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Mais de 40% dos cuidadores informais não sentem benefícios do estatuto

Inquiridos dizem que não teve implicações positivas nem na sua saúde mental nem nos seus rendimentos.

Mais de 40% dos cuidadores informais inquiridos num estudo esta quinta-feira divulgado consideram que o Estatuto do Cuidador Informal não teve implicações positivas nem na sua saúde mental nem nos seus rendimentos.

Cuidadores informais
Cuidadores informais Medialivre

Os resultados do estudo "Retrato da Saúde em Portugal no Pós-Pandemia: Perceções, Acesso aos Cuidados e Uma Só Saúde”, promovido pela Ordem dos Médicos, revela também que 14,7% dos inquiridos dizem prestar regularmente cuidados a alguém com problemas de saúde prolongados.

Entre estes cuidadores, 34% afirmam dedicar 20 ou mais horas por semana a essa atividade, disse à agência Lusa o coordenador científico do estudo, Tiago Correia, lembrando que os sistemas de saúde europeus se baseiam muito no cuidado informal, uma responsabilidade que está sujeita "muitas vezes a uma dimensão de género e, portanto, tendem a ser as mulheres".

Apesar de o Estatuto do Cuidador Informal ter sido aprovado em 2019, mais de 40% consideram que este não teve efeitos positivos na sua saúde mental nem no seu rendimento, um resultado que, para Tiago Correia, merece particular atenção, tendo em conta o papel que os cuidadores informais desempenham na sociedade.

O investigador aponta três questões que devem ser discutidas: Se o Estatuto está a ser devidamente implementado, se é preciso “expandir os apoios, porque efetivamente não estão a cobrir as necessidades dos cuidadores”, ou se é necessário repensar o próprio modelo, que se baseia no cuidado informal e em ter as pessoas em casa.

Na perspetiva de Tiago Correia, este modelo tem custos para quem cuida, resultando em elevada pressão psicológica e financeira, uma vez que o cuidador “está necessariamente afastado do mercado de trabalho e afastado da sua autonomia de vida”.

O coordenador científico do estudo alertou ainda que quase metade dos cuidadores informais considera que está numa situação de dificuldade quer de saúde mental, quer financeira.

O estudo foi promovido pela Ordem dos Médicos e realizado pelo Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, através do Centro Colaborador da Organização Mundial da Saúde para as Políticas e Planeamento da Força de Trabalho em Saúde.

Segundo o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, o estudo integra a iniciativa “Um Rumo para a Saúde” que visa preparar o sistema de saúde português para as próximas décadas, através de uma reflexão aberta à sociedade e sustentada em informação científica.

“O projeto cruza as perspetivas da população, dos médicos e dos estudantes de Medicina para identificar necessidades e fundamentar propostas concretas de transformação”, explicou o bastonário numa nota escrita à Lusa.

Segundo Carlos Cortes, a iniciativa pretende definir, perante o envelhecimento, as desigualdades no acesso e as mudanças científicas, tecnológicas e sociais, os cuidados que a população vai precisar, que profissionais Portugal deve formar e como devem ser organizados os serviços para garantir respostas em tempo adequado, com qualidade e segurança.

“A ambição é colocar o futuro da saúde na agenda do país e construir compromissos duradouros que protejam quem precisa de cuidados hoje e as gerações que se seguem. Este trabalho pretende ajudar a sustentar a reforma profunda que é necessária para o SNS", sublinhou Carlos Cortes.

O estudo decorreu entre setembro e novembro de 2025 e envolveu 700 entrevistas telefónicas a adultos residentes no Continente e nas regiões autónomas.