Weedtubers? Charros e milhares de espectadores

Maria Espírito Santo 01 de maio de 2017

Chamam-se weedtubers, fumam erva para milhares de espectadores – e ganham dinheiro com isso

A recepção ao espectador é feita do acolhedor quarto, entre panos e almofadas coloridas. A rapariga de cabelo metade loiro, metade roxo sorri para a câmara junto a uma parafernália de cachimbos e tubos de vidro: "É um bocadinho assustador mas eu sou a rainha dos dragões e vou conseguir fazer isto, f***-se!" Kimmy Tan só não arregaça as mangas porque veste um top de alças. Prepara-se para superar o desafio de dar 100 passas de erva.

O vídeo tem mais de 730 mil visualizações e é apenas um êxito no universo dos weedtubers – ou YouTubers que se dedicam, fundamentalmente, a fumar canábis e, em alguns casos, a ganhar dinheiro com isso. Os canais e os vídeos têm diferentes vertentes: se alguns se focam no lado lúdico, outros pretendem informar ou fazer companhia.

Kimmy, natural da Malásia, tem 22 anos e descreve-se como "tatuadora, cantora, compositora e criadora de uma marca de cosméticos". A sua presença no YouTube recua aos seus 14 anos, quando começou com os vídeos de música, a tocar guitarra e a cantar temas originais. Quando lhe elogiaram o look arrancou com os tutoriais de dicas de cabelo e maquilhagem. A canábis só viria depois, quando se mudou para a Califórnia, em 2014, explica à SÁBADO: "Senti que o canal tinha êxito quando comecei a ter pessoas de todo o mundo, de todo o tipo de meios. Conversavam entre eles, espalhavam boa onda, faziam-se amigos."

As pessoas querem aprender a enrolar bem uma ganza ou assistir a desafios, mas companhia é a palavra-chave: "É para se sentirem mais alegres e motivadas no resto do dia ou até só para saberem que têm ali uma amiga", acrescenta. A ligação mantém-se pelos detalhes: Kimmy publica pelo menos um vídeo semanalmente e despede-se sempre da mesma maneira: "Continuem a respirar fogo, meus pequenos dragões, e até nos voltarmos a ver... [pausa e dá uma passa] fiquem pedrados."

Cria-se uma relação com o outro lado da câmara. Que o diga Coral Reefer, que a 15 de Janeiro decidiu fazer uma revelação pessoal. "Feliz domingo pedrado para todos. Hoje tenho um convidado especial", anuncia sorridente. Ao seu lado, no sofá, senta-se um rapaz de T-shirt tingida a várias cores. "Temos escondido um segredo", explica. Nos 30 minutos de conversa seguintes explicam como Mio, o namorado, nem sempre foi homem e como se conheceram no jardim-de-infância, quando eram ambos do sexo feminino. "Quero deixar bem claro que se és transexual não tens de dar explicações. Isto é algo que quero partilhar convosco." Não é só a partilha. O casal responde às perguntas dos fãs que chegam em directo – querem saber se ele já fez a operação, se pensam ter filhos.

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