Mossack Fonseca ajudou a esconder "saco azul" do GES

Negócios 09 de abril de 2016

A ES Enterprise Saco, através da qual o Grupo Espírito Santo fazia pagamentos fora dos circuitos oficiais, foi o "saco azul" do GES durante 21 anos e era uma das clientes da Mossack Fonseca, diz o Expresso.

Por Jornal de Negócios

O Expresso revela na sua edição deste sábado que o chamado "saco azul" do Grupo Espírito Santo, que faz parte dos documentos investigados, assentaria em 300 "offshores" criadas pela sociedade de advogados panamiana Mossack Fonseca. 
A TVI e o Expresso, recorde-se, integram o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (CIJI) que investigou mais de 11,5 milhões de documentos e 2,6 terabytes de informação secreta que foram retirados da base de dados interna daquela sociedade – sendo este conjunto de documentos, ligados a quase quatro décadas de actividade da empresa, conhecido como "Papéis do Panamá". Segundo a capa do Expresso, a Mossack ajudou a esconder o "saco azul" do GES durante 21 anos, através da ES Enterprise, usada para pagamentos fora dos circuitos oficiais.
Na terça-feira, 5 de Abril, o Negócios sublinhava já que o Panamá era onde o GES tinha um banco para enganar o BdP. "O ES Bank Panamá era um discreto banco da família Espírito Santo que ganhou fama antes do colapso do GES. O paraíso fiscal que anda nas bocas do mundo por ter ajudado figuras internacionais foi usado por Ricardo Salgado para enganar o Banco de Portugal", referia. 
Os sinais de alarme em relação ao discreto banco do GES nas Caraíbas soaram internacionalmente cinco dias depois de Ricardo Salgado ter abandonado a liderança do BES, em Julho de 2014. No dia 18 de um dos piores meses da história da família Espírito Santo, o regulador do Panamá anunciava ter assumido o controlo temporário do banco, perante o risco de insolvência da instituição.
Para justificar os problemas do ES Bank Panamá, o supervisor financeiro local, conhecido por Superintendência de Bancos do Panamá (SBP), apontava o dedo ao GES: os problemas dos seus principais accionistas limitam o acesso "a recursos financeiros e afectam a sua capacidade de prosseguir a actividade", detalhava o comunicado da SBP.
No Verão de 2014, enquanto as "holdings" de controlo da família Espírito Santo pediam a protecção de credores, o seu banco no Panamá ganhava notoriedade internacional. Três semanas depois da resolução do BES, a Reuters noticiava que o banco fazia parte de um esquema que permitiu financiar o GES em cerca de 5.000 milhões de euros, recorrendo, indirectamente, aos clientes do BES, já depois de o Banco de Portugal ter proibido a venda de dívida da área não financeira do grupo aos balcões da instituição financeira.Poucas semanas mais tarde, foi a vez de o Financial Times revelar que, pelo menos desde 2012, o ES Bank Panamá era usado para financiar as "holdings" de controlo do GES. "O banco do Panamá ligado aos Espírito Santo existia quase exclusivamente para adquirir dívida emitida pela ESI e as suas subsidiárias Rioforte e Espírito Santo Irmãos, de acordo com um relatório dos administradores do ES Bank", escrevia o diário britânico a 11 de Setembro de 2014.
O presidente da KPMG Portugal, Sikander Sattar, havia de confirmar na comissão parlamentar de inquérito à gestão do BES e do GES, em Dezembro de 2014, que o ES Panamá fazia parte do esquema de financiamento do grupo.Mas as ligações financeiras ocultas com o banco do Panamá não passaram apenas pelas "holdings" de topo do GES. Também houve financiamentos do BES ao ES Bank Panamá. E em violação de determinações do Banco de Portugal. A denúncia consta do primeiro sumário executivo da auditoria forense que a Deloitte realizou à queda do BES a pedido do Banco de Portugal.

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