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O amor resistente ao vírus da SIDA deu-lhes um filho

Quando se casou com Maria, João não sabia que estava infectado com o VIH. Tiveram um filho e só quatro meses depois é que ele descobriu que estava doente: foi dar sangue para ter três dias de folga da tropa e disseram-lhe que tinha um problema. Como por milagre, nem a criança nem a mãe foram afectadas - e vivem juntos há mais de 30 anos.

Texto de Leonor Riso, com fotografia de Ricardo Meireles e vídeo de Paula Lameiras

Quando se casou com Maria, João não sabia que estava infectado com o VIH. Tiveram um filho e só quatro meses depois é que ele descobriu que estava doente: foi dar sangue para ter três dias de folga da tropa e disseram-lhe que tinha um problema. Como por milagre, nem a criança nem a mãe foram afectadas - e vivem juntos há mais de 30 anos.

Texto de Leonor Riso, com fotografia de Ricardo Meireles e vídeo de Paula Lameiras

João e Maria chegam de braço dado, como andam desde que se apaixonaram há décadas durante um Verão. Eram dois jovens que se encontraram ao pé da casa dos pais dela, "por acaso". Um instante que o levou a mudar de país e a casar-se com ela, num 12 de Abril. Que lhes deu um filho cinco meses depois do casamento e que os manteve juntos enquanto ele andava nas drogas, e depois no álcool. Tudo porque se amam – mesmo que o terceiro protagonista desta história seja o VIH. João é seropositivo há mais de 30 anos. 

Miúdos, conheceram-se na década de 80, quando ela tinha 16 anos, e ele 18. João vivia em França, emigrado, com a família. Vinha atrás do sol para o norte de Portugal. "Para mim foi uma paixão assolapada. Quando o vi, foi aquele amor mesmo tiro e queda. Foi aquela paixão, "tem que ser para mim", eu fiquei logo… Radiante com ele", recorda ela. Para João, "era mais uma". Afinal, ele tinha uma namorada no estrangeiro – que Maria desconhecia. "Depois é que as coisas começaram a evoluir…"

A saída da tropa não trouxe felicidade ao jovem casal. "Descobri lá que tinha o VIH", recorda João. Em França, drogava-se e infectou-se através das agulhas. "No nosso tempo era a mesma para todos. Não se sabia nada", relata, a agarrar a mão de Maria.

Um dia, ele foi dar sangue para ter três dias de folga da tropa. Uma semana depois, chamaram-no à enfermaria.

"Perguntaram-me se tinha ido às prostitutas, e eu disse que não. Três dias depois, chama-me o comandante e diz que eu tinha que ir ao hospital militar. Também não me disseram nada do que eu tinha, ou deixava de ter", lamenta. João foi questionado sobre se era homossexual, e negou. "Você tem aqui um problema", responderam-lhe. Pela primeira vez, falaram-lhe do VIH. "Era uma certidão de óbito."

João saiu do hospital com uma carta e encaminhado para o Hospital Joaquim Urbano, especializado em doenças infecciosas. Encontrou o médico Rui Sarmento, que até hoje lhe "salvou a vida várias vezes". "Explicou-me tudo, tim tim por tim tim, o que era, o que deixava de ser…", agradece. Décadas depois, já não se lembra de como contou a Maria da infecção. Ela diz que a memória apagou algumas coisas.

João e Maria já eram pais quando souberam que ele estava infectado com o VIH. Nos primeiros meses, não sabiam se o bebé de quatro meses ou a mãe tinham sido contagiados. O médico pediu logo análises. Deu negativo. 

As "doenças oportunistas" deixavam João no hospital por muito tempo, sem trabalhar. A lista é longa: teve meningite, tuberculose, várias pneumonias, zona, gastroenterites. Viu muita gente morrer. "No hospital notávamos logo uma pessoa com SIDA, porque tinha um olhar triste, vazio. Isso mexia comigo, cá dentro, ainda mexe", garante. Maria ficava "com o coração nas mãos": "Quando eu chegava lá, por vezes havia um rebuliço e ele depois dizia: 'Olha, mais um que morreu.' E eu pensava: 'Vai ser ele a seguir?'". Ele prossegue: "Ali a maior parte era tudo agarrado à cocaína, heroína, só drogas pesadas", conta. "O meu grande apoio era a minha rapariga. Era o meu castelo."

