Tomás não resistiu à leucemia, mas outras crianças podem ter uma oportunidade
Depois da morte do filho mais velho, a família (conhecida pelo nome Batazu) tem feito de tudo para conseguir que um inovador tratamento de imunoterapia possa ser feito no país. Ainda não existe produção de células CAR-T em Portugal - mas eles estão perto de o conseguir.
De uma experiência muito dura, e com um desfecho infeliz, está a nascer uma coisa positiva – e que pode vir a ser uma mais-valia no tratamento de crianças com cancro. Posto de outro maneira: a história de Tomás – o filho mais velho da família Batazu, que em 2021 foi diagnosticado com um tipo agressivo de cancro no sangue, leucemia mieloide aguda, mas não resistiu à doença – não foi em vão.
Desde a sua morte que os pais, Tomás e Margarida, têm lutado para trazer a produção de um tratamento de imunoterapia (as chamadas células CAR-T) para Portugal. E nesta terça-feira, 21 de abril, que é o dia em que se assinala internacionalmente a doença, anunciam mais um passo nesse sentido: a fundação de uma empresa de biotecnologia que vai permitir que isso aconteça.
“Percebemos que tudo o que vivemos com o nosso filho, que foram tempos espetaculares mas muito difíceis ao mesmo tempo, em que ele sofreu muito, pode ser uma mais-valia. Aproveitar aquilo que sabemos para trazer alguma coisa boa para as nossas crianças”, diz à SÁBADO o pai, Tomás Lamas, que é médico intensivista e fundador da empresa chamada Batazu Advanced Therapeutics.
O tratamento que está disponível para este tipo agressivo de tumor no sangue é a quimioterapia e o transplante de medula. “Nós últimos 20 anos, embora tenham surgido alguns fármacos, não houve uma mudança de paradigma”, lamenta. Depois de esgotarem estas opções com o filho – sendo que Tomás não pôde ser transplantado em Portugal, porque não reunia as condições necessárias – foram procurar outras opções ao estrangeiro.
Tomasinho (como a família o tratava) fez terapias inovadoras com células CAR-T em Israel e também na China – onde acabaria por morrer, a 8 de fevereiro de 2023. O tratamento é uma forma de imunoterapia que usa o próprio sistema imunitário do doente para combater o cancro. Também já existe em Portugal mas depende de centros de produção no estrangeiro.
As células do doente são recolhidas no hospital (em sítios como o IPO de Lisboa ou o do Porto), enviadas para laboratórios na Europa e nos Estados Unidos que as modificam geneticamente, e depois reenviadas para Portugal para serem administradas. Outra limitação é que para este tipo de cancro (que Tomás tinha) não eram eficazes. “Porque a doença conseguia ter um mecanismo de escape à terapêutica”, explica o pai.
Mas, graças ao esforço desta família, isso pode estar prestes a mudar. “Procurámos encontrar soluções de CAR-T para introduzir em Portugal e surgiu esta oportunidade de uma que já foi desenvolvida nos Estados Unidos, que demonstrou grande eficácia na eliminação da doença”, conta Tomás Lamas.
O próximo passo
A novidade é que, de forma diferente de outras destas soluções que existem no mercado, tem um mecanismo que ataca dois alvos ao mesmo tempo. “O que faz com que a possibilidade de ter uma recaída depois da terapêutica reduza significativamente”, diz. Outra boa notícia é que a empresa criada pela família conseguiu obter as patentes para desenvolver esta tecnologia em Portugal.
Neste momento, estão a estabelecer parceria com uma empresa no norte de Portugal (para já não querem divulgar o nome) – que é das únicas com classificação específica própria para poder produzir terapias celulares avançadas. O próximo passo é demonstrar que é possível produzir esta CAR-T com segurança no país, e receber a aprovação das entidades reguladoras (da Agência Europeia do Medicamento, EMA, e do Infarmed). Mas para isso é preciso financiamento.
“Estamos a falar de cerca de um milhão de euros só para fazer esta parte do desenvolvimento e de demonstrar às autoridades que isto funciona. E como não é fácil encontrar este tipo de financiamento em Portugal submetemos candidatura a financiamento europeu”, diz.
Conseguindo o dinheiro para arrancar, prevê-se que os testes demorem um ano e que depois disso, se for tudo aprovado pelas entidades reguladoras, os ensaios clínicos (em doentes) possam logo começar. A ideia é usar a tecnologia como estratégia para reduzir a taxa de recaída dos doentes, ou seja, “como ponte para transplante”, avança.
O que vivemos com o nosso filho pode ser uma mais-valia. Vamos aproveitar o que sabemos para trazer alguma coisa boa para as nossas crianças
Tomás Lamas, médico intensivista e fundador da Batazu Advanced Therapeutics
Cargo
O especialista explica porquê: “Os doentes, mesmo quando fazem o transplante, a taxa de recaída anda à volta dos 50%. E a taxa de sobrevivência ao fim de cinco anos é de 20%, o que é muito desanimador”, diz o pai. “Ao aplicarmos esta CAR-T nesta fase vamos conseguir, talvez, eliminar a chamada célula rainha responsável pela leucemia e, com isso, reduzirmos as recaídas. Se conseguirmos que baixe para os 20% já salvaria muitas vidas”, diz, esperançoso.
Apesar de manter o seu trabalho como médico, esta é a missão que ocupa todas as suas horas livres, admite Tomás Lamas. A família quer que o percurso e o infeliz desfecho do filho possam ganhar algum sentido - dando esperança aos doentes com leucemia mieloide aguda.
“Obviamente, não era isto que queríamos para o nosso filho, acreditámos fortemente que conseguiríamos chegar a uma solução, mas infelizmente não fomos a tempo. Portanto, queremos fazer aqui uma mudança e permitir que os filhos de outros não tenham de ir para o estrangeiro à procura de soluções.”
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