Durante anos acreditou-se que Epstein não tinha filhos, no entanto, o nome de Celina surge repetidamente nos depoimentos de pessoas que integravam o círculo mais próximo do criminoso sexual, nomeadamente do seu antigo mordomo e de uma portuguesa, que na altura trabalhava como porteira do prédio onde vivia em Paris.
Paris, 23 de setembro de 2019, 15 horas. Oito agentes da polícia francesa e um procurador substituto apresentam-se no nº 22 da Avenue Foch com um mandado de busca na mão e atravessam o portão preto que dá acesso ao edifício neoclássico elegante. Na altura, entre os residentes do apartamento encontravam-se uma princesa saudita, uma artista originária do Médio Oriente, uma empresária do setor da moda e Jeffrey Epstein.
Documentos de Jeffrey Epstein divulgados pelo Departamento de JustiçaFoto AP/Jon Elswick
Apesar de o criminoso sexual ser norte-americano e possuir mansões em Nova Iorque e na Florida, além de no Novo México, em França tinha uma outra residência. Foi, aliás, nesse apartamento que viveu durante muito tempo em regime de arrendamento, até que em 2002 acabou por adquirir a totalidade dos 800 metros quadrados do segundo andar deste imóvel, por €3,5 milhões. Foi exatamente um mês depois da operação policial que foi aberto um inquérito preliminar por violações e agressões sexuais, nomeadamente contra menores, e foi com base nesse inquérito que a polícia francesa invadiu o edifício em questão, onde encontraram Maria Gomes de Melo, uma portuguesa que na altura desempenhava funções de porteira.
Já dentro do apartamento, nas paredes, encontraram o antigo proprietário do local fotografado ao lado de celebridades, entre as quais o atual presidente dos EUA, Donald Trump, o papa João Paulo II ou o cantor Mick Jagger. E havia ainda divisões da casa repletas de fotografias de raparigas nuas ou em poses sensuais. Foi, no entanto, uma outra imagem completamente diferente que atraiu os olhares das autoridades francesas. Era uma fotografia que estava em destaque sobre uma "prateleira de madeira" e mostrava uma "menina loira com 7 ou 8 anos, vestida com um vestido de verão branco, deitada de barriga para baixo numa mesa de massagem".
"Estava a receber uma massagem nas pernas de uma jovem loira em fato de banho", descreveram os polícias citados pelo jornal francês Le Parisien. Confrontados com esta imagem, decidiram interrogar Maria, que explicou: "Trata-se de Celina e da sua mãe, Eva".
Mais tarde, os investigadores descobriram dois CD-ROM. Num deles, constava a lista de 62 jovens com quem Epstein havia mantido relações sexuais, bem como a indicação de "menor" ou "maior de idade". O outro continha o nome de "Celina", associado ao de Joseph Paradiso. A polícia voltou, então, a questionar Maria sobre o sucedido, que adiantou: "Não sei quem é Joseph Paradiso, mas a Celina acho que era a filha biológica do Sr. Epstein", apontou.
Esta foi a primeira vez que Celina foi mencionada como suposta filha de Epstein. Até então, considerava-se que Epstein não tinha descendentes.
Na altura, as alegações poderiam até ser vistas como fantasias por parte de uma funcionária que procurava algum sensacionalismo. Contudo, sabe-se que Maria fazia parte do círculo mais próximo de Epstein. Além disso, era companheira de Vadson Vieira Cotrin, o brasileiro que na altura era mordomo de Epstein. Foi, aliás, ele quem levou Epstein ao aeroporto a 6 de julho de 2019, para o voo com destino a Nova Iorque, que viria a ser o seu último, uma vez que foi detido pelo FBI à chegada.
Apesar dos estranhos comportamentos de Epstein, Valdson dizia-se satisfeito com a companhia do americano. "O senhor" só vinha a Paris "dez dias a cada dois meses", recordou a 29 de setembro de 2019, no Gabinete Central para a Repressão da Violência contra as Pessoas (OCRVP). Foi ainda durante o seu depoimento que detalhou ao pormenor as suas funções na casa, que envolviam, entre outras coisas, cozinhar, conduzir o seu chefe ou convidados ou manter as instalações limpas.
Sobre as fotos das raparigas nuas, Valdson classificou-as como "arte" e, sobre se terá visto muitas raparigas jovens na habitação, respondeu: "Não olhava para os documentos delas, mas para mim não havia menores". Adiantou ainda, em sua defesa, que não tinha o direito de entrar numa sala sem ter sido previamente convidado. Já questionado pelos investigadores sobre que pessoas famosas havia visto naquela casa, respondeu: "Lembro-me da filha do Sr. Epstein". E foi mais longe: "Chama-se Celina", mas "não tem o apelido Epstein. Digo a filha, mas, na realidade, não sabemos de nada", no entanto, "é o que pensamos, juntamente com os outros funcionários", explicou o mordomo. "Porque ela é muito parecida com ele e ele dizia-me que, quando ela vinha, era muito importante para ele."
Esta teoria não só foi apresentada por Maria e Valdson, como também foi corroborada por uma terceira testemunha: Malika. A francesa tinha 23 anos quando caiu na teia de Epstein, em 2013, e era uma das pessoas que melhor conhecia Epstein, que a transformou na sua escrava sexual. Na altura, o criminoso tinha-lhe disponibilizado um dos estúdios adjacentes ao apartamento da Avenida Foch. Além disso, em várias ocasiões, Malika também se deslocou à ilha privada de Epstein nas Caraíbas - a Little Saint-James.
