomacia e dos negócios na República Popular da China.

Chamavam-lhe «tartaruguinha», pois que também lá o achavam parecido com o «Donatello» das «Tartarugas Ninjas», mas esta semana Mbappé foi banido por ter «ofendido os sentimentos do povo chinês».

Na semana em que Kylian Mbappé voltou a falhar a «Bola de Ouro» revelou-se, igualmente, tão ingrata a sorte da fofinha «Hello Kitty» quanto a do avançado francês.

A «Sanrio» – empresa de Tóquio proprietária da marca – viu-se obrigada a apresentar desculpas e retirar do mercado produtos associados à série japonesa de espionagem «VIVANT», censurada por branquear as atrocidades da ocupação nipónica da China entre 1937 e 1945.

No Japão, tal como nos Estados Unidos, que viram interditas digressões na China e transmissões televisas da NBA («Associação Nacional de Basquetebol») entre 2019 e 2025, a ira das autoridades e sanções de Pequim passaram a ser contingência indesejável e assumida como incontornável risco político.

Na Europa, por seu turno, é de regra tentar evitar que audiências ao Dalai Lama, alusões a abusos de direito humanos no Xinjiang (o «Chelsea», por exemplo, em 2019, «distanciou-se» das críticas de Mesut Özil, alemão de origem turca, à repressão de nacionalistas uigures) ou reconhecimento de contestatários ao regime redundem em represálias prolongadas capazes de acarretar graves prejuízos económicos e financeiros.

Arcar com o prejuízo, dissimular a ignomínia do «bater cabeça» – assim denominavam os relatos das missões católicas desde o século XVII o ritual kau-táu (kowtow) de levar a testa ao solo em prosternação ante o imperador – é dado adquirido da diplomacia e dos negócios na República Popular da China.

A Mbappé por esta altura já algum curador da marca lhe terá explicado que «um sincero pedido de desculpas» não basta e nem o «Real Madrid», nem a «LaLiga» escapam à justa fúria, acabando-se os patrocínios de empresas chinesas.

O goleador no podcast de Aurélien Tchouaméni – colega no «Real Madrid» e na selecção francesa – disse achar imensa graça a um «meme» em que surge como «um tipo, acho que era um ditador chinês».

Ria-se Mbapeé disso, de o apodarem desde 2022 de ditador pela sua influência desmesurada no «Paris Saint-German» e na selecção gaulesa que passaria a capitanear a partir de 2023.

Mbappé adiantou que passava a vida a partilhar as imagens com os amigos e este excerto galgou China afora, sem especificar de que «tipo» se tratava e ignorando o apodo de «ditador».

Impossível reproduzir e traduzir tamanha ignomínia asseverou «Dongqiudi», um dos maiores sites de desporto da República Popular.

Num instante as plataformas digitais da República Popular denunciaram insultos de um ingrato e ganancioso pelos lucros que lhe propiciava uma legião fãs, agora desiludidos, amargurados e revoltados.

O vídeo com imagens «do tipo» fora criado por Younes Khelifi, um professor de História e Geografia, adepto do «Paris Saint-Germain», em Novembro de 2024, três meses depois de Mbappé assinar pelo «Real Madrid».

A reposição, esta semana, de excertos do podcast «The Bridge» de Tchouaméni foi, assim, pretexto para uma campanha orquestrada por ocasião do Plenário anual do Comité Central do Partido Comunista.

Neste Outubro, sessenta anos passados sobre o desencadear da «Grande Revolução Cultural Proletária» de Mao Zedong – outra catástrofe assassina na sequência da colectivização da agricultura que levou à fome de 1959-1961 e custou a vida a mais de 20 milhões de chineses –, o Partido Comunista mostra-se hipersensível a alusões a eventos nefastos.

No universo digital da República Popular da China, que se define constitucionalmente como «estado socialista governado por uma ditadura democrática popular», foram, portanto, rasuradas quaisquer referências ao «tipo», ao «ditador chinês», que diverte Mbappé.

O repúdio por «ofensas intoleráveis ao povo chinês» é uma frase de propaganda que se tornou comum a partir de 1978 quando, dois anos após a morte de Mao Zedong, Deng Xiaoping encetou uma política de reformas para salvaguardar o regime e viabilizar a sanidade económica.

É dogma do regime a caracterização que Deng Xiaoping impôs em 1981: 70% das políticas de Mao, o «Grande Timoneiro», foram correctas e 30% negativas.

Justa e inquestionável a política do Partido Comunista, sob a liderança de Xi Jinping, desde 2012, não está para graças.

Bater cabeça é quanto exige a política de Grande Potência de Xi Jinping.

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