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Dentro daquilo que procuramos fora

Gonçalo Câmara 08 de janeiro de 2026 às 08:00

Gonçalo Câmara realça que a viagem talvez seja apenas um movimento em direção ao que nos ultrapassa. Procuramos o que não se deixa possuir

Há momentos na viagem onde ficamos diante de algo que não se move por nossa causa nem precisa de nós. É o mundo calado. Um lago espelhado, uma encosta coberta de neblina ou o vazio onde a vista se perde. O corpo, que tantas vezes se julga centro, torna-se medida mínima. Perante o absoluto, tudo o que trago - ideias, pressas, manias e vaidades - perde volume. Não é uma derrota, é um alívio.
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Estrada sinuosa corta paisagem montanhosa sob nevoeiro denso
Foto: Getty Images
Reflexão e natureza: pessoa sentada num cais observa lago e montanhas
Foto: Getty Images
Viagem em direção ao desconhecido e ao que transcende
Foto: Getty Images
A natureza não valida intenções nem aplaude. Está, simplesmente. E, ao estar, mostra-nos o contraste entre o que é essencial e o que apenas fazemos para nos distrair da sua ausência. A grandeza do que não se explica é também o que nos devolve escala. Ficamos reduzidos ao simples ato de olhar. Não há mais função. E acredito também que não há maior função. É aí que o “eu” se desmancha um pouco, como se o lago o absorvesse ou a montanha o dissolvesse em pedra e vento. Não há conquista possível, nem fotografia que traduza. O que existe é a consciência de que, por instantes, estamos dentro daquilo que sempre procurámos do lado de fora. Não há conquista possível. Nenhuma fotografia restitui o espanto, nenhuma frase contém a medida exata do que foi sentido. O real excede sempre o registo. E, ainda assim, é nessa tentativa falhada de traduzir que continuamos humanos: precisamos de contar para suportar o silêncio. A viagem, no fundo, talvez seja apenas um movimento em direção ao que nos ultrapassa. Procuramos o que não se deixa possuir, o que escapa ao plano, o que nos obriga a calar. E, quando o encontramos, nem sempre sabemos o que fazer com ele. Só estar já é demasiado. Por instantes, estamos dentro daquilo que sempre procurámos do lado de fora. A paisagem não muda. Quem muda é o olhar. E esse instante basta para nos lembrar que há mundos inteiros onde o humano não tem protagonismo, apenas presença. É pouco e é tudo. Já uma vez o disse e creio até que já escrevi sobre isto: o melhor da viagem é o regresso. Quando regressamos, trazemos pouco que se veja. Nenhum troféu, nenhuma conclusão. Só um tipo de silêncio que vai ficando, discreto, entre as frases. As pessoas perguntam como foi, e respondemos com clichés porque o que realmente aconteceu não se diz. Fica guardado nos gestos pequenos, na forma como passamos a olhar o tempo. Esses instantes em que o mundo nos ignora acabam por se tornar bússola. Não apontam direções, mas medidas. Lembram-nos o tamanho certo das coisas, a fragilidade do ego, a força do que não precisa de palco. É por isso que a viagem não termina no regresso, apenas muda de campo: passa a ser interior, quase secreta. E talvez seja esse o verdadeiro privilégio: perceber que o espanto está na possibilidade de ver os instantes sem querer possuí-los. O absoluto não se conquista, apenas se visita. E quando nos deixa voltar, é como se o mundo tivesse ficado igual, mas nós já não.
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