Questionada em 2022 pelos investigadores sobre se conheceu algum membro da família de Epstein, disse: "Sim, a Celina." E continuou: "A mãe dela chamava-se Eva, vivia em Nova Iorque e estava a estudar Medicina. Vi-a em Palm Beach [onde Epstein tinha uma mansão]. Foi no Dia de Ação de Graças. Ela estava lá com o Jeffrey."
O que liga Epstein a Celina?
De facto, Epstein nunca escondeu o fascínio que sentia por Celina, cujo apelido seria Dubin. Segundo o Le Parisien, que cita várias investigação jornalísticas, Epstein sempre se comportou, aliás, como um pai perante ela. Celina nasceu em março de 1995, e era filha de Eva Andersson - coroada Miss Suécia em 1980, que teve uma relação com Epstein de 1983 até ao início da década de 1990, antes de ter casado, em 1994, com o bilionário Glenn Dubin.
No final de 2019, uma investigação do site Business Insider revelou que Epstein admitiu ter estado presente no hospital no momento do parto. Oficialmente, Celina é a filha mais velha do casal Dubin, que viria a ter mais dois filhos, e Jeffrey Epstein foi nomeado padrinho, a quem sempre chamou de "tio Jeffrey". Em várias mensagens, ele referia que ela era a sua "pessoa preferida no mundo".
"Jeffrey mantém uma relação particularmente próxima com Celina, de 12 anos", observava o Business Insider, que se baseia no dossier fornecido pela defesa de Epstein aquando a primeira acusação judicial. "Celina escreveu que o tio Jeff arranja tempo, apesar da sua agenda pessoal e profissional, para ir à sua casa e rever com ela a matéria de ciências e matemática".
O mesmo documento cita um outro exemplo. Num dia em que o pai estava "demasiado ocupado com o trabalho e não a pôde acompanhar a uma festa pai-filha no âmbito do seu curso de dança de salão", Celina ligou a Epstein que acorreu imediatamente. "Ele substituiu o meu pai naquela noite e deu-me exatamente a sensação de ter o meu pai comigo", sublinhou.
Entre os milhões de ficheiros sobre Epstein, que foram disponibilizados em fevereiro deste ano pela justiça norte-americana, o Le Parisien também descobriu algumas trocas de mensagens curiosas.
Em 2011, quando a rapariga tinha 16 anos, Epstein propôs irem às compras em Paris. "Que roupa gostarias de ter", escreveu-lhe. "Tudo", respondeu ela. "Tu sabes do que gosto. Preciso de umas camisolas giras que me fiquem bem e sejam pouco sensuais, para poder usar quando sair à noite." Noutra ocasião, é Eva quem convida o criminoso a ir ver a afilhada a jogar lacrosse (desporto que se pratica com uma raquete).
Além disso, quando Celina manifestou interesse em ingressar na Universidade de Harvard, para estudar Medicina, Epstein recomendou-a ao seu amigo Martin Nowak, um biólogo de renome e professor. "Por favor, ajuda-a de todas as formas possíveis", pediu ele num e-mail datado de 2011.
Nesse mesmo ano, Epstein conheceu Bill Gates na companhia de Celina: organizou um jantar com toda a família Dubin e o cineasta Woody Allen, de quem era amigo íntimo. No ano seguinte, propôs a Celina oferecer-lhe uma "sessão fotográfica" profissional. Para isso, contratou Jean-Luc Brunel, uma figura de destaque no mundo da moda francesa, que forneceria também alegadamente jovens modelos a Epstein, de quem ele supostamente abusava.
"Podemos organizar uma sessão fotográfica para a Celina?", perguntou Epstein em 2012. "Não há nenhum problema", respondeu rapidamente o francês. "Ela está em Nova Iorque? Quando é que ela o quer fazer? Assim que tiver datas trato disso." A polícia francesa acabou por encontrar as 96 fotografias da sessão no famoso CD "Celina Joseph Paradiso".
Não bastava já esta forte ligação, Epstein ainda a chegou a nomear como principal herdeira, segundo documentos do advogado de Epstein que foram recuperados pelos franceses no âmbito da busca realizada em 2019.
No testamento datado de 2017, Epstein previa deixar a Celina o seu apartamento na Avenida Foch, "mais um milhão de dólares". No entanto, no testamento redigido no início de 2019, o criminoso sexual foi mais longe: designou-a de "beneficiária principal e residual a 100% do seu fundo fiduciário". Em jogo estavam as suas três ilhas, o seu rancho Zorro no Novo México e cerca de 70 milhões de euros. Já no último testamento de 8 de agosto desse ano, dois dias antes da sua morte, Karyna Shuliak, a sua última companheira, tornou-se a herdeira número um.
No início de 2020, Celina renunciava, então, parte da herança que lhe cabia, enquanto as vítimas de Epstein exigiam que os bens do criminoso fossem usados para as indemnizar.
Atualmente com 30 anos, a jovem é médica no prestigiado hospital Mount Sinai, em Nova Iorque. "Eva Dubin ficou horrorizada com os atos indescritíveis cometidos pelo Sr. Epstein, dos quais nunca teve conhecimento", defendeu a mãe num comunicado citado pelo Le Parisien. "Ela está profundamente entristecida."
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