Maria superou os problemas "com muito sofrimento e com muito amor por ele". Quando ele chegava bêbado ou drogado, ela saía de casa. "Mais tarde pu-lo entre a espada e a parede: 'Se tu continuas assim, vais para casa da tua mãe.' Mas não conseguia estar longe dele e sabia que ele precisava de mim", revela. Ao mesmo tempo, o bebé crescia. Com o filho ao colo, Maria saía de casa para o trabalho às cinco da manhã e chegava muito tarde.
Maria lamenta não ter tido toda a paciência para o filho. "Falhei um bocado nisso. Quando ele me dizia: "Mamã, vem jogar cartas comigo", eu "não posso, tenho que fazer isto ou aquilo…". O casal optou por não contar logo do VIH às famílias, que ao longo dos anos foram se apercebendo. Com o filho não foi assim. Conforme crescia, ele começou a fazer perguntas: porque passava o pai tanto tempo internado? Confrontou a mãe.
"Ele fazia perguntas e eu fiquei a pensar: 'Alto. Será a hora de lhe contar?' Fiquei na dúvida, mas fi-lo. Disse que o pai era seropositivo, que a doença dele só se pegava através do sangue e que o pai não ia morrer. Já havia medicamentos. Tudo aconteceu porque o pai tinha andado na droga e se tinha infectado", explicou Maria ao filho. O rapaz não revelou ao pai que sabia do VIH, mas mudou de atitude. "Andava sempre com paninhos quentes atrás de mim. Percebi que estava a tentar proteger-me", relata João. "Foi engraçado."

Maria foi analisada duas vezes para saber se estava infectada: deu negativo. "Pensou-se que o VIH se transmitia pela saliva. Mas nunca deixei de dar um beijo ao meu marido." 

E hoje as pessoas estão mais informadas? "Podem estar, mas mantêm-se distantes" , diz João. Pouca gente sabe que ele é seropositivo.

Em 2012, João soube que tinha cancro na língua. Fez sessões de quimioterapia e de radioterapia, enquanto tomava a medicação retroviral.

"O que mais me custou foi ter de ser alimentado por um tubo… Os comprimidos eram esmagados para serem dados através do líquido. Fiz os dois tratamentos ao mesmo tempo", reforça João. Maria não tem dúvidas que ele tinha razão no que dizia, sobre haver "uma estrela no céu a olhar" por ele. "A família disse-me depois que não sabia como é que ele tinha resistido, que eles pensavam que ele ia desta para melhor".

Hoje, a carga vírica de João é negativa: menos de 50 unidades por centímetro cúbico. Ele olha para o futuro com uma boa perspectiva "porque a medicina se está a desenvolver muito e a a própria doença está a ser controlada". Mesmo assim, os dois não têm relações sexuais sem protecção e ele já apanhou um susto. "Uma médica fez-me uma biópsia ao fígado e picou-se com uma agulha. Está bem, mas sempre que estou com ela, pergunto se está tudo limpo. Fico com medo", suspira.

"Penso que há pessoas que se se apaixonarem por alguém que tem o vírus, vão pensar duas vezes. Depende da mentalidade. Eu pensava que não poderia ter mais filhos, gostava de ter mais, mas depois soube que podia ter", explica Maria. "Há uma limpeza do esperma, a inseminação… Só não tive outro filho porque financeiramente não tinha disponibilidade. Só por isso mesmo. De resto, faço o que toda a gente faz. Se calhar até vou morrer antes dele."

Texto e edição: Leonor Riso
Fotografia: Ricardo Meireles
Vídeo: Paula Lameiras 
Webdesign: Edgar Lorga
Produção multimédia: Sandro Martins 

© SÁBADO 2018

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